Uma certa falta de informação decorrente do atraso entre o que acontecia lá fora e aqui em termos de música, aliados a uma necessidade quase patológica da imprensa internacional de rotular a tudo e a todos, nos fez sempre acreditar, no Brasil, que o movimento Oi! era uma espécie de linha evolutiva do punk rock inglês. Não era. Antes mesmo de se auto-proclamarem "Oi!", batizadas pelo jornalista Gary Bushell, por conta da forma como os fãs marcavam o ritmo durante as apresentações (oi! oi! oi!), algumas bandas já se reuniam em garagens e pubs sujos para detonar um rock ainda mais cru que o punk em 1977. Na falta de um nome melhor, e pegando o gancho da crescente onda "punk rock" capitaneada pelos Sex Pistols, a imprensa passou a chamar aquele bando de moleques oriundos da mais pobre classe operária britânica de "street punks".
Mas a onda "Oi!" explodiu no final de 1979 e dois anos antes, em pleno natal de 1977, o mundo via nascer o primeiro disco de "Oi!" de fato e de direito. "All Skrewed Up", da polêmica banda Skrewdriver, é considerado, literalmente para o bem e para o mal, como o lançamento pioneiro do estilo. Não é que as bandas do movimento ainda não existissem. Pelo contrário, estavam todas lá, nos porões e nas garagens, ensaiando, ensaiando e ensaiando. Até mesmo o Sham 69, que é considerado por muitos como o real precursor do estilo, só gravaria o seu excelente Tell Us The Truth seis meses depois. Mas, foram os meninos pobres do Skrewdriver os responsáveis por inaugurar um estilo que já nasceu sob o signo da polêmica, o "rock oi!".
Quando se fala em Skrewdriver, o que vem à mente é a banda neo-nazista ligada ao movimento "White Power" e à Frente Nacional, o partido de extrema-direita inglês. O Skrewdriver é, também, um dos grandes responsáveis pela má fama do rock oi! Ainda que o nacionalismo estivesse presente - com uma frequência até mesmo inconveniente - nas letras das bandas do estilo, nenhuma, absolutamente nenhuma delas, poderia ser taxada de racista ou até mesmo nazista. Nem mesmo o Skrewdriver, pelo menos a formação original, que gravou este primeiro disco.
Por causa da banda liderada por Ian "Stuart" Donaldson, grupos como o The Exploited ganharam fama eterna - e imerecida - de "nazi punks". Por causa do Skrewdriver, a má vontade do resto do mundo com artistas do estilo como Cockney Rejects, Angelic Upstarts - que inclusive eram abertamente comunistas -, The 4 Skins e até mesmo o já citado The Exploited quase nos fez jogar fora toda uma geração do punk inglês. Por causa do Skrewdriver, deixamos até mesmo de conhecer o próprio Skrewdriver .
É preciso dizer que a formação original do Skrewdriver não era, de forma alguma, nazista e, muito menos, racista. Surgiram em meados da década como uma banda cover dos Rolling Stones chamada Tumbling Dice. No final de 76 resolveram trocar de nome e passar a compor o próprio repertório. Foi então que Roger Armstrong, do selo independente Chiswick Records - Motorhead, Damned, entre outros - assistiu a uma apresentação do grupo e os contratou. Anos mais tarde, já com a má reputação do grupo consolidada, Armstrong declararia: "Ian Donaldson jogou o nome e o futuro de uma excelente banda na lama". Nos relançamentos de "All Skrewed Up", a Chiswick modificaria a capa, trazendo o aviso: "Cuidado! Futura banda racista. Racismo é ruim".
Partindo do princípio que são bandas distintas, unidas por um único membro que, aliás, à época da gravação até se dizia "de esquerda", dá para curtir - e muito - este "disco de estréia" do Skrewdriver. Quem gosta de punk rock irá se surpreender ao ouvir um dos álbuns mais maduros do estilo, já cometidos por qualquer outro grupo. Como vinham diretamente do movimento skinhead original - que também era não-racista - , a influência da música folk inglesa já aparece na primeira faixa, a melhor, "Where Is It Gonna End". Na sequencia, "Government Action", o hit "Backstreet Kids" e "Gotta Be Young" flutuam entre influências marcantes de Who e Rolling Stones e o mais deslavado e desvairado punk rock. "I don't need your love" e "I don't like you" tem ecos de Ramones, como os "i don't" denunciam. O lado A encerra com a saltitante "an-ti-so-ci-al".
O lado B começa com "Confusion" passando pela poderosa "9 till 5" e a acelerada e curta "Jailbait". "We Don't Pose" e "The Only One" repetem a dobradinha "Stones/Who" e uma cover de "Won't get Fooled Again" (do The Who) encerra a bolacha. É preciso dizer que "All Skrewed Up" não é um disco "sensacional" mas, sem dúvida, é bom e surpreendente. Além do que, entrega bem mais do que promete. Uma curiosidade sobre o LP é que foi o primeiro da história a sair com quatro capas diferentes, cada uma de uma cor.
A banda original acabaria pouco mais de um ano depois do lançamento deste disco justamente por conta das divergências políticas que surgiam. Em 84, Ian Donaldson passa a se chamar Ian Stuart, contrata outros músicos e reforma a Skrewdriver, se tornando a banda supremacista branca de maior sucesso dentro da história do rock. Definitivamente, uma glória contestável. Ian Stuart Donaldson viria a morrer em 1994, em um acidente de carro.
A banda original acabaria pouco mais de um ano depois do lançamento deste disco justamente por conta das divergências políticas que surgiam. Em 84, Ian Donaldson passa a se chamar Ian Stuart, contrata outros músicos e reforma a Skrewdriver, se tornando a banda supremacista branca de maior sucesso dentro da história do rock. Definitivamente, uma glória contestável. Ian Stuart Donaldson viria a morrer em 1994, em um acidente de carro.


De fato o som dos caras nesse primeiro disco é muito bom. Serve pra mostrar que a história de uma banda é formada por capítulos e que uns podem ser completamente diferente dos demais.
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