sábado, 11 de junho de 2016

Ed. 11 - As desventuras do Beatle Tim no reino da Jovem Guarda.

Antes de serem descobertos  pelo empresário Brian Epstein e contratados pela tradicional gravadora Parlophone, os Beatles não passavam de uma sofrível banda de guitarras.  Uma audição atenta e imparcial dos hoje famosos “Decca Tapes", bootleg encontrado em qualquer programa de troca de arquivos de áudio, e somos obrigados a concordar com John Lennon: a única coisa que se salva daquela gravação é a entusiasmada interpretação de George Harrison para o standard “Sheik Of Araby”. Certo que eram curiosas e criativas “versões rock and roll” de coisas escritas 20, 30 anos antes, mas aí é que estava o problema: o esquema “recriação de canção antiga no novo ritmo jovem” já havia mesmo se esgotado no Reino Unido. Nem a insólita “Besame Mucho”, cantada por Paul, salvou a pátria: Os Beatles foram recusados pela Decca Records com a justificativa mais correta do mundo em 1962, a de que bandas como a deles estavam mesmo saindo de moda.

Os Beatles que seriam contratados pela Parlophone algum tempo depois, estes já tinham muito mais estrada, já tinham sido abduzidos pelos novos sons que vinham da América via Motown, e, principalmente, já não eram mais uma banda de rock and roll: Graças a Epstein, tinham se adaptado, e muito bem,  à nova cena britânica, de bandas e artistas como Gerry & The Pacemakers e Billy Jay Kramer. mais pop e menos barulhentos. O sucesso foi instantâneo e aí é que realmente começa a história e a histeria da beatlemania. Com certeza, se tivesse posto as mãos nos Beatles de 63, aquele executivo da Decca que os rejeitou, desta vez os contrataria. Da mesma forma que certamente rejeitaria os Stones desta mesma época e os contratou no ano seguinte: Em 64, bandas de blues, ou bandas que macaqueavam o blues americano, eram o último grito do mundo da música inglesa.

No  Brasil, mais ou menos na mesma época, encontramos um jovem interiorano sendo recusado de absolutamente todas as gravadoras cariocas, ora por ser um mero clone de João Gilberto, ora por sua voz um tanto anasalada (que muitos afirmavam ser “fanha”). O fato é que Roberto Carlos penou, e penou muito, até se tornar o grande ídolo da juventude, o rei do iê-iê-iê, alguns anos depois. Enquanto Roberto estourava nas paradas de sucesso de todo o Brasil, um garoto tijucano, recém expulso dos EUA por roubo de carros, um tal Tião da Marmita, certa vez o procurou pedindo uma chance no meio musical. Haviam tocado no mesmo grupo vocal, no final dos anos 50. Roberto, em meio ao turbilhão da fama recém-conquistada, parou, conversou com Tião, deu-lhe uma bota nova e ainda lhe deu algum dinheiro, jogado ao chão por um secretário particular que certamente estava cansado de tantos “Tiões” atrás de Roberto para tirar uma casquinha de seu sucesso. Bem, isto é o que a história registrou. O que as revistas da época disseram é que, Roberto, feliz por reencontrar o amigo Tião, recriou o grupo Sputniks com Erasmo e o futuro Tim em um dos episódios do programa Jovem Guarda. Há, inclusive, uma foto que prova isto.

Algo me diz que, se Roberto tivesse se empenhado e conseguido “uma chance” para o amigo Tião da Marmita, talvez nosso futuro Tim lançasse um ou dois compactos obscuros travestido de Sam Cooke tropical e sumisse para sempre no mesmo limbo onde estão José Ronaldo, Carlos Gonzaga, Baby Santiago e, Geraldo Nunes.  Talvez, se Roberto não fosse tão naturalmente humano naquele encontro, se importando um pouco mais do que a história conta, o mundo jamais veria o gênio Tim Maia. Jamais veria porque, naquele momento, Tim Maia ainda não existia. Ou, pelo menos, ainda não tinha se libertado completamente de seu criador, vulgo Sebastião Rodrigues Maia.

O fato é que, quando Roberto se dispôs a dar a tão polêmica chance ao Tião da Marmita, recusou a baladinha fácil, embora pungente,  que Sebastião fez sob medida para ele e quis gravar algo bem “funky”, bem  mais a cara do amigo Tião. Neste momento, nem Roberto nem Sebastião sabiam,  mas fez-se a luz e o mundo começou a conhecer Tim Maia.

Sem dúvida eu  até poderia  tentar crucificar Roberto. Assim como poderia crucificar um Tim Maia  já famoso , que se negou  a ajudar seu sobrinho Eduardo Mota, que, aliás, já nasceu Ed Motta, o que causou uma  rusga entre tio e sobrinho que jamais foi cicatrizada. Mas é melhor não crucificar ninguém. O  fato incontestável é que “Não Vou Ficar”, de autoria de Tim, não só foi um sucesso estrondoso na voz de  Roberto, como definiu toda a orientação musical da carreira do Rei até 1977, quando Roberto deu a guinada romântica que o transformaria em uma caricatura de si mesmo. Quanto a Tim, a gravação de Roberto jogou os refletores sobre ele e , daí em frente, para o bem e para o mal, o ex-Sebastião foi senhor  absoluto da carreira artística de Tim Maia.

É  bom lembrar que, até a  gravação do  antológico CD  “Tim Maia Ao Vivo”, com a ajuda de Sérgio Mota, pela Warner, e o disco seguinte, “Tim Maia Romântico”, ora vejam, pela Som Livre, gravadora pertencente ás organizações Globo, Tim Maia era apenas um arremedo do que tinha sido nos anos 70. Falido, esquecido e ridicularizado – você pode usar “satirizado”, se quiser -  até mesmo pela trupe Casseta & Planeta. Tim disparou sua metralhadora cheia de mágoas contra tudo e contra todos.  A gravação de dois CDs de sucesso em um momento crucial de sua carreira o resgatou de um injusto esquecimento futuro. A morte, a mitológica instabilidade emocional e, sem dúvida, a sua genialidade ímpar,  o transformaram em  lenda morta da MPB.  Sobrou para Roberto Carlos,que, de uma hora para outra, se viu na incômoda posição de vilão global por conta de um diretor de cinema enraivecido com a alegada mutilação de sua obra.


Eu, ao mesmo tempo, odeio e amo Lulu Santos. Antes que alguém questione uma suposta bipolaridade minha, eu explico: Gosto da música feita pelo músico, mas tenho uma profunda antipatia pela pessoa  de Luís Maurício dos Santos, o homem por trás do artista. Muitos músicos são péssimos seres humanos e talentosos artistas. Assim como alguns artistas acabam favorecidos por terem simpatia demais e talento de menos. Assim é a vida como ela é, diria Nélson Rodrigues.  Da mesma forma, amo muito e odeio um pouquinho o cidadão Sebastião Rodrigues Maia, conhecido no meio artístico pelo epíteto de Tim Maia.

Tim esteve no olho do furacão nos últimos dias, nos jornais e na internet, por conta da polêmica exibição de uma minissérie baseada no filme sobre a sua vida, recentemente exibida  pela TV Globo.  Aqui mesmo neste blog, já escrevi sobre o assunto. Volto a escrever por conta da lembrança feita por alguns blogueiros e jornalistas, do episódio envolvendo os cantores Ritchie e Roberto Carlos, um boato (sim, um boato) extremamente maldoso, criado justamente pelo rei da soul-music brasileira. Segundo TimRoberto Carlos, enciumado do enorme sucesso de Ritchie em sua gravadora, a CBS, teria boicotado o artista, impedindo que sua carreira se desenvolvesse. Podemos simplesmente acreditar no boato ou tentar entender os fatos e, chegarmos nós mesmos à conclusão se tal afirmação é factível ou não.

Não estou querendo aqui , de forma alguma, santificar Roberto Carlos, mas a falta de caráter de Tim Maia é tão notória quanto a sua capacidade de mentir e, se você se espantou com os fatos relatados no filme sobre a sua vida, saiba que Nélson Motta foi profundamente generoso com o “gordinho mais querido do Brasil”. E, mais ainda, o roteirista do filme baseado no livro. O que não quer dizer que Maia não tivesse qualidades.  Tinha, sim, e muito mais do que a mídia poderia supor e gostaria de publicar. Tim, sozinho, mantinha um orfanato inteiro. Só ficamos sabendo disto após a sua morte, porque a viúva do artista veio a público pedir que as pessoas ajudassem a instituição que já não podia manter sozinha.

Acontece que Tim Maia era um ser humano como qualquer um de nós, com erros, acertos, contradições, pisadas na bola e gestos magnânimos. Falta só o respeitável público  da internet reconhecer que Roberto Carlos também é um ser humano como qualquer outro. Dito isto, vamos continuar analisando a questão:  Em 1983, quando Ritchie, um inglês radicado no país desde os anos 70, estourou em todo o país com o compacto da música "Menina Veneno", Roberto era sim o maior vendedor de discos da sua gravadora. O Brasil vivia um momento musical em que o chamado “público jovem” fazia a transição da MPB para o rock “New Wave”. A Blitz havia aberto o caminho para que o “novo rock” se firmasse na preferência da juventude e Ritchie parecia o artista certo para realizar a ponte entre o gosto popular e o exigente gosto dos roqueiros. O compacto contendo "Menina Veneno", cujo lado B trazia a roqueiríssima  “Baby, Meu Bem”,  até hoje a melhor gravação do cantor, sedimentava  a percepção de que Ritchie era a grande promessa do rock nacional para a década de 80. Espécie de meio-termo entre o sex-appeal de Elvis e a classe de Bryan Ferry,  ainda por cima era gringo, conterrâneo dos Beatles.  Agora sim, o Rock-Brasil iria fazer bonito no mundo.

Não fez.  Quando saiu o LP, intitulado “Vôo de Coração”,  o artista demonstrou, até pelo trocadilho infame do título, que seu apelo era muito mais popular do que roqueiro.  Não que as canções não tivessem qualidade, muito pelo contrário. Havia até uma versão de  “The Letter”, sucesso de Alex Chilton com os “Box Tops”.  As ótimas canções empurraram o disco facilmente para o milhão de cópias, conseguindo vender, naquele ano, ainda mais do que o tradicional disco anual do Rei Roberto.  

Alcançado o vertiginoso sucesso,  a CBS iniciou o processo daquilo que viria a ser o segundo disco do cantor. Aí começaram os erros. Ritchie, que havia se sedimentado como uma espécie de  Odair José pós-moderno, preferido de nove entre dez empregadas domésticas, passou a recusar participação em shows populares e  resolveu  voltar a focar no público mais sofisticado, mais roqueiro, aproveitando o boom que o rock nacional vivia em 1984.

O primeiro single extraído do segundo disco não ajudou.  “A Mulher Invisível” era uma canção fraquíssima, com um loop de baixo repetitivo e monótono, sem um refrão forte e com Ritchie caprichando na péssima dicção, que, se não comprometeu o sucesso de “Menina Veneno” –  até hoje não se sabe se o abajur  era cor de carne ou de carmim – foi fatal em “Mulher Invisível”. Noves fora o fato óbvio da similaridade dos títulos e intenções, de se repetir o sucesso de “Menina Veneno”, porém  com uma canção bem mais fraca.  Salva-se neste segundo LP  o protoarrocha  “Só Pra o Vento” (Ritchie, definitivamente, gostava destes trocadilhos),  justamente a única faixa na linha popular e com a mesma qualidade das canções do disco anterior. O terceiro LP foi a pá de cal na história do cantor com a CBS, pois era ainda mais fraco. Sem um sucesso sequer, consequentemente, vendeu  bem menos que os dois anteriores. Quando a CBS o liberou e o inglês assinou com a Polygram, a nova gravadora repetiu  a mesma estratégia de lançar uma música impactante em compacto, a melosa “Transas”, que mais parecia um jingle de comercial de motel, e em seguida o LP. O compacto estourou mas, novamente o disco grande não aconteceu e, desta vez, não havia Roberto a se culpar. Ritchie saia, enfim, da vida musical para entrar para a história.

Um belo dia, Ritchie encontrou Tim Maia pelos palcos da vida e este resolveu repassar ao inglês  mais uma de suas “informações quentes”.  Tim,  que nunca se deu muito bem com ninguém, muito menos com seus amigos de ralação na Tijuca que alcançaram o sucesso antes dele, alegou que fora Roberto Carlos, enciumado, que puxara o tapete do músico na sua gravadora.  Pronto, agora Ritchie tinha a desculpa perfeita e que faltava para justificar seu fraco desempenho e o declínio sem volta em sua carreira. A história ganhou força e  ares de verdade absoluta.


Claro que Roberto Carlos pode, realmente, ter ficado enciumado com o sucesso estrondoso de Ritchie e é possível que ele tenha demonstrado esta insatisfação em forma de má-vontade com o colega de gravadora. Mas, se a carreira do inglês decaiu, não foi por causa do rei e sim, dele mesmo.  Curiosamente, Roberto não sabotou a carreira de mais ninguém, apesar de muitos outros artistas alcançarem a marca de um milhão de cópias vendidas antes que a pirataria enterrasse de vez o seu reinado. E Tim, bem, Tim continuou a contar suas histórias e estórias, cantar como nenhum  outro as dores de ser enganado e o sofrimento de amar demais até que faltasse a seu último show para ir cantar nos braços do Senhor. Dizem que tem anjo e santo com as barbas de molho até hoje.

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