quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Ed. 26 - Tudo que eu precisava - Uma pequena biografia dos The Cars.

Os fãs do Television têm motivos de sobra pra odiar os The Cars. Oriundos de Boston, que é para Nova Iorque, mais ou menos, o que Niterói é para o Rio de Janeiro, os Cars chegaram à grande maçã com uma enorme disposição de fazer sucesso. Afinal, a banda já existia há 7 anos em 1979 e nunca havia sentido nem de longe o gostinho do estrelato. Foi quando um olheiro da Elektra assistiu um show do grupo e percebeu que a proposta musical era muito próxima a de uma outra banda na qual a gravadora investiu muito e não obteve grandes resultados. Lidar com o ego de Tom Verlaine, líder do Television, não era nada fácil e o som pop-progressivo da "nova" banda era muito próximo do deles, com a vantagem de soar bem mais comercial.

Na semana seguinte, o Television estava sumariamente demitido da Elektra,  após dois retumbantes fracassos comerciais, os os excelentes Marquee Moon e AdventureThe Cars, finalmente, foram contratados. No ato da demissão, Tom Verlaine ainda teve que engolir do executivo que os demitiu que "os Cars fazem exatamente a mesma coisa que vocês, só que melhor, com mais apelo pop e são maleáveis e melhor de lidar".

Não era exatamente assim. Em comum, os grupos tinham a pegada quase "powerpop" tão em moda naqueles dias e canções mais desaceleradas, que destoavam da velocidade que parecia ser senso comum entre as bandas da época. E só. Os Cars eram mais pop, o Television mais lírico. Compará-los desta forma seria uma grande injustiça com ambos.

O visual não era exatamente o ponto forte dos Cars.

A banda começou ainda em 1969, em ColumbusOhio, quando Benjamin Orr, baixista, conheceu Ric Ocasek, guitarrista sofrível e compositor promissor. Ao mostrar algumas de suas músicas a OrrOcasek notou que a voz do novo amigo se encaixava perfeitamente em suas canções. Acabaram montando uma espécie de banda de baile que se especializaria em tocar o top 40 das paradas de rock americanas. Insatisfeitos, em 1972, passaram a tocar as composições de Ocasek em um duo folk chamado MilkWood. 

Não foram muito longe, indo mais precisamente para Boston, cidade próxima e mais desenvolvida. Lá conheceram Greg Hawkes e Elliot Easton da "famosíssima" dupla "Hawkes & Easton", também firmes no caminho para o anonimato. Hawkes era um talentoso multi-instrumentista e Easton, um guitarrista apenas correto. As duas duplas sub-platinadas resolveram juntar os trapos, acrescentando um baterista à formação. Em 74, um aborrecido David Robinson, ex-baterista dos Modern Lovers originais, chateado com a guinada acústica de Jonathan Richman, fecharia a formação. Nascia o "Cap & Swing", uma banda de blues-rock. Ainda assim, nada aconteceria.

Os Carros com os motores funcionando.

Com o crescente interesse de Hawkes por sintetizadores, Robinson sugeriu que a banda mudasse de estilo e de nome, passando a se chamar The Cars e tocando um som mais vigoroso e roqueiro, condizente com o que estava sendo feito à época. Até então, o rótulo New Wave não havia sido inventado pela mídia e bandas como Blondie e The Knack, ou não existiam ainda ou estavam no começo da carreira. 

Fizeram uma tosquissima demo com a música Just What I Needed ("tudo que eu precisava") e percorreram todo o circuito de clubes da área de Nova Iorque e Boston. Em uma destas apresentações, lá estava o olheiro da Elektra, que compraria a demo da banda e a levaria até os executivos da gravadora.

É bom dizer que, sem querer defender executivos da indústria fonográfica, a Elektra era uma das mais atrevidas gravadoras dos Estados Unidos, tendo bancado as loucuras de gente como Stiv Bators (Dead Boys) e Iggy Pop, nem sempre com retorno financeiro. Uma certa vez, peitaram o governo americano quando este pediu a demissão sumária dos "subversivos" do MC5, oferecendo, em caso de recusa, uma devassa fiscal. Tom Verlaine deve ter aborrecido muito os executivos da gravadora. Melhor para os Cars.

Mais arrumadinhos, para o último álbum, em 1987.

Em 78 lançam seu disco de estréia, The Cars,um álbum cru, com canções das bandas anteriores dos integrantes do grupo em um formato que viria a determinar o que se entenderia por New Wave nos anos seguintes. O sucesso relativo e surpreendente de quase todas as canções do disco faria com que, menos de um ano depois, as lojas recebessem "Candy-O" com uma imensa expectativa. Nem a capa, que trazia o desenho de uma mulher semi-nua e que, anos depois, viria a ser descaradamente copiada pelos Strokes em seu disco de estréia, incomodou os lojistas. Outro "quase grande" sucesso, com inúmeras faixas próximas dos primeiros lugares. A renovação do contrato com a Elektra estava garantido.

Panorama, momento artístico máximo da banda

Em 1980, os Cars soltam "Panorama", o terceiro e melhor disco, e adquirem respeito da crítica especializada, que elege o álbum como "o melhor da década de 80", quando, para alguns, a década sequer começara. Começa a assim rotulada "New Wave" com o grupo The Knack estourando todas as paradas com a sacolejante "My Sharona". Os Cars pegam carona (o que é, no mínimo, curioso para uma banda com esse nome) e põem seu álbum em primeiro lugar. 

Paradoxalmente, nenhum single do grupo tem a mesma sorte. Percebendo o potencial comercial da banda, a Elektra, que, de qualquer forma, era (e é) uma gravadora e visa retorno financeiro, resolve investir pesado. Com "Shake It Up", primeiro single retirado do quarto disco homônimo, banda e gravadora atingem, afinal, seus objetivos, fazendo com que os Cars consigam sucesso mundial.


"Heartbeat City", o sucessor de "Shake It Up", é lançado um pouco mais de dois anos depois, com muita expectativa sobre o "retorno dos Cars ao disco". O sucesso mundial da balada "Drive" entope a conta bancária dos músicos mas cria um impasse estético-criativo. Enquanto Ocasek quer retornar às raízes do som da banda, Orr, que já não era nenhum garoto, prestes a se tornar um quarentão, quer tornar o som do grupo ainda mais "comercial". Ocorre então a primeira separação, literalmente no auge do sucesso. Ric é o primeiro a se lançar em carreira solo, soltando um disco de estréia que é muito mais a cara dos The Cars que o último disco do seu grupo. Orr permanece dublando "Drive" em programas de televisão e no ano seguinte lançaria um disco solo, irreconhecível para um ex-membro dos Cars, cuja faixa principal, "Stay The Night", estouraria até no Brasil.

Ben Orr, traidor do movimento?

Em 87, por força de contrato, os Cars ainda lançariam Door To Door, uma tentativa fracassada de retomar o sucesso da banda. Mesmo sem nenhuma canção em grande evidência nas paradas, o grupo parte para uma melancólica turné de despedida pelos Estados Unidos. Chegam a tocar em ginásios semi-vazios , onde são obrigados a executar "Drive" seguidas vezes, por insistência de uma platéia que, definitivamente, não era composta de autênticos fãs do grupo. Desmarcam a maioria das datas e encerram definitivamente as atividades.


Ric Ocasek. Sem dúvida, um dos grandes guitarristas do rock. Media quase dois metros.



Ric Ocasek se tornaria produtor respeitado de diversas bandas do circuito Nova Iorque/Boston, como Guided By Voices e WeezerOrr seguiria em carreira-solo tocando "Drive" mundo afora, até morrer de câncer em 2000, quando os Cars perpetravam mais uma volta. Com a morte de seu vocalista principal, o grupo é definitivamente enterrado, mas sua influência permanece em bandas como os Strokes, que os "homenagearam" em seu segundo disco, copiando competentemente o som dos rapazes de Boston.

Em 2005 acontece o que ninguém previa. Os Cars retornam às atividades. Quer dizer, mais ou menos. Elliot Easton e Greg Hawkes, membros originais, se juntam a ninguém menos que Todd Rundgren e formam os The New Cars, tocando basicamente o repertório do grupo anterior. Como diria o comediante Groucho Marx, a história não se repete. Nem como farsa.

(Publicado originalmente em 2006)

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Ed. 25 - Mudança de comportamento - As bandas que mudaram de estilo - Parte I

Imaginem um grupo de música negra, de funk e famoso, como por exemplo, o Kool & The Gang,  que resolve mudar a direção musical  sei lá, para a bossa-nova ou para o reggae. Ou um grupo de reggae se transmutando, quem sabe,  em uma banda de funk. Pois é, é quase impossível que algo assim aconteça. A não ser que a banda em questão seja uma banda de rock.  Aí, tudo é possível e só o céu é o limite para tanta indecisão. Sou gótico ou sou headbanger? Punk ou bossa-novista? Sou new-waver ou salseiro de quinta? É sobre as mudanças "inacreditáveis" que algumas de nossas mais prestigiosas bandas já passaram , que vamos tratar aqui.


NAKED - Talking Heads (1989) - OTalking Heads, desde sempre, foram muito indecisos quanto ao próprio direcionamento musical. Começaram como uma banda punk (no sentido nova-iorquino da coisa) no início da carreira. Lançaram um disco experimental sem sintetizadores e outro ainda mais experimental, entupido de sintetizadores, em parceria com o músico Brian Eno. Fizeram um excelente disco "funk", outro terrivelmente pop (e bom) e outro pop "pero no mucho", já com o cantor e guitarrista David Byrne completamente à frente das idéias.

Então, reviravoltas na sonoridade nunca foram exatamente surpresas, em se tratando do quarteto careta da big apple. Mas, um dia, o líder David Byrne viajou à Bahia e lá conheceu a axé-music e suas vertentes. Aliás eu não esqueço o dia em que, ao sair do Shopping Barra (na época eu morava em Salvador), me deparo com aquela figura esquálida e branca carregando um berimbau king-size. Era ele, Byrne em pessoa. A surpresa foi tanta que nem deu tempo de pedir um autógrafo. Mas isto é uma outra história.

Quando os Talking Heads lançaram o fraquinho True Stories, poderiam muito bem ter terminado ali. O cansaço da fórmula era óbvio. O grupo havia assinado um contrato com a Capitol para três discos, e parir o segundo já havia sido uma tortura. Mas a banda tinha que fazer mais um disco e este superou negativamente todas as expectativas. Além de completamente diferente de um disco normal dos Heads, "Naked" era, e é, pois o tempo não o perdoou, muito, mas muito ruim. Em primeiro lugar, não era verdadeiramente um álbum do grupo. Entupido do que se convencionou chamar de "world music", está mais para um disco solo de Byrne. Seria até mais honesto se levasse apenas o seu nome, e ainda pouparia os colegas do vexame. Pouco depois, Byrne, após uma das inúmeras visitas à Bahia, manteve contado de primeiríssimo grau com o "pagodão" e o "arrocha". Graças a Deus, nesta altura, os Talking Heads já haviam acabado.


SINCHRONICITY - The Police (1983) - Já Sting, muito antes de se tornar defensor perpétuo da floresta da chuva, ao lado do meu amigo, o índio Raoni, era um músico de jazz-rock em Fim-de-Mundo do Norte, uma pequena cidade lá na longínqua Inglaterra. Até que o punk-rock tomou conta da ilha da rainha e Sting resolveu que também iria montar uma banda punk, junto aos "punkérrimos" amigos Stewart Copeland, também jazzista e o progressivo Andy Summers. 

Mesmo com tudo contra, a banda deu certo, se a(pro)fundou no reggae, a ponto de batizar seu, até então, melhor disco com a corruptela da frase "reggae de branco".  Até este disco, que seria o seu terceiro, a banda levava a sério aquela história da simplicidade do punk. Nem um tecladozinho sequer aqui ou ali. Era tudo crú, embora a guitarra classuda de Summers fizesse a diferença. Mas para que eu fui reclamar? Algum tempo depois, um Police recheado de blimps e bumps se apresentava a mim com o hit Every Little Thing She Does Is Magic. Mesmo entupido de teclados, o disco, que se chamava Ghost In The Machine, para minha surpresa, era francamente bom. Aliás, era até melhor que os outros. Outro momento ideal para encerrar as atividades. Mas eles tinham que lançar mais um disco.... O resultado é um álbum bem pop, quase sem guitarras e que seria bem fraquinho mesmo se não fosse a esquisita Mother, cantada por ninguém menos que Andy Summers. Ah, tá. Tem Every Breath You Take, a mais conhecida do grupo até hoje. De mais a mais, o disco se parece muito mais com o seguinte de Sting do que com seus anteriores.

GET CLOSE - The Pretenders (1987) - Chryssie Hynde sofreu muito com sua banda The Pretenders. Tal como Elvis Costello, teve que se mudar para a Inglaterra e lá formar seu próprio grupo musical. No auge do sucesso, perdeu nada menos que o guitarrista-solo e o baixista para as drogas. Reformulou a banda, lançou o excelente Learning To Crawl, em que contava as agruras passadas até então.

Sofrido e emocional, seria um excelente último disco para a banda. Mas ela tinha que lançar mais um (mais uns, na verdade, pois Hynde conseguiu manter o o grupo na ativa até hoje) e este, de The Pretenders, agora, só tinha o nome da banda e o guitarrista do disco anterior  Enquanto as músicas da banda falavam de noitadas, de relacionamentos passageiros e da vida cotidiana de um solteiro, "Get Close" (mais perto) , de 1986, falava justamente do contrário, da vida de mulher casada e com filhos. 

Excelente hipotético disco solo de Miss Hynde, "Get Close" é apenas um álbum fraquinho dos Pretenders, o primeiro de uma longa lista. Mas, pelo menos, é bom. Só que Chryssie ainda iria mais longe e lançaria, sob a griffe Pretenders, coisas horrendas como a radiofônica  I'll Stand By You e outras baboseiras de FM. Mas, tudo bem, ninguém é mesmo perfeito e ela é uma excelente canastrona.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Ed. 24 - Os mais notórios bateristas do rock.

Em uma das bandas em que toquei pela vida afora, sempre que eu me lamentava dos problemas com bateristas, nosso produtor me consolava dizendo que eu relevasse, pois "todo baterista é problemático". Eu bem que sei disto, pois, curiosamente, ingressei na música pelo instrumento. Comecei a tocar bateria aos 15 anos, em uma proto-banda cujo kit percussivo era formado por gavetas de guarda roupa e uma luminária de poste de rua que servia de prato. Mais tarde, toquei em outras bandas que despontariam para o anonimato e só depois passei para a guitarra, por simples falta de guitarristas para tocar. Então, praticamente estas primeiras foram as bandas que tive em que nada tinha a reclamar do homem das baquetas, já que o tal era eu mesmo. Já os outros instrumentistas...

Mas, puxando a brasa para minha antiga sardinha, e sem também querer bancar o advogado do diabo, tocar bateria é mesmo uma opção de gente não muito convencional. Bate-se em um monte de tambores e pratos com os quatro membros em (nem sempre) perfeita sintonia. E sem contar que alguns ainda gostam de executar, em shows, as fatídicas peças chamadas "solos de bateria". E discos solo de bateristas, hein? Que coisa esquisita... Eis aqui, então, cinco destes seres, que podem nem ser os melhores - e certamente não são - mas que, por motivos diversos, alcançaram alguma notoriedade tocando seu instrumento:


Ringo Starr -  Nascido Richard Starkey, em Liverpool, Inglaterra, no ano de 1940, substituiu Pete Best nos Beatles e, óbvio, tirou a sorte grande, se tornando o ritmista da banda mais famosa do mundo.

Ringo é um verdadeiro metrônomo humano, nunca perdendo o ritmo, mesmo tocando em situações inaceitáveis, como em estádios cheios de garotas gritando e sem PA de retorno, como nos primeiros shows americanos dos Beatles em grandes arenas. Tocava vigorosamente na caixa, sem muitos floreios, ao contrário de muitos outros bateristas de sua época. Starr colocava a mesma força em ambas as mãos, ao contrário de seus contemporâneos, que pesavam no prato e pegavam leve na caixa. Seu estilo influenciou muitos outros músicos contemporâneos, inclusive Charlie Watts, dono das baquetas nos Rolling Stones.

Ringo, que tinha este apelido por gostar de usar muitos anéis, foi o primeiro a deixar os Beatles, reclamando que composições suas não entravam nos discos da banda. Também foi o primeiro a voltar, duas semanas depois, obrigando os companheiros a implorar por sua volta. Por outro lado, Ringo Starr sempre foi a "cola" que manteve os Beatles unidos em momentos de crise.


Steve White - Nascido em Londres em 1965, foi o baterista mais jovem a estar no palco do Live Aid, em 1983. Com forte influência de jazz, imprimiu ao pop luxuoso do grupo Style Council um estilo único, de poucas viradas e o uso constante dos pratos, mesmo nas canções mais pop-rock. Nas gravações do grupo, e principalmente, nas apresentações ao vivo, parecia estar sempre a um passo do desastre, tamanha sua ousadia em contratempos que desafiam a lógica.

Steve, que nunca quis ser integrante oficial do Style Council, deixou o grupo de Paul Weller em 1989, no auge do sucesso, apenas para retornar no ano seguinte. E sair de novo.  Desde então, entra e sai de grupos e projetos solos que envolvam WellerSteve White é irmão de Alan White, não o baterista do Yes, mas o do Oasis, tendo inclusive substituído Alan em alguns shows do grupo dos irmãos Lennon.


Keith Moon  - Baterista do The WhoMoon era dono de um estilo exuberante e inovador. Nascido em 1946 e morto em 1978, por overdose de remédios, tinha fama de pessoa difícil e excêntrica. Enquanto Ringo Starr trouxe a economia para o rock, Keith flertou com a extravagância. Se podia ser simples, porquê não complicar? E tome viradas, contratempos, baterias demolindo em pleno palco.  Foi, também, um dos primeiros a utilizar kit duplo de bateria.

Muitos torciam o nariz para seu jeito de tocar, inclusive, em muitos momentos,  seus próprios companheiros de banda, mas sua importância para o rock é indiscutível. Era conhecido pela sua fama de decompassado (seu apelido era "Moon, the loon", ou "Moon, o lunático"). Também era  notório destruidor de quartos de hotéis, praticamente dando origem ao divertido passatempo de muitos rockstars. Keith Moon morreria aos 32 anos, após um jantar com Paul McCartney, no mesmo apartamento no qual a cantora Mama Cass, do Mama's & The Papa's havia morrido quatro anos antes, entalada com um sanduíche.


Stewart Copeland - Irmão do famoso produtor Miles CopelandStewart nasceu americano em 1952.  Seu pai era agente da CIA, o que o fez rodar o mundo, indo parar na Inglaterra nos anos 70. Foi roadie da banda de rock progressivo Curved Air, onde, mais tarde, assumiria o posto de baterista e, na sequencia, tentou se lançar na carreira artística com o pseudônimo de Klark Kent, cantando e tocando guitarra. Quase que simultaneamente, entrou para o grupo The Police, com Sting Andy Summers. Seu single como "Klark Kent" chegou a ficar nas paradas ao mesmo tempo que "Can't Stand Losing You", primeiro single do Police.
         

Seus detratores afirmam que seu estilo de tocar, nada mais é do que uma mera adaptação do estilo do jazzista Buddy Miles (do qual Copeland é fã assumido) para o rock,. Foi imitado mundo afora, inclusive no Brasil. Entre os muitos brasileiros acusados de imitá-lo está João Barone, à frente das baquetas dos Paralamas do SucessoBarone costuma dizer que não o imita e que ambos, ele e Stewart Copeland, são, na verdade, muito influenciados por Miles.


Doktor Avalanche - E, por último mas não por derradeiro, o meu baterista preferido, o anglo-nipônico Doktor Avalanche. Avalanche era conhecido por ser um cara caladão, disciplinado e obediente como todo bom baterista deve ser. Também nunca faltou a um ensaio, nunca reclamou do cachê e estava pronto para tocar em questão de minutos.  Seu kit sempre estava montado.

À frente das baquetas do grupo gótico inglês Sisters Of Mercy, este músico é considerado uma verdadeira "máquina". Aliás, uma não, foram sete ao longo da carreira do grupo. A banda de Andrew Aldritch foi a primeira a se utilizar unicamente de uma bateria eletrônica, tanto em shows como em discos. Todo guitarrista, todo baixista, todo vocalista, sonha em ter um baterista como Avalanche. Enfim, finalmente, um baterista perfeito.

Brincadeiras a parte, o baterista é o motor de uma banda, principalmente no rock. Se uma banda fosse um PF, ele seria o feijão e o baixista o arroz. Sem baterista, não há rock and roll. Um grande abraço a todos os bateras que lerem este artigo e um pedido de paciência a guitarristas, baixistas, tecladistas e vocalistas. Eles são chatos, nós sabemos, mas, sem dúvida, são imprescindíveis. Longa vida aos homens das baquetas!

domingo, 4 de setembro de 2016

Ed. 23 - O dia em que o U2 faliu uma banda.

Quando o grupo norte-americano Metallica, em sua ensandecida luta contra o Napster, no início do milênio, chegou a impedir fãs de terem acesso a Internet, certamente achou que estava lutando contra uma minoria de piratas virtuais conspirando para lhes tirar parte do enorme quinhão de dólares que forra suas contas bancárias. Nos EUA, onde ocorreu o impedimento judicial, um fã tem muito mais possibilidades de assistir a um dos caríssimos shows da banda, e certamente, quem passou um ano proibido de acessar a web, fez questão de não dar nem mais um dólar ao grupo de Lars Ulrich. Pior fez quem, mesmo não sendo impedido de ter acesso ao mundo virtual, se sentiu muito indignado com o fato e se solidarizou com os outros fãs. Eu mesmo só não deixei de ser fã do Metallica por um simples motivo: nunca gostei muito mesmo da banda.

Já o U2, banda tão envolvida em causas pacifistas, tão "do bem" que esquece até de fazer música para praticar boas ações, sempre deu declarações a favor da troca de arquivos pela Internet, o que já lhes rendeu um "cala-boca" quando nada menos que sete faixas de um de seus discos vazaram Internet afora. Recentemente, o U2 até se viu metido em um "quiproquó" com usuários do I-tunes, indignados por serem obrigados a baixar - de graça - o mais novo álbum da banda.

Mas este U2, caridoso e compreensivo, em  1992 faliu uma banda. É isto mesmo. E não faliu o Bon Jovi ou o Duran Duran. A "vítima" foi um grupo underground norte-americano pouco conhecido até mesmo dentro do seu país. Vamos à história:

Em 20 de agosto de 1991, a banda Negativland lançou, pela pequena gravadora SST, um single com a canção "U2". A tal canção era uma colagem de partes da música "I Still Haven't Found What I'm Looking For" com uma fita de um radialista da terra do Tio Sam, sobre uma base musical criada pelo próprio grupo. Na capa do single, o nome U2 aparece em letras garrafais, ao contrário do nome da banda. Para desfazer qualquer possibilidade de que o lançamento do single pudesse parecer esperteza -  embora fosse, é claro - , uma etiqueta colada ao plástico da embalagem trazia a observação que não se tratava de um disco do U2.  Foram distribuídas 3.000 cópias do single.  A menor vendagem de um disco do U2,  até então, era de pouco mais de 2 milhões de cópias do primeiro disco.

Em 5 de outubro do mesmo ano, a SST recebeu uma notificação judicial. Sem muita saída, imprensada pelas poderosas Island Records (de propriedade do U2) e Warner Chappel, a editora do super-grupo, a pequena gravadora aceitou todas as exigências: Todas as cópias enviadas a críticos, lojas de discos e estações de rádio teriam que ser devolvidas à Island sob pena de multa e prisão. Tanto para a gravadora quanto para os que receberam os discos. Os singles em estoque na SST também teriam que ser enviados à gravadora para destruição imediata. Todo o material utilizado para confecção do disco, como fitas master, acetatos, etc, também deveria ser enviado imediatamente à gravadora, assim como todo material promocional. Os direitos autorais da música foram transferidos imediatamente para o U2. 

A gravadora SST e o Negativland foram obrigados a pagar uma multa de 25 mil dólares e cerca de 100 dólares por cada um dos 700 discos vendidos e não retornados. Isto faz de U2, do Negativland o single mais caro da história da música. Como esta última quantia (U$70.000) foi tudo que o grupo Negativland arrecadou em 14 anos de existência, foi decretada a sua flência. Qualquer dúvida sobre a veracidade destas informações pode ser tirada aqui
         
Moral da história: Ela é imoral demais para ter alguma moral. Mas, por via das dúvidas, deixem a obra do U2 em paz. Ou façam como o Lighthouse Family, que usou partes de uma das canções do grupo, One, em uma de suas músicas. Mas pagou milhões por isso. E olha que eles  ainda não encontraram o que estavam procurando...