Há quem componha e nunca consiga pensar e, naturalmente, compor, em primeira pessoa, sem ter necessariamente vivido determinada experiência. Há quem se especialize em traduzir para versos a vida e o cotidiano alheio. Admito que é um exercício interessante somatizar as angústias, as alegrias, as frustrações de alguém, e transformá-las em uma canção. Tal canção não seria, de forma alguma falsa, pois ela expressa sentimentos possíveis, mas, sem dúvida, seu autor é um charlatão. Ou, no máximo, um ator. Ou até mesmo um escritor, que consegue colocar pensamentos díspares do seu na boca de seus personagens.
Há até quem componha e seja, ele mesmo, um personagem. Há compositores que criaram para si um alter-ego tantas vezes o perfeito contrário de si mesmos, e se sentem presos e subjugados a esta entidade que eles mesmos criaram. Bob Marley, para ficar em um dos compositores que burilaram alter-egos "normais", teve que pedir licença e desculpas para escrever uma canção de amor (que vem a ser "Is this love?", regravada e versionada quase literalmente no Brasil pelo casal Baby-Pepeu) em seu emaranhado de canções de conteúdo político e social. Outro Bob, o Dylan, já escrevia canções de amor com mais frequência, no seu oceano de temas de protesto, onde nem sempre se sabia contra o que se protestava, mas sempre se sabia o quanto eram inspiradas e verdadeiras suas canções, românticas ou não.
Há quem cave mais fundo a sepultura das canções impessoais e se torne escravo de seu próprio personagem. Há compositores geniais submissos a seus alter-egos nem tão geniais assim. Há Jupiter Maçã e Rogério Skylab, que, aliás, recentemente protagonizaram um espetáculo extra-curricular em um canal de TV, que prova o que eu digo sobre tal escravidão. Flávio e Rogério são obrigados pelas entidades que criaram para si, a compor em um determinado formato pelo resto de suas vidas. Se tentarem trocar de camisa, correm o risco de serem rejeitados pelo seu público.
Dylan, Apple, Marley e Skylab podem até não ser tão honestos assim no papel de compositores. Provavelmente, muitas vezes se sentiram obrigados a tratar de um determinado assunto em uma canção, sobre o qual, livres de quaisquer amarras, jamais falariam. Mas suas canções sim, não importa do que tratem, são absolutamente sinceras. E este é o encanto da música. Ela ganha vida própria depois de parida. E então, se você não bebe e faz uma música cuja letra diz que você está bebendo demais, todos que a ouvirem irão acreditar piamente que você é um alcoólico consciente. Porque este é o poder de quem compõe: transformar mentiras em verdades e verdades em verdades maiores ainda.
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