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domingo, 8 de maio de 2016

Ed. 6 - Disco do Ano - Bruce Springsteen - The River (1980)

"- Isto é brega americano!".
Foi assim, em poucas palavras, que um amigo fulminou todo o meu entusiasmo ao apresentar-lhe o álbum duplo daquele cantor magricela e de voz rouca, recheado de rockões e baladas, como, aliás deveria ser todo bom disco de rock. 

E, de fato, ele estava certo. A faixa que o fez decretar a pieguice explícita daquele par de LPs, e que batiza o disco, "The River", tinha mesmo um ar melancólico e triste, típico das nossas baladas românticas mais populares. A minha "vingança", por assim dizer, é que aquelas canções do primeiro disco de Bruce Springsteen que ouvimos nas nossas vidas, ficariam em sua memória afetiva até os dias de hoje. E na minha também.

Corria o ano de 1981 e ainda faltavam, pelo menos, cinco anos para que Springsteen se destacasse entre os screamers do projeto We Are The World e alcançasse alguma relevância em terra-brasilis. Mais um ano e as meninas já estariam molhando as calcinhas por um "chefão" - como era chamado a essa altura -  bombado e bailando com fãs no clip da pop "Dancing In The Dark". Mas, naquele momento, para nós, ele era apenas um ilustre desconhecido ianque que teve um álbum duplo lançado no Brasil e que havíamos adquirido no saldo de uma loja de discos prestes a fechar.

Catequizei muita gente e os converti para a seita springsteeniana. Se queriam rocks pesadões, eu mostrava "Cadillac Ranch", se queriam rocks simples e diretos eu apresentava "Sherry Darling" e "Hungry Heart". E quem quisesse "brega americano" se satisfaria facilmente com canções emocionais como "Independence Day", "I Wanna Marry You" e a sintomática "The River".

Algum tempo depois, antes que Born In The USA chegasse ás lojas e o "chefão" virasse carne de vaca, tomei conhecimento da importância e da relevância do artista, que fora apresentado ao mundo sete anos antes como a "salvação do rock". Com o estouro mundial, a sua discografia foi relançada e eu pude degustar um pacote de álbuns irrepreensíveis, todos clássicos absolutos, mas nenhum antecipando aquilo que eu ouviria em "The River".

Álbuns duplos costumam ser cansativos e conter gordura  extra que, muitas vezes, poderia ser eliminada e transformá-los em excelentes discos simples. Não é o caso aqui. Não só o "The River" cabe perfeitamente no "modelito" duplo, como ainda lhe caberia mais uma faixa, "Held Up Without a Gun", retirada do setlist do LP de última hora por um Bruce Springsteen receoso de que ela não estaria no mesmo nível das outras (e, cá pra nós, não estava mesmo). De qualquer forma, em 2015, saiu uma caixa pirata contendo mais de 50 canções que, supostamente, teriam ficado de fora do disco duplo.

Curiosamente, "The River" não foi pensado em nenhum momento como um álbum duplo. Deveria conter apenas dez faixas e se chamar "The Ties That Blind", mas havia sobrado muita coisa boa e não aproveitada do igualmente excelente disco anterior, "Darkness In The Edge OI Town", aliada ao ritmo de produção de novas faixas para um disco seguinte. Ao final, Springsteen resolveu acatar o conselho do produtor Jon Landau e reunir tudo em um único lançamento, um ambicioso projeto duplo.


Poderia ter dado errado. Aliás, poderia ter dado muito errado. Poderia, por exemplo, soar confuso e sem direção, como o álbum triplo Sandinista! do Clash, criado basicamente sob o mesmo conceito do "nada se perde e tudo se aproveita" e lançado apenas dois meses depois. 

Mas, não deu, e "The River" se tornou o último exemplar de uma discografia irretocável. Dali em diante, a carreira do "big boss" tomaria outras direções, que lhe garantiriam definitivamente o status de popstar, mas o afastaria do punch e da credibilidade de working class hero dos seus primeiros lançamentos.

O lado A se inicia com "The Ties That Blind", rock poderoso com tinturas de Byrds e melodia forte. "Sherry Darling", um dos sete singles extraídos do disco, chegou a ganhar versão nacional dos Fevers  (olha o tal do brega americano aí...). "Jackson Cage" e "Two Hearts" complementam uma das melhores sequencias rock and roll de um disco, com o "alívio" vindo com a tocante balada "Independence Day".

Sobre "Hungry Heart", que abre o lado B,  cabe uma história curiosa: Joey Ramone, dos Ramones, havia pedido a Bruce que escrevesse uma canção para a sua banda e Springsteen a fez "sob medida": fácil de tocar, bem melódica e totalmente sessentista. Quando produziu uma demo para entregar a Joey, foi convencido pelo produtor Landau a não entregá-la e gravá-la ele mesmo. Fez bem, pois "Hungry Heart" garantiu ao chefão o primeiro top chart nas paradas americanas. "Out In The Streets" é rock vigoroso e pungente, mas é "Crush On You" e "You Can Look" que se destacam. Mais uma vez, uma balada, a singela "I Wanna Marry You", encerra o segundo lado.

"The River" é a primeira do "lado C", com uma introdução de gaita e cinco minutos de  pura poesia. "Point Blank" é introspectiva e densa, mas "Cadillac Ranch" transforma tudo em diversão novamente, sendo seguida por "I'm a Rocker". "Fade Away" e "Stolen Car" são baladas menores que não comprometem em absolutamente nada a qualidade do disco. O quarto e último lado tem "Ramrod", um rock riffado e nada rifado, a dylaniana "The Price You Pay", a climática "Drive All Night" e a soturna "Wreck On The Highway" completando esta verdadeira obra-prima que é "The River".

Nos lançamentos seguintes, Bruce Springsteen não retornaria ao hard folk dos primeiros discos, nem se aventuraria mais em rocks descompromissados e dançantes e baladas intensas e introspectivas, preferindo adoçar suas novas canções com doses de sacarina que, nem sempre, funcionaram muito bem. Por isto, "The River" é um disco único na carreira do Big Boss e permanece, até hoje, como um dos melhores discos dos anos 80.




sábado, 30 de abril de 2016

Ed. 5 - Disco do Ano - Ramones - Pleasant Dreams (1981)

A acusação mais grave que pesa sobre Pleasant Dreams, o sexto disco de estúdio dos Ramones, lançado em 1981, é que o instrumental não teria sido gravado pelo grupo, tendo o produtor Graham Gouldman os substituído por músicos de estúdio.  Outras acusações se seguiriam, como a de que a banda, finalmente, teria se vendido, buscando uma sonoridade mais "comercial" e mais pop.


Se a primeira  queixa não é absolutamente verdadeira - em sua biografia, Marky Ramone desmente e garante que, apesar da contribuição de um músico de estúdio aqui e ali, foram os próprios Ramones que executaram todas as canções - a segunda se mostra profundamente real. Cansados de não venderem discos, embora tivessem prestígio e credibilidade, desde o disco anterior, "End Of The Century", os Ramones buscavam uma aproximação com a "new wave". Para burilar a nova sonoridade pop dos quatro punks, a gravadora teria convocado ninguém menos que Phil Spector, um rock'n'roll hitmaker nato. O álbum anterior, porém, apesar de excelente, soou confuso demais para alcançar com exito as paradas de sucesso.



Graham Gouldman, compositor e vocalista da banda 10cc, está entre um dos que redefiniram o conceito de música pop para o final dos anos 70 e início dos anos 80. Sua influencia é sentida até hoje e é um daqueles nomes cuja ausência teria feito a música andar por outros caminhos. Se havia alguém que poderia costurar toda aquela barulheira e deixa--la pronta para as paradas de sucesso, era Gouldman. E o resultado foi realmente fantástico. Sem, em nenhum momento, deixar que a essência dos Ramones se perdesse, pariu um dos melhores discos do início da nova década. Se o LP não fez o sucesso que deveria, de fato, a culpa não foi do produtor.



Quando Pleasant Dreams chegou às lojas e emissoras de rádio, foi recebido com dupla desconfiança. Os DJ's não conseguiam achar uma faixa que fosse "suficientemente boa" para tocar e os antigos fãs não gostaram nada de ver toda a tosqueira hardcore, todo o barulho e toda a produção precária presente nos discos anteriores polida nas doze faixas do novo álbum.



Quem acabaria consumindo - e aprovando - o novo lançamento seriam os novos fãs - eu, inclusive - que a banda agregou a partir daquele disco. E ter conseguido estes fãs de última hora foi essencial para que a existência da banda se prolongasse por mais alguns anos. Ainda que, nos discos seguintes, os Ramones pesassem a mão em uma nova sonoridade que, algumas vezes, beirava o heavy metal, foi com "End Of The Century" e, principalmente, com Pleasant Dreams, que o grupo aprendeu a compor, deixando de lado os intermináveis "I Wanna" e "I Don't Wanna".



Me dei conta da existência dos Ramones em uma nota da revista Veja quando do lançamento no Brasil de "End Of The Century". Foi o primeiro disco da banda a sair no país e a revista os tratava como "roqueiros de histórias em quadrinhos". Antes mesmo de ouvi-los, o texto me convenceu a comprar a bolacha. Em uma visita a Salvador, voltei com eles debaixo do braço.



Foi um amigo que me mostrou o Pleasant Dreams, pela primeira vez, em edição importada e executado em um aparelho de som, à época, de primeira qualidade. Gravei um cassete com ele e, dali em diante e até a eternidade, seria, para sempre o meu disco preferido dos Ramones. Algum tempo depois, o vinil entraria oficialmente em minha coleção a partir de uma cópia argentina.



O lado A começa com "We Want The Airwaves", que cita os Doors ("we want the world and we want it now") mostrando, logo de cara, a que veio o grupo neste disco. A melhora na qualidade das composições já se faz evidente logo nesta primeira canção, de autoria do vocalista Joey Ramone, uma provável influencia de Gouldman, compositor de hits como For Your Love (Yardbirds) e No Milk Today (Hermans Hermits). "All Is Quiet in The Eastern Front" é pesada e rápida, mas ganha um quê de classe e charme em comparação às canções de discos anteriores compostas por Dee Dee Ramone. 



A riff de introdução de "He's a Whore", do Cheap Trick, foi descaradamente chupada para compor "The KKK Took My Baby Away". Por anos, divulgou-se a história de que a faixa seria um desagravo de Joey ao companheiro Johnny, que teria lhe roubado a namorada, mas na sua biografia "Eu dormi com Joey Ramone", o seu irmão Mick Leigh desmente esta versão e diz que a "KKK", no caso, teria sido a mãe deles, que não permitiu o namoro do vocalista com uma moça negra.



A quarta faixa, "Don't Go", a minha preferida do disco, é um massive hit sessentista de refrão ganchudo, seguida por "You Sound Like You're Sick", de Dee Dee, pesada e rápida como são as suas composições. "It's Not My Place", entupida de The Doors, é mais fraca e encerra o primeiro lado sem comprometer.



Do outro lado, "She's a Sensation" foi o mais comercial que os Ramones puderam soar em toda a sua trajetória. Até hoje é uma espécie de hit alternativo e porta de entrada para novos fãs da banda. "7-11", uma grande canção, erra feio na mão, em um arranjo limpo demais para os padrões do grupo. "You Didn't Mean Anything", advinhem, é mais uma canção pesada e rápida de Dee Dee. Mas, é na seguinte, "Come On Now" que o baixista compositor realmente surpreende, transformando a faixa em um dos pontos altos do disco. 

"This Business Is Killing Me" e "Sitting In My Room" encerram o LP sem o mesmo brilho das demais mas com competência e responsabilidade de não deixar o ritmo cair.


Recentemente, a Rhino, selo da Warner dedicado a compilar e relançar discos clássicos do rock e da música pop, lançou uma edição de luxo como faixas a mais, farto libreto e uma curiosidade, a capa original do disco, feia de doer, com os quatro na capa. 35 anos depois, Pleasant Dreams continua fresco, parecendo ter sido gravado ontem. É um disco para a eternidade, que sobreviveu á morte de três dos quatro integrantes que o gravaram e sobreviverá, até mesmo, à morte do rock'n'roll. Longa vida ao rock, então, porque a imortalidade do melhor disco dos Ramones já está garantida.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Ed. 2 - Disco do Ano - Pink Floyd - The Wall (1979)

Provavelmente, 1979 é o ano com maior número de lançamentos presentes em minha coleção de discos. Do London Calling, o álbum duplo do The Clash que mudou os rumos do punk rock à dinamite pop de Discovery, disco daquele ano da Electric Light Orchestra, boa parte do que foi lançado naquele ano em termos de rock e pop figuram nas minhas fileiras audiófilas.

Uma das explicações é que 79, realmente, foi um ano prolífico para a música do planeta Terra. O big-bang do punk rock e sua rachadura jamais fechada na indústria fonográfica haviam acontecido há apenas dois anos e o mundo, em plena guerra fria, ainda podia se dar ao luxo de acreditar em tempos melhores vindouros.

A outra explicação, bem mais particular e intimista, é que, em 1980 eu comecei a descobrir a música através de visitas a uma rede de lojas de discos da minha cidade, que estava em processo de falência, após uma desastrosa tentativa de criar um comércio atacadista um ano antes. E o que estava em liquidação eram justamente discos lançados em 1979.

Do Slow Train Coming, o disco "gospel" de Bob Dylan, ao "Dream Police" do Cheap Trick, havia um universo de bons discos a serem comprados a preços de banana e ouvidos como se fossem ouro. E, tudo isto, para um menino de 13 anos fascinado por música desde sempre, era como estar em uma fábrica de chocolates. Mas, o disco mais importante de 79 não estava nos balaios, saldos e promoções daquela loja de disco.

Tomei conhecimento da existência de  The Wall, o álbum duplo do grupo inglês Pink Floyd, um ano antes e bem na época de seu lançamento. Um amigo, aspirante a DJ, o comprara apenas para retirar o ruído de helicóptero de "Another Brick In The Wall" e incorporá-lo ao seu repertório de efeitos especiais. O disco tinha uma apresentação bastante atraente e fiquei curioso para ouvi-lo. 

Mas, minha cabeça, em 1979, ainda estava na disco-music e na música negra da época e, aquilo, definitivamente, não me soara nada bem. Ainda assim, gravei três músicas em uma fita cassete: A segunda - e mais famosa - parte de Another Brick In The Wall, a belíssima One Of My Turns e  a sacudida Young Lust. O resto do disco me soara terrivelmente chato naquela primeira audição.

Por outro lado, aquela primeira audição desastrada de The Wall me fez criar uma antipatia natural pelo Pink Floyd. E a má fama que o grupo adquiriu entre os punks não ajudou em nada a reverter esta impressão ruim. Já em 81, com o meu gosto completamente voltado para a new wave e o punk rock, parecia mesmo não haver lugar, em meu gosto musical, para os devaneios progressivos da banda de David Gilmour e Roger Waters. Ainda assim, adquiri um single com Another Brick In The Wall e One Of My Turns. Por anos, o meu gosto pelo Pink Floyd se resumiria, basicamente, àquelas duas músicas.


Trilhas sonoras costumam servir de meros  complementos sonoros para o enredo de um filme.Algumas são fantásticas mas se prendem irreversivelmente ao conteúdo da película a que fazem parte. Outras, pela magistralidade, conseguem se sobressair e ter vida própria. 

Algumas vezes, as trilhas sonoras atingem um status até mesmo superior ao filme que sonorizam, como é o caso de Blow Up, filme de Antonioni musicado pelo jazzista norte-americano Herbie Hancock e com participações dos Yardbirds. Mas, casos de discos que ganham uma "trilha visual" para ilustrá-los são raríssimos. E "The Wall" é um destes casos.

Em 1982, o diretor britânico Alan Parker, literalmente, filmou um disco. Com o acréscimo de alguma coisa aqui e ali e deixando algumas poucas faixas de fora, a película reproduz, fielmente e na ordem, a história contada no disco, três anos antes. E foi aí que eu me apaixonei por The Wall, o disco, Roger Waters e o Pink Floyd. A busca do tempo perdido me fez fuçar as primeiras gravações da banda, ainda um combo psicodélico liderado pelo tresloucado Syd Barrett. Ainda que hoje eu tenha e ouça com prazer a maior parte da produção do Floyd, alguns discos, como Wish You Were Here e Animals ainda me soam perfeitamente inacessíveis. O estrago de ter passado ao largo do Floyd durante anos, de fato, foi enorme. Talvez um dia, quem sabe...

Uma vez encantado com o filme, não me restou outra alternativa a não ser, finalmente, adquirir o imponente álbum duplo. Não foi uma experiência fácil. Só apenas depois de muitas e muitas audições que eu fui compreendendo o que significava aquele muro que Waters criara entre ele e o resto da humanidade, especialmente os próprios fãs do Pink Floyd. E, claro, pude aplicar toda aquela percepção existencialista fantástica à minha própria vida. The Wall é até bem mais que um disco, é uma verdadeira terapia em vinil. É importante ressaltar que o tema do disco é, basicamente, "um muro e como quebrá-lo" e não "como construir um muro estabelecendo uma zona de conforto entre você e o resto da humanidade". E visto, aliás, ouvido por este ângulo, "The Wall" é, simplesmente, quimérico. E se tornou muito mais do que um item na discografia de uma das maiores bandas da história do rock mundial.

O lado A abre com a imponente "In The Flesh", que contém uma das mais interessantes introduções instrumentais já escritas e prevê o clima opressivo do resto do disco. "The Thin Ice" é uma balada sobe estar sempre no limite e, provalvemente, sua inspiração pode ter sido o ex-integrante Syd Barrett. "Another Brick In The Wall Pt. I" é a primeira parte daquilo que se tornaria, contra todas as expectativas, o maior sucesso em single da banda até hoje. "The Happiest Days Of Our Lives" serve como uma introdução urgente ao mega hit "Another Brick In The Wall Pt. II". "Mother" encerra um dos melhores  lados A que um disco de rock já pôde ter.

Do outro lado, "Goodbye Blue Sky" fala da perda dos sonhos de infância e adolescência. "Empty Spaces" chega a lembrar o antigo Floyd da fase imediatamente posterior à saída de Syd Barrett. "Young Lust" é um hard rock poderoso e uma das melhores faixas já escritas no estilo e, consequentemente, executadas pelo Pink Floyd. Até hoje, a minha preferida do disco inteiro. "One Of My Turns", uma excelente canção sobre abandono e frivolidade, dá sequencia ao disco. "Don't Leave Me Now" é atonal e opressiva e tem como continuidade a parte III - e última - de "Another Brick In The Wall". "Goodbye Cruel World", uma canção virulenta sobre suicídio, encerra o primeiro LP.

O terceiro lado do disco abre com "Hey You", que viria a se tornar uma das mais pedidas em shows. "Is There Anybody Out There" introduz "Nobody Home", que tem como "outro" a belíssima e soturna canção "Vera". A épica "Bring The Boys Back Home" introduz "Comfortably Numb", uma das mais fantásticas colaborações de Waters e Gilmour, que encerra o lado C.

O último lado do disco é bem mais fraco que os outros três, denotando um certo cansaço criativo. Ainda assim "The Show Must Go On" parece uma boa canção desperdiçada. "In The Flesh" é, basicamente, a repetição da faixa de abertura e "Run Like Hell" dá a impressão de que a banda pretendia criar algo dançante que servisse de hit alternativo, o que parece não ter dado muito certo. "Wating For The Worms" é outra grande canção perdida. "Stop" é curta demais para ser interessante e "The Trial" apenas "amarra" a história do disco, assim como a comovente faixa de encerramento, "Outside the Wall". Não é, absolutamente, um quarto lado frustrante, porém, a necessidade de encerrar a trama do disco compromete definitivamente a sua qualidade. Porém, nada que não possa ser compensado pelo brilho de uma obra cortante e profunda.

The Wall encerrou um ciclo de relevância na carreira do Pink Floyd. Caso a banda terminasse ali, sua discografia teria feito jus ao adjetivo de perfeita. Mas, então, vieram os discos pouco inspirados, as brigas, as voltas, reviravoltas e revoltas que marcaram a decadência da lenda do rock progressivo. Porém, o disco da estranha temática do muro entre o artista e a platéia permaneceu sendo um dos maiores momentos desta coisa esquisita chamada rock and roll.