Donovan - Beat Café (2005) - Donovan Litch sempre foi, de forma muito injusta, considerado uma espécie de sub-produto de Bob Dylan. Enquanto Dylan caminhava seguro pela estrada de tijolos amarelos do folk, mesmo quando resolveu eletrificar sua música, Donovan sempre foi ousado em suas experimentações psicodélicas, tintinando com cores fortes e estouradas a música pop de seu tempo e abrindo espaço para o bubblegum dos anos 70, com suas melodias grudentas e se firmando como grande influenciador de grupos ingleses dos anos 80, como The Cure.
Durante 1975 e 2005, Donovan permaneceu recluso mas de forma nenhuma parado. Seu disco "Beat Cafe" , lançado em 2005, é a prova maior disso. Donovan é mestre na arte de fazer sempre o mesmo disco e, ao mesmo tempo, recheá-lo de pequenos detalhes interessantes que o tornam inovador e diferente.
O que vemos nas 12 faixas de Beat Cafe é um disco rigorosamente preso ao formato "Donovan", pois está tudo lá: As divagações da jazzistica "Love Floats", a riff bluesy de "Poorman´s Sunshine", o clima jazzy tão caro à Robert Smith da faixa título "Beat Cafe", a excelência pop de "Yin My Yang" - a melhor faixa do disco - , o folk tântrico de "Whirlwind" até desaguar na belíssima "Shambala", que finaliza o álbum.
Donovan ainda musica o poema "Do not Go Gentle" de outro Dylan, o DylanThomas e flerta sutilmente com o rap em "The Question". Um disco que vale a pena ser ouvido, não só pelo fato de ser o primeiro disco de Donovan em dez anos, como também por ser um dos melhores discos da carreira do artista. E isto após mais de quarenta anos de carreira. Para comemorar. Já está na hora de mais um.
Não me lembro da passagem de um outro artista ter me deixado tão triste. Talvez George Harrison tenha me deixado com uma sensação parecida de angústia, de falta, de perda, por alguém que sequer conhecia. Mas aí está o ponto: Eu conhecia o grande artista que faleceu ante-ontem. Conhecia virtualmente, através das redes sociais em que o adicionei. Não éramos íntimos, nem poderíamos, mas éramos amigos sim, na medida do possível.
Em 12 de agosto de 2015 falecia Renato Ladeira. Eu sou fã de sua banda mais bem sucedida, o Herva Doce, desde a adolescência. Quando era mais jovem, queria ser como o baixista, Roberto Lly, magro, esguio e com a cara de Keith Richards, mas a genética me fazia me sentir mais parecido com Renato Ladeira. Gordinho assim como ele, ainda calhava de termos o mesmo nome. E Renato era a voz do Herva Doce. Era da boca de Renato que saiam as palavras que influenciaram a minha forma de escrever música.
E sim, haviam as palavras. Muito além de Amante Profissional, uma canção comercial feita na medida para tocar no rádio, existia ali um poeta exprimindo suas angústias em músicas aparentemente bem humoradas, mas que, muitas vezes, haviam de ser lidas mais nas entrelinhas de seus versos do que na suposta superficialidade de seu tema. E, se necessitasse de um referendo, Renato Ladeira foi parceiro de Cazuza em uma de suas mais belas canções, "Faz parte do meu show".
Renato sempre foi muito acessível. Me respondeu absolutamente todas as vezes em que escrevi alguma coisa para ele. Com isto, acabamos nos tornando "conhecidos de facebook". Desde que iniciei o projeto deste blog, já tinha pautado uma matéria sobre o Herva Doce e este texto, em três partes, saiu no início de maio. Publiquei a primeira parte e, meio temeroso dos caras não gostarem, linquei no perfil dele, Renato, e de Roberto Lly, que também estava adicionado ao meu.
Para minha surpresa - ou não, pois ambos são grandes figuras - os dois reverberaram a matéria em seus perfis, tecendo elogios e fazendo a audiência deste humilde blog ir às alturas. Renato fez uma pequena correção ao primeiro texto, imediatamente aceita, e então, resolvi lhe enviar as outras duas partes, que seriam publicadas nos dias seguintes para uma revisão. Deixei-o a vontade para sugerir mudanças no que não lhe agradasse. A não ser eventuais derrapadas cronológicas, ele não mudou absolutamente nada.
No dia seguinte, Renato teve uma longa conversa on-line comigo. Falou da sua vida, das decepções e alegrias em seus mais de 60 anos de vida e alguns casamentos. Falou da alegria de ter encontrado em Patrícia Ladeira, a sua atual esposa, a pessoa certa. Eu mais ouvi, aliás, eu mais li do que escrevi. Ele não tinha idade suficiente para ser meu pai, então me senti, naquele momento, como se estivesse ouvindo relatos e conselhos de um irmão mais velho. Ao final, Renato me pediu desculpas pelo que chamou de "aluguel". Eu agradeci com a reverência de um discípulo.
Me recuso a falar de Renato Ladeira no passado. Renato é parte de minha adolescência, das minhas descobertas musicais. Suas canções me acompanham desde a juventude até hoje, à beira da meia idade. Se eu falar de Renato Ladeira no passado, estarei falando de mim mesmo da mesma forma. Morremos um pouco quando nossas referências se vão. Então, Renato não foi, não irá, ele é e sempre será. E sempre será, mesmo. Foi embora sem um bis, fazer o quê? Faz parte do seu show. A saudade que fica, também.
O ano de 1969 foi muito importante na história da humanidade, e na música pop também não foi diferente. O movimento flower-power, já devidamente encampado pelo sistema, atingia seu auge com o festival de Woodstock, mas a tragédia de Altamont já anunciava o fim do sonho que Lennon viria a decretar pouco tempo depois.
Bandas inglesas como o Black Sabbath e o Cream, e americanas, como o MC5, os Stooges e o Grand Funk Railroad já traziam uma nova linguagem, mais "violenta" e menos passiva, que viria, anos depois, a dar no que se convencionou chamar de punk rock. A base norte-americana deste novo som era a cidade de Detroit. Bandas como Amboy Dukes, os já citados MC5 e Stooges e o Cactus começavam a aparecer, alicerçados pelo sucesso de seu filho mais famoso, um certo guitarrista chamado Jimmi Hendrix.
Da pequena cidade de Flint, no estado de Michigan, surge uma banda que viria a ser um dos primeiros power-trios ianques, curiosamente batizada como "Grand Funk Railroad". O nome, que logo foi abreviado para apenas "Grand Funk", é uma referência a uma famosa estrada de ferro do estado, chamada "Grand Trunk Railway". Paralela à estrada de ferro, moderníssima, havia uma estrada de terra em péssimas condições, que era chamada jocosamente de "Grand Funk Railroad". No Brasil, onde a banda alcançou um considerável sucesso de público, o nome esquisito acabou prejudicando o grupo, pois muita gente boa (e um tanto preconceituosa, diga-se de passagem) achava que se tratava de uma banda de funk-music. Muito pelo contrário, o trio detonava um som inacreditavelmente potente e barulhento, totalmente calcado no hard rock.
Ainda que seus integrantes não fossem virtuoses, o Grand Funk conhecia o caminho das pedras e explorava ao máximo as suas limitações. Acabava dando a impressão de que tocavam muito mais do que realmente tocavam. A história do trio é recheada de fatos curiosos. Antes da formação que se tornaria clássica, o Grand Funk já havia sido um quinteto e um quarteto. Depois de algumas tentativas chegou-se ao formato que tornou o grupo famoso. Muito descolado, o guitarrista Mark Farner tanto insistiu que conseguiu inserir o GFR em um festival ao lado de Janis Joplin (e banda), Johnny Winter e Led Zeppelin, tocando em sua estréia como trio para uma platéia de 180.000 pessoas.
O sucesso foi enorme. Pete Grant, o truculento empresário do Led Zeppelin, teve a infeliz ideia de convidá-los para os shows de abertura da turnée americana do Zep. Em Cleveland, aconteceu algo que entraria definitivamente para os anais do folclore do rock and roll. Durante a execução de "Inside Lookin' Out" (presente neste disco), a reação da platéia foi tão intensa que o enciumado Grant simplesmente desligou a energia e ainda tentou tirar a banda do palco à força. Farner então se dirigiu ao microfone depois que a energia foi religada e soltou: "-O Led Zeppelin está com medo do Grand Funk Railroad". E foram sumariamente despedidos.
Lançaram um álbum, chamado 'On Time" em setembro de 1969 e em dezembro lançaram outro, epônimo, e é deste disco que estamos falando. Conhecido como o "disco vermelho", "Grand Funk", o álbum, é um dos melhores LPs de rock de todos os tempos. Extremamente pesado e barulhento, mas ao mesmo tempo, muito melodioso e harmônico, alcançou rapidamente os primeiros lugares das paradas de seu país. Enquanto o Grand Funk arrebanhava multidões de fãs nos EUA e no mundo inteiro, era destruído pela crítica dita especializada, que preferia outras bandas, bem mais "cabeça".
O grupo passou para a história idolatrado pelos fãs, mas com o nada invejável título de "banda mais malhada pelos críticos de todos os tempos". O trio é uma daqueles grupos "desimportantes" que a crítica (e alguns fãs que teimam em seguir o que os críticos ditam) elegeu. Ainda bem que crítico não compra disco, só os ganha de graça.
Quando eu resolvi, de fato, deixar de estar à frente da banda Zelvis e assumir uma posição de coadjuvante, não é segredo para ninguém que o grupo ruiu. Dali em diante, também não era segredo para ninguém o meu desinteresse em voltar a tocar. Tentei iniciar um projeto de gravação de um álbum com algumas das minhas canções mais intimistas, que nunca couberam no repertório da LP & Os Compactos e Zelvis, mas o meu desânimo era evidente, apesar do total e completo apoio de Stephen Ulrich, meu filho e guitarrista de ambos os projetos anteriores.
Capa do EP virtual "Amor em Marte"
O projeto do disco não foi à frente, mas, neste meio tempo, um outro sonho se concretizou. O blog Impaciente e Indeciso foi lançado, hoje contando com quase 700 mil visualizações em pouco mais de um ano e meio, e deu até uma cria, este blog aqui, o MVSIKA VRBANA, onde concentro meus textos a respeito de cultura pop, alguns inéditos, como este, e outros compilados do próprio Impaciente e Indeciso.
Neste meio tempo, uma outra ideia surgiu, que era voltar a tocar com o baterista Toni Calfim. Calfim é um amigo querido de longa data e um músico com o qual sempre eu tenho verdadeiro prazer em tocar. A insistência dele em iniciar um projeto novo comigo, sem dúvida, foi o motor para que eu, aos poucos, voltasse à ativa.
A ideia inicial da Zelvis não era ser uma continuidade da LP e Os Compactos e sim, um projeto à parte com vocal feminino. Uma banda mais pop, mais dançante, menos autoral e com um certo tempero baiano. Com um público cada vez mais interessado em um show com revisitações de canções de outros artistas, decidimos aplicar esta fórmula na própria LP, porém, mantendo os dois conjuntos em atividade. O que não deu certo. Uma certa patrulha estética que há em Feira de Santana, recebeu pessimamente a possibilidade de uma mesma formação existir sob dois nomes diferentes e acabamos optando por seguir apenas com a Zelvis.
Com a chegada de uma vocalista, a banda parecia completa e pronta para levantar âncora, E ia até muito bem. Mas alguma vaidade e veleidade típicas dos grupos de rock minou o projeto e acabei, eu mesmo, desistindo da permanência de um segundo vocalista. Porém, resolvi seguir com a fórmula original em uma nova formação, sem, no entanto, abdicar da banda anterior. No entanto, estava claro que eu não poderia mais me comprometer tanto com a Zelvis, como acontecia até então. Desta forma, bandas e amizades foram desfeitas,porém, a semente de Luci e os Neolíticos estava plantada.
Gravamos um EP, com Stephen na guitarra principal, e que chegou a ser divulgada como uma gravação solo da vocalista Anne Jessant. Você pode baixar o disco aqui. A próxima etapa era a busca de músicos que se encaixassem no perfil que queríamos para a nova banda. Buscávamos pessoas maduras, sem vícios e que conhecessem aquilo que iríamos tocar. No início do ano, eu, Toni Calfim e Anne Jessant fomos acrescidos da grande figura que é Abelardo Boudoux, que, infelizmente, por motivos pessoais não pode continuar. Não tinha problema, aguardamos seis meses até que aparecesse a pessoa certa, no caso, o músico Chico Jr, amigo de longa data e peça-chave para que voltássemos a acreditar na viabilidade da Luci e os Neolíticos.
Ontem aconteceu o segundo ensaio desta novíssima formação. Estamos retomando a proposta inicial da Zelvis que é um "mix" de rock oitentista, música baiana e brasileira dançante e de qualidade, pop-rock e ska. Só fica de fora mesmo a axé-music, que, sem preconceito algum, não fazia parte da ideia original e fora introduzida por um dos integrantes da LP que, na alcova do seu quarto, gosta muito do estilo.
ALuci e os Neolíticos não tem data para estrear. Brincamos até que a banda estreará em 2020 comemorando os dois anos do próximo governo Lula. Claro, nenhuma das duas coisas acontecerá. A Luci e os Neolíticos estreia bem antes, mas apenas quando puder apresentar um repertório redondo, equilibrado entre autorais e covers personalizadas. O nome faz referência ao período em que a humanidade passou da pedra lascada à pedra polida e brinca com as limitações musicais naturais de integrantes que têm uma vida profissional e familiar a cuidar. Mas nada que o capricho, a amizade e a dedicação não resolvam.
Luci e os Neolíticos é pura diversão. Por enquanto, é diversão para nós. Em breve, para os amigos que serão convidados para os primeiros ensaios. Depois para outros amigos que poderão conferir o som em audições selecionadas. Enfim, em breve, para por o distinto público para dançar. Afinal, esta é a nossa missão. Sempre será. Por o mundo inteiro para dançar.
E naquele carnaval de Salvador, em 2015, não houve um Chiclete Com Banana na avenida. Poderia ser a notícia que estaria esperando por toda uma vida, pois, simplesmente, não gosto da banda. Entenda-se por não gostar, não gostar mesmo. É não se salvar – para o meu gosto, claro - nenhuma música do grupo de Bell Marques. Neste ponto, gosto até mais de Pablo do Arrocha, de quem seleciono um par de canções engraçadinhas que podem ser ouvidas por mim sem grandes sinais de enjoo. Mas tolo fui eu que imaginei que a saída de Bell implicaria no fim da banda. Eis que ela ressurge agora em dobro: Cabeça e corpo, doravante, agora agem em separado.
Aliás, a solução, na verdade, é o problema: O Chiclete Com Banana não é mais o grupo de Bell Marques. A música baiana tem essa qualidade incomum digna de um episódio da série americanaSobrenatural: Corta-se a cabeça do monstro e, em vez dele morrer, ele se duplica. E eis que agora temos dois Chicletes no carnaval: O remanescente, com o novo vocalista Rafa Chaves, e a cabeça que ganhou novo corpo, em uma operação digna do Dr. Frankenstein, atendendo por Bell, agora não mais "do Chiclete".
Respeito o Chiclete Com Banana como respeito qualquer músico, de qualquer estilo, que tenha um trabalho. Não irei aqui dizer que o Chiclete é isso, ou que é aquilo, até porque gosto é uma coisa tremendamente subjetiva. Mas explico porque não gosto: Não os acho músicos competentes o suficiente, os arranjos sempre me soaram muito frouxos e a voz de Bell Marques...Ah, a voz de Bell...Que coisa insuportável de se ouvir! Mas há quem goste, há até mesmo quem ame a voz dele e, acreditem, eu respeito isto. Mas passo.
Acompanhei o Chiclete em momentos decisivos de sua trajetória: Fiquei noites de sábado sem dormir enquanto eles – que, à época, se chamavam Scorpius - tocavam os hits do momento no clube a poucos metros de minha casa. Não sei se é coincidência, mas o fato é que diversas músicas que compunham o repertório deles – sucessos “do momento” de 1977 - entraram para a minha seleta lista de músicas profundamente detestáveis.
Também presenciei , claro que do chão, a briga que resultou na saída do cantor e compositor Missinho, em cima do trio. O fato ocorreu quando o caminhão passava bem em frente ao finado Hotel Caroá, no centro de Feira de Santana, lá pelos idos dos anos 80.Missinho, que era a estrela do Chiclete naquela época, disse em alto e bom som: “- Estou saindo do grupo. Quero ver vocês conseguirem continuar sem mim”. Maldita hora em que ele proferiu tais palavras. A banda não só continuou, com Bell Marques assumindo os vocais, como passou a fazer ainda mais sucesso. O monstro perdera uma das cabeças, mas ressurgiu ainda mais forte.
É bom dizer que o Chiclete com Banana também é um monstro replicante. Se multiplicou em diversas outras bandas, de nome incrivelmente parecidos como Chicana, Chicabana, Patchanka e vai por aí. A quantidade de gente com óculos ray-ban, bandanas e camisas floridas liderando uma banda de axé hoje na Bahia é impressionante. Seria até uma solução fácil os músicos remanescentes do Chiclete apenas contratarem um destes clones para substituir Bell Marques.
Imaginei que o escolhido para substituir Bell seria o cantor Alexandre Peixe. Compositor gravado por diversas estrelas da axé-music, é autor de inúmeras canções do repertório “chicleteano” e substituiria o ícone careca bandaneiro à altura. Pensei até em uma volta gloriosa de Missinho, que, dizem, hoje é motorista de táxi em Salvador. Mas o escolhido foi mesmo Rafa Chaves. E quem é Rafa Chaves? Sei lá. Vai googlear que tu descobre. Eu, decisivamente, não preciso desta informação para nada
Eis que muita gente comemorou a saída do vocalista como o fim de uma era de música chata e repetitiva. Eu não. Sabia que o monstro agora ressurgiria com força duplicada. E, de fato, este ano, teremos Bell Marques na avenida, se achando a última bola da goma de mascar, e também o Chiclete Com Banana, em outra avenida, macaqueando a era Bell. Resta saber se esse tal de Rafa Chaves dará conta do recado e o Chiclete continuará sendo uma força do carnaval da Bahia. Sinceramente, espero que sim. Implicações à parte, este texto é um texto de humor e longe de mim querer impedir o sucesso alheio ou desejar o fracasso de alguém ou algum projeto. Se você não gosta do Chiclete Com Banana, faça como eu: não ouça. Se você gosta, se divirta em dobro. E sempre tenha um bom carnaval.
Alice Cooper - Goes To Hell (1976) -Só quem viveu os anos 70, pode entender, ou assimilar o fenômeno Alice Cooper. Começou como uma banda com nome de mulher, depois o vocalista Vincent Funier tomou o nome para si e saiu em carreira-solo. Campeão de vendagens na década, Alice rodou o mundo com seu "circo de horrores", parando até por estas bandas, se tornando o primeiro grande artista internacional a tocar no país, com direito a tumulto durante as apresentações e tudo mais. Frequentemente confundido com um satanista, sempre fazia questão de salientar que o que fazia em seus shows era mero teatro; mas a verdade é que Cooper inaugurou o estilo "roqueiro junkie decadente" que faria sucesso nas décadas seguintes.
Certo que Alice Cooper nem era bem um junkie, no sentido usual da palavra. Sem nunca ter se envolvido com as drogas ditas pesadas, o roqueiro de nome andrógino se ferrou mesmo foi com a birita - que alguns consideram a mais pesada delas todas. Em 76, a carreira do cantor se encontrava em um ponto em que parecia que nada que ele fizesse manteria o frescor dos discos anteriores. Alice chamou o amigo e conceituado produtor Bob Ezrin e pariu Goes To Hell, um disco com pretensões de ser "conceitual", ou seja, de contar uma história.
Se "Goes To Hell" acaba sendo considerado um disco menor na carreira do artista, a fama é injusta. Algumas das faixas deste disco tem uma qualidade individual infinitamente superior a de muitas de suas melhores canções. É deste disco a belíssima "I Never Cry", a bem-humorada (e de letra fantástica) "Give The Kid A Break" e a emocionante "Wake Me Gently", que denunciam um artista em busca de um sentido para a própria vida, sob a máscara de "roqueiro doidão". As letras, neste álbum, curiosamente, são bem mais cuidadas que o usual, mais intimistas e mais sensoriais. De "Goes To Hell" em diante, de fato, a carreira de Tia Alice rolou ladeira abaixo comercialmente, ainda que com lampejos de criatividade como no interessante "Zipper Catch Skin", de 1980, onde o cantor encarnava uma espécie de Ian Curtis pré-moderno.
Uma certa falta de informação decorrente do atraso entre o que acontecia lá fora e aqui em termos de música, aliados a uma necessidade quase patológica da imprensa internacional de rotular a tudo e a todos, nos fez sempre acreditar, no Brasil, que o movimento Oi! era uma espécie de linha evolutiva do punk rock inglês. Não era. Antes mesmo de se auto-proclamarem "Oi!", batizadas pelo jornalista Gary Bushell, por conta da forma como os fãs marcavam o ritmo durante as apresentações (oi! oi! oi!), algumas bandas já se reuniam em garagens e pubs sujos para detonar um rock ainda mais cru que o punk em 1977. Na falta de um nome melhor, e pegando o gancho da crescente onda "punk rock" capitaneada pelos Sex Pistols, a imprensa passou a chamar aquele bando de moleques oriundos da mais pobre classe operária britânica de "street punks".
Mas a onda "Oi!" explodiu no final de 1979 e dois anos antes, em pleno natal de 1977, o mundo via nascer o primeiro disco de "Oi!" de fato e de direito. "All Skrewed Up", da polêmica banda Skrewdriver, é considerado, literalmente para o bem e para o mal, como o lançamento pioneiro do estilo. Não é que as bandas do movimento ainda não existissem. Pelo contrário, estavam todas lá, nos porões e nas garagens, ensaiando, ensaiando e ensaiando. Até mesmo o Sham 69, que é considerado por muitos como o real precursor do estilo, só gravaria o seu excelente Tell Us The Truth seis meses depois. Mas, foram os meninos pobres do Skrewdriver os responsáveis por inaugurar um estilo que já nasceu sob o signo da polêmica, o "rock oi!".
Quando se fala em Skrewdriver, o que vem à mente é a banda neo-nazista ligada ao movimento "White Power" e à Frente Nacional, o partido de extrema-direita inglês. O Skrewdriver é, também, um dos grandes responsáveis pela má fama do rock oi! Ainda que o nacionalismo estivesse presente - com uma frequência até mesmo inconveniente - nas letras das bandas do estilo, nenhuma, absolutamente nenhuma delas, poderia ser taxada de racista ou até mesmo nazista. Nem mesmo o Skrewdriver, pelo menos a formação original, que gravou este primeiro disco.
Por causa da banda liderada por Ian "Stuart" Donaldson, grupos como o The Exploited ganharam fama eterna - e imerecida - de "nazi punks". Por causa do Skrewdriver, a má vontade do resto do mundo com artistas do estilo como Cockney Rejects, Angelic Upstarts - que inclusive eram abertamente comunistas -, The 4 Skins e até mesmo o já citado The Exploited quase nos fez jogar fora toda uma geração do punk inglês. Por causa do Skrewdriver, deixamos até mesmo de conhecer o próprio Skrewdriver .
É preciso dizer que a formação original do Skrewdriver não era, de forma alguma, nazista e, muito menos, racista. Surgiram em meados da década como uma banda cover dos Rolling Stones chamada Tumbling Dice. No final de 76 resolveram trocar de nome e passar a compor o próprio repertório. Foi então que Roger Armstrong, do selo independente Chiswick Records - Motorhead, Damned, entre outros - assistiu a uma apresentação do grupo e os contratou. Anos mais tarde, já com a má reputação do grupo consolidada, Armstrong declararia: "Ian Donaldson jogou o nome e o futuro de uma excelente banda na lama". Nos relançamentos de "All Skrewed Up", a Chiswick modificaria a capa, trazendo o aviso: "Cuidado! Futura banda racista. Racismo é ruim".
Partindo do princípio que são bandas distintas, unidas por um único membro que, aliás, à época da gravação até se dizia "de esquerda", dá para curtir - e muito - este "disco de estréia" do Skrewdriver. Quem gosta de punk rock irá se surpreender ao ouvir um dos álbuns mais maduros do estilo, já cometidos por qualquer outro grupo. Como vinham diretamente do movimento skinhead original - que também era não-racista - , a influência da música folk inglesa já aparece na primeira faixa, a melhor, "Where Is It Gonna End". Na sequencia, "Government Action", o hit "Backstreet Kids" e "Gotta Be Young" flutuam entre influências marcantes de Who e Rolling Stones e o mais deslavado e desvairado punk rock. "I don't need your love" e "I don't like you" tem ecos de Ramones, como os "i don't" denunciam. O lado A encerra com a saltitante "an-ti-so-ci-al".
O lado B começa com "Confusion" passando pela poderosa "9 till 5" e a acelerada e curta "Jailbait". "We Don't Pose" e "The Only One" repetem a dobradinha "Stones/Who" e uma cover de "Won't get Fooled Again" (do The Who) encerra a bolacha. É preciso dizer que "All Skrewed Up" não é um disco "sensacional" mas, sem dúvida, é bom e surpreendente. Além do que, entrega bem mais do que promete. Uma curiosidade sobre o LP é que foi o primeiro da história a sair com quatro capas diferentes, cada uma de uma cor.
A banda original acabaria pouco mais de um ano depois do lançamento deste disco justamente por conta das divergências políticas que surgiam. Em 84, Ian Donaldson passa a se chamar Ian Stuart, contrata outros músicos e reforma a Skrewdriver, se tornando a banda supremacista branca de maior sucesso dentro da história do rock. Definitivamente, uma glória contestável. Ian Stuart Donaldson viria a morrer em 1994, em um acidente de carro.