terça-feira, 20 de setembro de 2016

Ed. 25 - Mudança de comportamento - As bandas que mudaram de estilo - Parte I

Imaginem um grupo de música negra, de funk e famoso, como por exemplo, o Kool & The Gang,  que resolve mudar a direção musical  sei lá, para a bossa-nova ou para o reggae. Ou um grupo de reggae se transmutando, quem sabe,  em uma banda de funk. Pois é, é quase impossível que algo assim aconteça. A não ser que a banda em questão seja uma banda de rock.  Aí, tudo é possível e só o céu é o limite para tanta indecisão. Sou gótico ou sou headbanger? Punk ou bossa-novista? Sou new-waver ou salseiro de quinta? É sobre as mudanças "inacreditáveis" que algumas de nossas mais prestigiosas bandas já passaram , que vamos tratar aqui.


NAKED - Talking Heads (1989) - OTalking Heads, desde sempre, foram muito indecisos quanto ao próprio direcionamento musical. Começaram como uma banda punk (no sentido nova-iorquino da coisa) no início da carreira. Lançaram um disco experimental sem sintetizadores e outro ainda mais experimental, entupido de sintetizadores, em parceria com o músico Brian Eno. Fizeram um excelente disco "funk", outro terrivelmente pop (e bom) e outro pop "pero no mucho", já com o cantor e guitarrista David Byrne completamente à frente das idéias.

Então, reviravoltas na sonoridade nunca foram exatamente surpresas, em se tratando do quarteto careta da big apple. Mas, um dia, o líder David Byrne viajou à Bahia e lá conheceu a axé-music e suas vertentes. Aliás eu não esqueço o dia em que, ao sair do Shopping Barra (na época eu morava em Salvador), me deparo com aquela figura esquálida e branca carregando um berimbau king-size. Era ele, Byrne em pessoa. A surpresa foi tanta que nem deu tempo de pedir um autógrafo. Mas isto é uma outra história.

Quando os Talking Heads lançaram o fraquinho True Stories, poderiam muito bem ter terminado ali. O cansaço da fórmula era óbvio. O grupo havia assinado um contrato com a Capitol para três discos, e parir o segundo já havia sido uma tortura. Mas a banda tinha que fazer mais um disco e este superou negativamente todas as expectativas. Além de completamente diferente de um disco normal dos Heads, "Naked" era, e é, pois o tempo não o perdoou, muito, mas muito ruim. Em primeiro lugar, não era verdadeiramente um álbum do grupo. Entupido do que se convencionou chamar de "world music", está mais para um disco solo de Byrne. Seria até mais honesto se levasse apenas o seu nome, e ainda pouparia os colegas do vexame. Pouco depois, Byrne, após uma das inúmeras visitas à Bahia, manteve contado de primeiríssimo grau com o "pagodão" e o "arrocha". Graças a Deus, nesta altura, os Talking Heads já haviam acabado.


SINCHRONICITY - The Police (1983) - Já Sting, muito antes de se tornar defensor perpétuo da floresta da chuva, ao lado do meu amigo, o índio Raoni, era um músico de jazz-rock em Fim-de-Mundo do Norte, uma pequena cidade lá na longínqua Inglaterra. Até que o punk-rock tomou conta da ilha da rainha e Sting resolveu que também iria montar uma banda punk, junto aos "punkérrimos" amigos Stewart Copeland, também jazzista e o progressivo Andy Summers. 

Mesmo com tudo contra, a banda deu certo, se a(pro)fundou no reggae, a ponto de batizar seu, até então, melhor disco com a corruptela da frase "reggae de branco".  Até este disco, que seria o seu terceiro, a banda levava a sério aquela história da simplicidade do punk. Nem um tecladozinho sequer aqui ou ali. Era tudo crú, embora a guitarra classuda de Summers fizesse a diferença. Mas para que eu fui reclamar? Algum tempo depois, um Police recheado de blimps e bumps se apresentava a mim com o hit Every Little Thing She Does Is Magic. Mesmo entupido de teclados, o disco, que se chamava Ghost In The Machine, para minha surpresa, era francamente bom. Aliás, era até melhor que os outros. Outro momento ideal para encerrar as atividades. Mas eles tinham que lançar mais um disco.... O resultado é um álbum bem pop, quase sem guitarras e que seria bem fraquinho mesmo se não fosse a esquisita Mother, cantada por ninguém menos que Andy Summers. Ah, tá. Tem Every Breath You Take, a mais conhecida do grupo até hoje. De mais a mais, o disco se parece muito mais com o seguinte de Sting do que com seus anteriores.

GET CLOSE - The Pretenders (1987) - Chryssie Hynde sofreu muito com sua banda The Pretenders. Tal como Elvis Costello, teve que se mudar para a Inglaterra e lá formar seu próprio grupo musical. No auge do sucesso, perdeu nada menos que o guitarrista-solo e o baixista para as drogas. Reformulou a banda, lançou o excelente Learning To Crawl, em que contava as agruras passadas até então.

Sofrido e emocional, seria um excelente último disco para a banda. Mas ela tinha que lançar mais um (mais uns, na verdade, pois Hynde conseguiu manter o o grupo na ativa até hoje) e este, de The Pretenders, agora, só tinha o nome da banda e o guitarrista do disco anterior  Enquanto as músicas da banda falavam de noitadas, de relacionamentos passageiros e da vida cotidiana de um solteiro, "Get Close" (mais perto) , de 1986, falava justamente do contrário, da vida de mulher casada e com filhos. 

Excelente hipotético disco solo de Miss Hynde, "Get Close" é apenas um álbum fraquinho dos Pretenders, o primeiro de uma longa lista. Mas, pelo menos, é bom. Só que Chryssie ainda iria mais longe e lançaria, sob a griffe Pretenders, coisas horrendas como a radiofônica  I'll Stand By You e outras baboseiras de FM. Mas, tudo bem, ninguém é mesmo perfeito e ela é uma excelente canastrona.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Ed. 24 - Os mais notórios bateristas do rock.

Em uma das bandas em que toquei pela vida afora, sempre que eu me lamentava dos problemas com bateristas, nosso produtor me consolava dizendo que eu relevasse, pois "todo baterista é problemático". Eu bem que sei disto, pois, curiosamente, ingressei na música pelo instrumento. Comecei a tocar bateria aos 15 anos, em uma proto-banda cujo kit percussivo era formado por gavetas de guarda roupa e uma luminária de poste de rua que servia de prato. Mais tarde, toquei em outras bandas que despontariam para o anonimato e só depois passei para a guitarra, por simples falta de guitarristas para tocar. Então, praticamente estas primeiras foram as bandas que tive em que nada tinha a reclamar do homem das baquetas, já que o tal era eu mesmo. Já os outros instrumentistas...

Mas, puxando a brasa para minha antiga sardinha, e sem também querer bancar o advogado do diabo, tocar bateria é mesmo uma opção de gente não muito convencional. Bate-se em um monte de tambores e pratos com os quatro membros em (nem sempre) perfeita sintonia. E sem contar que alguns ainda gostam de executar, em shows, as fatídicas peças chamadas "solos de bateria". E discos solo de bateristas, hein? Que coisa esquisita... Eis aqui, então, cinco destes seres, que podem nem ser os melhores - e certamente não são - mas que, por motivos diversos, alcançaram alguma notoriedade tocando seu instrumento:


Ringo Starr -  Nascido Richard Starkey, em Liverpool, Inglaterra, no ano de 1940, substituiu Pete Best nos Beatles e, óbvio, tirou a sorte grande, se tornando o ritmista da banda mais famosa do mundo.

Ringo é um verdadeiro metrônomo humano, nunca perdendo o ritmo, mesmo tocando em situações inaceitáveis, como em estádios cheios de garotas gritando e sem PA de retorno, como nos primeiros shows americanos dos Beatles em grandes arenas. Tocava vigorosamente na caixa, sem muitos floreios, ao contrário de muitos outros bateristas de sua época. Starr colocava a mesma força em ambas as mãos, ao contrário de seus contemporâneos, que pesavam no prato e pegavam leve na caixa. Seu estilo influenciou muitos outros músicos contemporâneos, inclusive Charlie Watts, dono das baquetas nos Rolling Stones.

Ringo, que tinha este apelido por gostar de usar muitos anéis, foi o primeiro a deixar os Beatles, reclamando que composições suas não entravam nos discos da banda. Também foi o primeiro a voltar, duas semanas depois, obrigando os companheiros a implorar por sua volta. Por outro lado, Ringo Starr sempre foi a "cola" que manteve os Beatles unidos em momentos de crise.


Steve White - Nascido em Londres em 1965, foi o baterista mais jovem a estar no palco do Live Aid, em 1983. Com forte influência de jazz, imprimiu ao pop luxuoso do grupo Style Council um estilo único, de poucas viradas e o uso constante dos pratos, mesmo nas canções mais pop-rock. Nas gravações do grupo, e principalmente, nas apresentações ao vivo, parecia estar sempre a um passo do desastre, tamanha sua ousadia em contratempos que desafiam a lógica.

Steve, que nunca quis ser integrante oficial do Style Council, deixou o grupo de Paul Weller em 1989, no auge do sucesso, apenas para retornar no ano seguinte. E sair de novo.  Desde então, entra e sai de grupos e projetos solos que envolvam WellerSteve White é irmão de Alan White, não o baterista do Yes, mas o do Oasis, tendo inclusive substituído Alan em alguns shows do grupo dos irmãos Lennon.


Keith Moon  - Baterista do The WhoMoon era dono de um estilo exuberante e inovador. Nascido em 1946 e morto em 1978, por overdose de remédios, tinha fama de pessoa difícil e excêntrica. Enquanto Ringo Starr trouxe a economia para o rock, Keith flertou com a extravagância. Se podia ser simples, porquê não complicar? E tome viradas, contratempos, baterias demolindo em pleno palco.  Foi, também, um dos primeiros a utilizar kit duplo de bateria.

Muitos torciam o nariz para seu jeito de tocar, inclusive, em muitos momentos,  seus próprios companheiros de banda, mas sua importância para o rock é indiscutível. Era conhecido pela sua fama de decompassado (seu apelido era "Moon, the loon", ou "Moon, o lunático"). Também era  notório destruidor de quartos de hotéis, praticamente dando origem ao divertido passatempo de muitos rockstars. Keith Moon morreria aos 32 anos, após um jantar com Paul McCartney, no mesmo apartamento no qual a cantora Mama Cass, do Mama's & The Papa's havia morrido quatro anos antes, entalada com um sanduíche.


Stewart Copeland - Irmão do famoso produtor Miles CopelandStewart nasceu americano em 1952.  Seu pai era agente da CIA, o que o fez rodar o mundo, indo parar na Inglaterra nos anos 70. Foi roadie da banda de rock progressivo Curved Air, onde, mais tarde, assumiria o posto de baterista e, na sequencia, tentou se lançar na carreira artística com o pseudônimo de Klark Kent, cantando e tocando guitarra. Quase que simultaneamente, entrou para o grupo The Police, com Sting Andy Summers. Seu single como "Klark Kent" chegou a ficar nas paradas ao mesmo tempo que "Can't Stand Losing You", primeiro single do Police.
         

Seus detratores afirmam que seu estilo de tocar, nada mais é do que uma mera adaptação do estilo do jazzista Buddy Miles (do qual Copeland é fã assumido) para o rock,. Foi imitado mundo afora, inclusive no Brasil. Entre os muitos brasileiros acusados de imitá-lo está João Barone, à frente das baquetas dos Paralamas do SucessoBarone costuma dizer que não o imita e que ambos, ele e Stewart Copeland, são, na verdade, muito influenciados por Miles.


Doktor Avalanche - E, por último mas não por derradeiro, o meu baterista preferido, o anglo-nipônico Doktor Avalanche. Avalanche era conhecido por ser um cara caladão, disciplinado e obediente como todo bom baterista deve ser. Também nunca faltou a um ensaio, nunca reclamou do cachê e estava pronto para tocar em questão de minutos.  Seu kit sempre estava montado.

À frente das baquetas do grupo gótico inglês Sisters Of Mercy, este músico é considerado uma verdadeira "máquina". Aliás, uma não, foram sete ao longo da carreira do grupo. A banda de Andrew Aldritch foi a primeira a se utilizar unicamente de uma bateria eletrônica, tanto em shows como em discos. Todo guitarrista, todo baixista, todo vocalista, sonha em ter um baterista como Avalanche. Enfim, finalmente, um baterista perfeito.

Brincadeiras a parte, o baterista é o motor de uma banda, principalmente no rock. Se uma banda fosse um PF, ele seria o feijão e o baixista o arroz. Sem baterista, não há rock and roll. Um grande abraço a todos os bateras que lerem este artigo e um pedido de paciência a guitarristas, baixistas, tecladistas e vocalistas. Eles são chatos, nós sabemos, mas, sem dúvida, são imprescindíveis. Longa vida aos homens das baquetas!

domingo, 4 de setembro de 2016

Ed. 23 - O dia em que o U2 faliu uma banda.

Quando o grupo norte-americano Metallica, em sua ensandecida luta contra o Napster, no início do milênio, chegou a impedir fãs de terem acesso a Internet, certamente achou que estava lutando contra uma minoria de piratas virtuais conspirando para lhes tirar parte do enorme quinhão de dólares que forra suas contas bancárias. Nos EUA, onde ocorreu o impedimento judicial, um fã tem muito mais possibilidades de assistir a um dos caríssimos shows da banda, e certamente, quem passou um ano proibido de acessar a web, fez questão de não dar nem mais um dólar ao grupo de Lars Ulrich. Pior fez quem, mesmo não sendo impedido de ter acesso ao mundo virtual, se sentiu muito indignado com o fato e se solidarizou com os outros fãs. Eu mesmo só não deixei de ser fã do Metallica por um simples motivo: nunca gostei muito mesmo da banda.

Já o U2, banda tão envolvida em causas pacifistas, tão "do bem" que esquece até de fazer música para praticar boas ações, sempre deu declarações a favor da troca de arquivos pela Internet, o que já lhes rendeu um "cala-boca" quando nada menos que sete faixas de um de seus discos vazaram Internet afora. Recentemente, o U2 até se viu metido em um "quiproquó" com usuários do I-tunes, indignados por serem obrigados a baixar - de graça - o mais novo álbum da banda.

Mas este U2, caridoso e compreensivo, em  1992 faliu uma banda. É isto mesmo. E não faliu o Bon Jovi ou o Duran Duran. A "vítima" foi um grupo underground norte-americano pouco conhecido até mesmo dentro do seu país. Vamos à história:

Em 20 de agosto de 1991, a banda Negativland lançou, pela pequena gravadora SST, um single com a canção "U2". A tal canção era uma colagem de partes da música "I Still Haven't Found What I'm Looking For" com uma fita de um radialista da terra do Tio Sam, sobre uma base musical criada pelo próprio grupo. Na capa do single, o nome U2 aparece em letras garrafais, ao contrário do nome da banda. Para desfazer qualquer possibilidade de que o lançamento do single pudesse parecer esperteza -  embora fosse, é claro - , uma etiqueta colada ao plástico da embalagem trazia a observação que não se tratava de um disco do U2.  Foram distribuídas 3.000 cópias do single.  A menor vendagem de um disco do U2,  até então, era de pouco mais de 2 milhões de cópias do primeiro disco.

Em 5 de outubro do mesmo ano, a SST recebeu uma notificação judicial. Sem muita saída, imprensada pelas poderosas Island Records (de propriedade do U2) e Warner Chappel, a editora do super-grupo, a pequena gravadora aceitou todas as exigências: Todas as cópias enviadas a críticos, lojas de discos e estações de rádio teriam que ser devolvidas à Island sob pena de multa e prisão. Tanto para a gravadora quanto para os que receberam os discos. Os singles em estoque na SST também teriam que ser enviados à gravadora para destruição imediata. Todo o material utilizado para confecção do disco, como fitas master, acetatos, etc, também deveria ser enviado imediatamente à gravadora, assim como todo material promocional. Os direitos autorais da música foram transferidos imediatamente para o U2. 

A gravadora SST e o Negativland foram obrigados a pagar uma multa de 25 mil dólares e cerca de 100 dólares por cada um dos 700 discos vendidos e não retornados. Isto faz de U2, do Negativland o single mais caro da história da música. Como esta última quantia (U$70.000) foi tudo que o grupo Negativland arrecadou em 14 anos de existência, foi decretada a sua flência. Qualquer dúvida sobre a veracidade destas informações pode ser tirada aqui
         
Moral da história: Ela é imoral demais para ter alguma moral. Mas, por via das dúvidas, deixem a obra do U2 em paz. Ou façam como o Lighthouse Family, que usou partes de uma das canções do grupo, One, em uma de suas músicas. Mas pagou milhões por isso. E olha que eles  ainda não encontraram o que estavam procurando...

domingo, 28 de agosto de 2016

Ed. 22 - Joe Strummer: Um combatente do rock.

Joe Strummer nasceu em 1952, em Ancara, na Turquia. Filho de um diplomata, John Graham Mellor, seu nome verdadeiro, nunca se rendeu à sua boa condição financeira e desde a adolescência se interessava fortemente por socialismo e questões ligadas historicamente à esquerda. Em 1972, fundou o grupo The Vultures, onde cantava covers de clássicos do rock e rhythm and blues. A banda tinha apenas um único número original, "Country Boy At Heart", que muitos anos depois, serviria de base para "Death Is a Star" , canção que encerra o lado B do álbum "Combat Rock", dos The Clash.

Em 1974, aos 22 anos, fundou a banda The 101 All Stars, logo rebatizada como The 101'ers. O nome era uma referência ao endereço do cafofo onde os integrantes do grupo moravam. O som dos 101'ers era uma espécie de pub-rock mal tocado, mas que já trazia sinais indeléveis do estilo musical que seria forjado pelo seu futuro conjunto. Nesta época, Strummer atendia pelo cognome de "Woody Mellow". Quando os Sex Pistols abriram um show de sua banda, Strummer, como ele mesmo afirmava, "viu a luz". No momento em que o segundo single dos 101'ers, "5 stars rock and roll petrol" chegava às  lojas, Mellor já havia deixado a banda e se tornado Joe Strummerque viria a ser, algum tempo depois, um dos fundadores do The Clash

No final de 76, ainda nos The 101'ers, Strummer seria convidado a integrar a banda de hard-rock The London SS, substituíndo o guitarrista Brian James, que sairia para formar os The Subterraneans, embrião do The Damned, outra grande banda surgida no levante punk da Inglaterra em 1977. James afirmaria mais tarde que sua saída da The London SS se devia ao interesse cada vez maior do baixista Paul Simonon por reggae e ska.  Completavam a The London SS, o baterista Topper Headon e o guitarrista Mick Jones. Com a chegada de Strummer, estava formada a lenda.

Com o antigo repertório do The London SS completamente descartado, o grupo achou por bem também trocar de nome. Simonon sugeriu Two Sevens Clash, título de um recente single do grupo jamaicano de reggae Culture. O resto do grupo preferia Clash 77 e, por razões óbvias, (afinal, o ano de 77 acabaria e o nome ficaria defasado), foi reduzido para simplesmente The Clash
         
Os The Clash foram a primeira banda punk a assinar com uma multinacional e foram muito cobrados por isso. Escolheram como single de estréia a canção "White Riot", inspirada na revolta dos negros em Brixton (que, posteriormente, voltaria a ser tema de outra canção da banda, "Guns Of Brixton", do disco "London Calling"). "White Riot"convocava os garotos brancos a promoverem também a sua própria revolta contra o sistema.

Foram mal interpretados e acusados de racistas por ativistas negros e ameaçados por grupos racistas brancos, que entendiam, cada um a sua maneira, que haviam referências negativas a uma e a outra raça em uma música que apenas pregava o fim da letargia entre os garotos brancos ingleses. A banda também se recusou a posar para a capa do single, sendo que, quando não houve alternativa, decidiram se deixar fotografar de costas, com as mãos na parede, como em uma batida policial. O novo baterista Terry Chimes grava o single mas não sai na capa do disco por ter se atrasado para a sessão de fotos. Em seguida é "despedido" pelos outros integrantes, que resolvem manter o cargo vago. Para shows e ensaios chamam o companheiro da The London SS, Topper Headon, que, na verdade, era um baterista com formação jazzística que gostava de tocar com o pessoal do punk-rock.

Algum tempo depois, Headon se torna um membro oficial. Daí em diante, Chimes e Headon praticamente se revezariam na posição, um entrando quando o outro saia da banda. Os The  Clash iniciam ali uma carreira marcada pela polêmica, onde, ao mesmo tempo que ganham a fama duvidosa de "maior banda de rock do mundo", chegam a ser motivo de comentários irônicos no meio musical pela suposta "pobreza" dos arranjos das suas músicas e das limitações de seus integrantes. 

Em 1980, os The Clash lançam seu álbum mais importante, a princípio batizado de "novo testamento', depois racionalmente chamado de "London Calling". Obrigam a CBS a negociar o disco nas lojas pelo preço de um lp simples e, em seguida, tentam soltar um álbum quádruplo mas a gravadora só concorda, no máximo, com um álbum triplo, que provocativamente se chamaria "Sandinista". Novamente a banda tenta obrigar a gravadora a negociar o disco como simples, mas consegue apenas que ele seja vendido um pouco acima do preço normal de um Lp. Isso, é claro, apenas no eixo USA/UK. No Brasil, por exemplo, os discos foram vendidos pelo preço normal de um álbum duplo ou triplo.

Com o sucesso crescente do grupo, a gravadora prepara uma mega-turnê nos EUA, com os The Clash tocando pela primeira vez em estádios lotados. O pavor e o despreparo fica evidente em clips como o da música "Should I Stay Or Should I Go", onde todos parecem estar apavorados em enfrentar a platéia numericamente monstruosa. No início de 82 é  lançado o single contendo "Rock The Casbah", composição do baterista Headon, com batida dançante e forte apelo comercial, que viria a se tornar, até então, o único hit do grupo. 

Mesmo com material pronto para gravar um novo lp, a banda fica sem tempo disponível devido aos shows da turnê. A gravadora propõe o lançamento de um novo disco com os dois novos singles ("Should I Stay Or Should I Go" e "Rock The Casbah") mais sobras do "Sandinista" e até a inclusão de participações especiais do The Clash em discos alheios e trilhas sonoras. Este frankenstein sonoro, por incrível que pareça, dá certo e é lançado em 1982 com o título de "Combat Rock", se tornando um dos lançamentos mais vendidos do grupo. Strummer, que é a favor de que a banda pare e grave material inédito, fica profundamente contrariado. Daí em diante, Jones tenta impor uma linha mais dançante e "comercial", enquanto Strummer vê o prestígio dos The Clash descer ladeira abaixo junto à imprensa e aos antigos fãs, que passam a fazer as habituais acusações de "traidores", "vendidos", etc. 

Em 1984, às vésperas de lançar um novo álbum de inéditas, os The Clash perdem seu segundo "front-man", o guitarrista Mick Jones, expulso da banda por Simonon e Strummer. Boa parte do material de Jones para este disco é lançado no primeiro álbum da sua nova banda, o Big Audio Dynamite. Em 85 sai "Cut The Crap", com roadies dos The Clash assumindo as guitarras e a bateria. À exceção de "This Is England", composta ainda com Jones na banda, o disco é uma tentativa desesperada de retorno às "raízes", que acaba soando extremamente caricatural. Mas ainda assim é um disco interessante. Ainda era Strummer. Ainda eram os The Clash. 

Durante o final da década de 80 e em quase toda a década seguinte, Strummer gravou trilhas sonoras, atuou em filmes e lançou discos solo onde o brilho de seus trabalhos com os The Clash era uma lembrança distante e melancólica. No final da década de 90, fundou um novo grupo, os Mescaleros, onde desenvolvia uma continuação natural da musicalidade de sua antiga banda.

Em 2002, um ataque cardíaco fulminante aos 50 anos, pôs fim à vida de uma das mentes mais brilhantes e combativas do rock inglês. Rumores afirmavam que Strummer havia morrido de overdose de drogas. Um surpreendente exame post-mortem eliminou as dúvidas: não havia traços nem mesmo de maconha. Joe Strummer morreu "limpo", assim como viveu.

domingo, 21 de agosto de 2016

Ed. 21 - Donovan - Beat Café

Donovan - Beat Café (2005) - Donovan Litch sempre foi, de forma muito injusta, considerado uma espécie de sub-produto de Bob Dylan. Enquanto Dylan caminhava seguro pela estrada de tijolos amarelos do folk, mesmo quando resolveu eletrificar sua música, Donovan sempre foi ousado em suas experimentações psicodélicas, tintinando com cores fortes e estouradas a música pop de seu tempo e abrindo espaço para o bubblegum dos anos 70, com suas melodias grudentas e se firmando como grande influenciador de grupos ingleses dos anos 80, como The Cure. 

Durante 1975 e 2005, Donovan permaneceu recluso mas de forma nenhuma parado. Seu disco "Beat Cafe" , lançado em 2005, é a prova maior disso. Donovan é mestre na arte de fazer sempre o mesmo disco e, ao mesmo tempo, recheá-lo de pequenos detalhes interessantes que o tornam inovador e diferente. 

O que vemos nas 12 faixas de Beat Cafe é um disco rigorosamente preso ao formato "Donovan", pois está tudo lá: As divagações da jazzistica "Love Floats", a riff bluesy de "Poorman´s Sunshine", o clima jazzy tão caro à Robert Smith da faixa título "Beat Cafe", a excelência pop de "Yin My Yang" - a melhor faixa do disco - , o folk tântrico de "Whirlwind" até desaguar na belíssima "Shambala", que finaliza o álbum. 

Donovan ainda musica o poema "Do not Go Gentle" de outro Dylan, o Dylan Thomas e flerta sutilmente com o rap em "The Question". Um disco que vale a pena ser ouvido, não só pelo fato de ser o primeiro disco de Donovan em dez anos, como também por ser um dos melhores discos da carreira do artista. E isto após mais de quarenta anos de carreira. Para comemorar. Já está na hora de mais um.
(Publicado originalmente em 2005)

domingo, 14 de agosto de 2016

Ed. 20 - Faz Parte do Seu Show

Não me lembro da passagem de um outro artista ter me deixado tão triste. Talvez George Harrison tenha me deixado com uma sensação parecida de angústia, de falta, de perda, por alguém que sequer conhecia. Mas aí está o ponto: Eu conhecia o grande artista que faleceu ante-ontem. Conhecia virtualmente, através das redes sociais em que o adicionei. Não éramos íntimos, nem poderíamos, mas éramos amigos sim, na medida do possível.


Em 12 de agosto de 2015 falecia Renato Ladeira. Eu sou fã de sua banda mais bem sucedida, o Herva Doce, desde a adolescência. Quando era mais jovem, queria ser como o baixista, Roberto Lly, magro, esguio e com a cara de Keith Richards, mas a genética me fazia me sentir mais parecido com Renato Ladeira. Gordinho assim como ele, ainda calhava de termos o mesmo nome.  E Renato era a voz do Herva Doce. Era da boca de Renato que saiam as palavras que influenciaram a minha forma de escrever música.

sim, haviam as palavras. Muito além de Amante Profissional, uma canção comercial feita na medida para tocar no rádio, existia ali um poeta exprimindo suas angústias em músicas aparentemente bem humoradas, mas que, muitas vezes, haviam de ser lidas mais nas entrelinhas de seus versos do que na suposta superficialidade de seu tema. E, se necessitasse de um referendo, Renato Ladeira foi parceiro de Cazuza em uma de suas mais belas canções, "Faz parte do meu show". 

Renato sempre foi muito acessível. Me respondeu absolutamente todas as vezes em que escrevi alguma coisa para ele. Com isto, acabamos nos tornando "conhecidos de facebook". Desde que iniciei o projeto deste blog, já tinha pautado uma matéria sobre o Herva Doce e este texto, em três partes, saiu no início de maio. Publiquei a primeira parte e, meio temeroso dos caras não gostarem, linquei no perfil dele, Renato, e de Roberto Lly, que também estava adicionado ao meu. 

Para minha surpresa - ou não, pois ambos são grandes figuras - os dois reverberaram a matéria em seus perfis, tecendo elogios e fazendo a audiência deste humilde blog ir às alturas. Renato fez uma pequena correção ao primeiro texto, imediatamente aceita, e então, resolvi lhe enviar as outras duas partes, que seriam publicadas nos dias seguintes para uma revisão. Deixei-o a vontade para sugerir mudanças no que não lhe agradasse. A não ser eventuais derrapadas cronológicas, ele não mudou absolutamente nada.

No dia seguinte, Renato teve uma longa conversa on-line comigo. Falou da sua vida, das decepções e alegrias em seus mais de 60 anos de vida e alguns casamentos. Falou da alegria de ter encontrado em Patrícia Ladeira, a sua atual esposa, a pessoa certa. Eu mais ouvi, aliás, eu mais li do que escrevi. Ele não tinha idade suficiente para ser meu pai, então me senti, naquele momento, como se estivesse ouvindo relatos e conselhos de um irmão mais velho. Ao final, Renato me pediu desculpas pelo que chamou de "aluguel". Eu agradeci com a reverência de um discípulo.

Me recuso a falar de Renato Ladeira no passado. Renato é parte de minha adolescência, das minhas descobertas musicais. Suas canções me acompanham desde a juventude até hoje, à beira da meia idade. Se eu falar de Renato Ladeira no passado, estarei falando de mim mesmo da mesma forma. Morremos um pouco quando nossas referências se vão. Então, Renato não foi, não irá, ele é e sempre será. E sempre será, mesmo. Foi embora sem um bis, fazer o quê? Faz parte do seu show. A saudade que fica, também.


sábado, 6 de agosto de 2016

Ed. 19 - "Grand Funk" - Grand Funk Railroad (1969)

O ano de 1969 foi muito importante na história da humanidade, e na música pop também não foi diferente. O movimento flower-power, já devidamente encampado pelo sistema, atingia seu auge com o festival de Woodstock, mas a tragédia de Altamont já anunciava o fim do sonho que Lennon viria a decretar pouco tempo depois.

Bandas inglesas como o Black Sabbath e o Cream, e americanas, como o MC5, os Stooges e o Grand Funk Railroad já traziam uma nova linguagem, mais "violenta" e menos passiva, que viria, anos depois, a dar no que se convencionou chamar de punk rock. A base norte-americana deste novo som era a cidade de Detroit. Bandas como Amboy Dukes, os já citados MC5 e Stooges e o Cactus começavam a aparecer, alicerçados pelo sucesso de seu filho mais famoso, um certo guitarrista chamado Jimmi Hendrix. 

Da pequena cidade de Flint, no estado de Michigan, surge uma banda que viria a ser um dos primeiros power-trios ianques, curiosamente batizada como "Grand Funk Railroad". O nome, que logo foi abreviado para apenas "Grand Funk", é uma referência a uma famosa estrada de ferro do estado, chamada "Grand Trunk Railway". Paralela à estrada de ferro, moderníssima, havia uma estrada de terra em péssimas condições, que era chamada jocosamente de "Grand Funk Railroad". No Brasil, onde a banda alcançou um considerável sucesso de público, o nome esquisito acabou prejudicando o grupo, pois muita gente boa (e um tanto preconceituosa, diga-se de passagem) achava que se tratava de uma banda de funk-music. Muito pelo contrário, o trio detonava um som inacreditavelmente potente e barulhento, totalmente calcado no hard rock.

Ainda que seus integrantes não fossem virtuoses, o Grand Funk conhecia o caminho das pedras e explorava ao máximo as suas limitações. Acabava dando a impressão de que tocavam muito mais do que realmente tocavam. A história do trio é recheada de fatos curiosos. Antes da formação que se tornaria clássica, o Grand Funk já havia sido um quinteto e um quarteto. Depois de algumas tentativas chegou-se ao formato que tornou o grupo famoso. Muito descolado, o guitarrista Mark Farner tanto insistiu que conseguiu inserir o GFR em um festival ao lado de Janis Joplin (e banda), Johnny Winter e Led Zeppelin, tocando em sua estréia como trio para uma platéia de 180.000 pessoas.

O sucesso foi enorme. Pete Grant, o truculento empresário do Led Zeppelin, teve a infeliz ideia de convidá-los para os shows de abertura da turnée americana do Zep. Em Cleveland, aconteceu algo que entraria definitivamente para os anais do folclore do rock and roll. Durante a execução de "Inside Lookin' Out" (presente neste disco), a reação da platéia foi tão intensa que o enciumado Grant simplesmente desligou a energia e ainda tentou tirar a banda do palco à força. Farner então se dirigiu ao microfone depois que a energia foi religada e soltou: "-O Led Zeppelin está com medo do Grand Funk Railroad". E foram sumariamente despedidos. 

Lançaram um álbum, chamado 'On Time" em setembro de 1969 e em dezembro lançaram outro, epônimo, e é deste disco que estamos falando. Conhecido como o "disco vermelho", "Grand Funk", o álbum, é um dos melhores LPs de rock de todos os tempos. Extremamente pesado e barulhento, mas ao mesmo tempo, muito melodioso e harmônico, alcançou rapidamente os primeiros lugares das paradas de seu país. Enquanto o Grand Funk arrebanhava multidões de fãs nos EUA e no mundo inteiro, era destruído pela crítica dita especializada, que preferia outras bandas, bem mais "cabeça". 

O grupo passou para a história idolatrado pelos fãs, mas com o nada invejável título de "banda mais malhada pelos críticos de todos os tempos". O trio é uma daqueles grupos "desimportantes" que a crítica (e alguns fãs que teimam em seguir o que os críticos ditam) elegeu. Ainda bem que crítico não compra disco, só os ganha de graça.