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sexta-feira, 15 de abril de 2016

Ed. 3 - Tesouros da Juventude - Kate Bush - The Kick Inside (1978)

O ano de 1978 foi bastante prolífico para a música pop. Ainda que, entre os melhores discos daquele ano, listados pelo respeitado site Best Ever Albums,  o  LP melhor posicionado de um brasileiro seja o "Axé", do sambista Candeia (155º lugar) e o metal só venha encontrar um representante no disco homônimo do hoje quase esquecido Molly Hatchet (166º lugar), 1978 foi mesmo o ano do "novo rock" a que se convencionou chamar comercialmente de "new wave". O site relaciona nos cinco primeiros lugares, Bruce Springsteen, Elvis Costello, Van Halen, Blondie e The Cars. Mas é o disco que aparece em 16º lugar que se tornaria um dos mais instigantes lançamentos daquele ano.


1978 também não foi um bom ano para as cantoras pop. Qualquer uma que se aventurasse e não militasse claramente nas fileiras do tal novo rock correria o sério risco de se transformar em alguma espécie de one hit wonder, artista de um sucesso só, vítima da indústria musical daquele momento, cada vez mais preocupada em lançar novos nomes, apenas para descartá-los em seguida. Mas, Kate Bush, definitivamente, não era uma cantora pop comum. Com apenas 19 anos e apadrinhada por ninguém menos que o guitarrista David Gilmour, uma das duas cabeças mais pensantes do Pink Floyd, Bush compunha o que cantava e era dona de uma voz realmente incomum. Preparou meticulosamente o seu disco de estréia durante todo o ano de 1977 e quase o lançara em dezembro, tendo atrasado seu début por questões estéticas que envolviam a capa do primeiro compacto extraído do disco.

Kate Bush agregava mais dois fatores de risco à esta estreia: a religiosidade intensa presente nas letras - o disco inteiro fala de budismo em um momento em que ainda não havia se tornado moda ser budista - e a associação com um músico que,naquele momento, representada tudo que era velho e ultrapassado, o já citado David Gilmour. No mais, Bush não parecia interessada em fazer qualquer tipo de concessão ao sucesso fácil. Sem dúvida, a cantora e compositora era uma aposta de risco para a EMI.

Quando Wuthering Heights, a belíssima canção baseada no livro O morro dos ventos uivantes, de Emily Bronté, chegou às emissoras de rádio, ainda nos primeiros dias de 1978, com toda aquela delicadeza e o canto quase lírico de sua compositora, parecia que nada de muito espetacular aconteceria. A canção, a última a ser escrita para o disco The Kick Inside, que só seria lançado no mês seguinte, não era a preferida da gravadora para aparecer no lado A de um single. Mas  Kate, mais uma vez, bateu o pé, e uma das canções mais emblemáticas do final dos anos 70 acabaria por vir ao mundo. Ainda assim, a gravadora acabou preparando dois clips oficiais para a música, algo muito incomum, até mesmo nos dias de hoje.

Wuthering Heights não é apenas o single mais bem sucedido de toda a carreira de Kate Bush, com quase meio milhão de cópias vendidas em todo o mundo. É também o single mais vendido de uma cantora e compositora britânica e o que chegou mais rapidamente ao primeiro lugar. Entrou em 42º lugar, passando a 27º lugar na semana seguinte e atingindo o topo duas semanas depois. No mês seguinte, finalmente, "The Kick Inside" era lançado, alcançando uma recepção surpreendente para um disco considerado "difícil", de fortes tinturas de pop progressivo.

No Brasil, "The Kick Inside" demorou mais de um ano para ser lançado e, ainda assim, por pouco quase não aconteceu nada, pois a filial brasileira da EMI resolveu apostar em um single da canção "Strange Phenomena". E aí é que entra o relato de uma daquelas situações curiosas que mais tarde serão contadas de forma anedótica: Quando ouvi Kate Bush pela primeira vez, no rádio, foi justamente a canção que fazia parte do compacto de estreia da cantora no país. Eu tenho uma prima chamada Filomena e quando eu ouvi "Strange Phelomena" no refrão, eu li também "Strange Phelomena" quando comprei o compacto e pretendia presenteá-la com ele, ainda que eu jamais soubesse que "strange" significasse "estranha" e não "estrangeira". Uma vez que percebi que era "phenomena" a palavra que constava no título, acabei ficando com o disco para mim e dando a ela outro presente, desta vez outro compacto, da cantora Filomena interpretando uma bisonha versão de "De Do Do De Da Da" do Police. Filomena, a minha prima, detestou o compacto da Filomena, a cantora. Melhor seria ter dado a ela o disquinho da Kate Bush.

De tanto que ouvi sem muita vontade, acabei gostando do single. Mas, confesso, o megahit que se seguiu, a já citada Wuthering Heights, completamente estourada no Brasil graças ao fato de fazer parte de uma trilha de novela de sucesso, não me agradava nem um pouco. Foi só quando The Kick Inside, o álbum, veio parar em minhas mãos, como contrapeso de uma troca, que eu pude, afinal, me apaixonar pelo universo delicado de Kate Bush. Mas, até hoje, apesar de até ter passado a gostar da faixa, Wuthering Heighs continua soando destoante do resto do disco e completamente dispensável, a mesmíssima impressão que eu tive em 1980.

O lado A abre com Moving, uma canção delicada com ênfase no piano na qual ressai com bastante destaque a voz impressionante da cantora. The Saxophone Song repete a dose acrescentada de uma melodia que vai crescendo até desaguar em um belíssimo solo de sax. Strange Phenomena é uma canção bela e estranha - é de se imaginar o que p A&R da EMI brasileira tinha na cabeça quando resolveu lançá-la como single. "Kite" é uma "regatta", como se chamam aqueles reggaes deliciosamente embranquecidos. "The Man With The Child In His Eyes" tem um pé na erudição sem nunca perder a pegada pop. "Whutering Heights" encerra o lado A, com um jeitão de deslocada.

Viramos o lado e tudo fica mais animado com "James And The Cold Gun", um rock quase pesado. "Feel It" é uma pérola pop, um dos melhores momentos do disco. 'Oh To Be In Love" segue a mesma linha e a gente começa a pensar como o lado B do disco é tão melhor que o lado A. Então vem "L'Amour looks SOmething Like You" e meio que corta o clima, mas é curta e acaba não fazendo tanata diferença.  "Them Heavy People", de letra assumidamente budista e outra reggatta, recupera maravilhosamente a vibração deste segundo lado e é, disparadamente, a melhor canção do álbum inteiro."Room For The Life" segura o pique e "The Kick Inside", sem muitas surpresas em relação ao que j´pa se ouviu até aqui,  encerra o lado e o disco, de maneira correta e precisa.

Nada do que a cantora fez após The Kick Inside passou perto do sucesso, da importância e da relevância deste disco de estréia. Ainda que seus terceiro e quarto discos a transformassem definitivamente em uma estrela de renome mundial - o segundo, Lionheart, foi lançado de maneira equivocada logo em seguida ao primeiro e é pouco conhecido do público - é o seu excelente disco de estréia o alicerce para que Kate Bush escrevesse de forma definitiva o seu nome na história da música pop mundial.



sexta-feira, 1 de abril de 2016

Ed.1 - Tesouros da Juventude - The Rolling Stones - "Emotional Rescue" (1980)

Um disco, muitas vezes, é muito mais do que um álbum de retratos sonoros. Pode se parecer com um poço de boas lembranças de tempos que voltam sim, através de experiências sinergéticas que só a música pode proporcionar.


THE ROLLING STONES - "Emotional Rescue" (1980) - A cena ainda permanece vívida em minha memória, mesmo que, de lá para cá, já tenham se passados quase 40 anos: Meu primo ouvindo, pela enésima vez, a sua cópia recém-comprada de Emotional Rescue, disco de 1980 dos Rolling Stones, enquanto eu e sua irmã o provocávamos, dançando descompassadamente ao som aqueles rocks, apenas para que ele fingisse, rindo muito, que iria correr atrás de nós para nos bater. Foi assim durante todo aquele verão de 1981 na Ilha de Itaparica.

Naquele tempo, nem os Rolling Stones escapavam de atrasos entre o lançamento de seus discos na matriz e aqui no Brasil e, apesar de já estar disponível na civilização desde a metade de 1980, a edição nacional de Emotional Rescue só seria lançada no final de outubro daquele ano, para aproveitar as vendas de natal. As dificuldades de importação eram enormes e era mesmo melhor aguardar um pouco para poder ouvir as novidades do mercado fonográfico internacional do que arriscar adquirir um disco cinco vezes mais caro para que ele saísse em edição nacional no mês seguinte.

O meu primo, Mário Filho, falecido precocemente em 1997, aos 37 anos, foi um de meus gurus musicais, e com certeza, o mais importante deles. Foi ele que me desviou da rota da música negra para desvendar os inúmeros mistérios do rock, ainda que isto não tenha sido tão positivo quanto possa parecer. Ter ouvido dele que "música black não prestava" atrasou em décadas o meu aprofundamento com a soul music e o funk legítimo, groovy, jungler, dos anos 70. mas, definitivamente, me viciou para sempre em rock and roll.

E eu posso dizer, com absoluta certeza, que tudo começou bem ali, ouvindo e reouvindo forçosamente a cópia de Emotional Rescue que meu primo levara para a temporada de veraneio na ilha de Itaparica e quase não se cansava de ouvir. E quando se cansava, cantarolava as faixas do disco. Enfim, foi impossível não se contagiar com as 10 faixas daquele LP.

Até ali, eu pouco conhecia ou me interessava pelos Rolling Stones. Na verdade, o que havia de rock em minha discoteca até aquele momento era muito pouco, mas ainda assim, bastante relevante. Alguma coisa dos Beatles, outras coisas pinçadas aqui e ali, compradas no escuro, como discos de Cheap Trick e Tom Petty,  Mas a predominância era de bandas como Brass Construction e Crown Heights Affair, além de cantoras soul e disco-music. Mas quando mantive contato com aquela batida seca e aquele som cru, foi, de fato, paixão à primeira audição.


Quando os Stones lançaram Emotional Rescue vinham de uma guinada pop dentro da sua sonoridade, iniciada com o "moderninho" Some Girls, lançado no ano anterior. Naquele momento, o rock experimentava uma espécie de renascimento através do punk, power-pop e new wave. Todos os grandes artistas, os chamados "medalhões", lançaram seus discos fortemente influenciados pelo velho novo som e os Stones não fugiriam à regra. No ano seguinte, saia Emotional Rescue, basicamente gravado com material que havia sobrado do LP anterior. Como sempre, as sobras dos Stones, muitas vezes, eram bem superiores ao que eles resolviam lançar oficialmente.

Gravado nas Bahamas, em um estúdio móvel, e concluído em Paris, durante todo o ano de 1979, Emotional Rescue reforça a ideia de ser um disco ensolarado. Trilha perfeita para noites com sol, praieiras, embalando madrugadas com as costas ardentes. É um dos discos mais "para cima" dos Stones e, de fato, precisa ser um fã muito chato para não reconhecer a qualidade das faixas deste disco.

O lado A começa com a batida funk-rock poderosa de "Dance Pt. I". Tais experimentações dançantes eram fruto das idas e vindas do vocalista Mick Jagger a night clubs da moda. Em sua autobiografia, o guitarrista Keith Richards comenta sobre o seu temor de algumas daquelas melodias e temas de Jagger serem plágios inconscientes de canções ouvidas por ele nas festas que frequentava. "Summer Romance" é uma canção fresca sem ser afrescalhada, totalmente alinhada com a batida new wave das bandas mais modernas daquele tempo. "Send It To Me" é uma "regatta" (reggae feito por brancos) convincente. "Let Me Go" é o velho rock analfabeto stoniano. Irresistível e com uma interpretação irrepreensível de Mick Jagger. O primeiro lado se encerra com a balada pseudo-engajada "Indian Girl"

Do outro lado, "Where The Boys Go", a melhor faixa do disco, é um surpreendente punk-rock, invocadíssimo, que não deixa nada a dever às crias bastardas do New York Dolls. "Down In The Hole" é um blues tipicamente Stones, sem maiores surpresas. "Emotional Rescue", a canção,  é um proto-reggae/disco dançante cantado em falsete. Simplesmente, é a coisa mais genial já gravada pelo então quinteto. "She's So Cold", a mais "new wave" das canções do álbum, tem melodia grudenta e um loop harmônico que, praticamente, determinou a minha maneira de compor música.  A balada abolerada "All About You", crua e máscula, cantada por Keith Richards, encerra o álbum de maneira esplendorosa. Se é que tal adjetivo caberia de alguma forma em uma canção interpretada pelo guitarrista.

Após Emotional Rescue, os Stones entrariam em turnê e, em seguida, em um recesso criativo que duraria até o irregular Undercover, álbum seguinte, de 1983. No intervalo, lançaram um disco ao vivo, "Still Life" e outro de sobras, "Tattoo You", este vendido marotamente como se fosse um disco inédito, até que a tramoia de aproveitar gravações antigas fosse descoberta, graças a um processo do ex-guitarrista Mick Taylor. De "Undercover" em diante, os Stones deixaram definitivamente de ser relevantes. Lançariam ainda alguns discos, mas sem jamais rever a energia e o espírito juvenil de Emotional Rescue, porcamente decalcado em Undercover, como uma espécie de canto do cisne sem cisne.