domingo, 31 de julho de 2016

Ed. 18 - Conheça a Luci & Os Neolíticos.

Quando eu resolvi, de fato, deixar de estar à frente da banda Zelvis e assumir uma posição de coadjuvante, não é segredo para ninguém que o grupo ruiu. Dali em diante, também não era segredo para ninguém o meu desinteresse em voltar a tocar.  Tentei iniciar um projeto de gravação de um álbum com algumas das minhas canções mais intimistas, que nunca couberam no repertório da LP & Os Compactos e Zelvismas o meu desânimo era evidente, apesar do total e completo apoio de Stephen Ulrich, meu filho e guitarrista de ambos os projetos anteriores. 

Capa do EP virtual "Amor em Marte"
O projeto do disco não foi à frente, mas, neste meio tempo, um outro sonho se concretizou. O blog Impaciente e Indeciso foi lançado, hoje contando com quase 700 mil visualizações em pouco mais de um ano e meio, e deu até uma cria, este blog aqui, o MVSIKA VRBANA, onde concentro meus textos a respeito de cultura pop, alguns inéditos, como este, e outros compilados do próprio Impaciente e Indeciso.

Neste meio tempo, uma outra ideia surgiu, que era voltar a tocar com o baterista Toni Calfim. Calfim é um amigo querido de longa data e um músico com o qual sempre eu tenho verdadeiro prazer em tocar. A insistência dele em iniciar um projeto novo comigo, sem dúvida, foi o motor para que eu, aos poucos, voltasse à ativa.

A ideia inicial da Zelvis não era ser uma continuidade da LP e Os Compactos e sim, um projeto à parte com vocal feminino. Uma banda mais pop, mais dançante, menos autoral e com um certo tempero baiano. Com um público cada vez mais interessado em um show com revisitações de canções de outros artistas, decidimos aplicar esta fórmula na própria LP, porém, mantendo os dois conjuntos em atividade. O que não deu certo. Uma certa patrulha estética que há em Feira de Santana, recebeu pessimamente a possibilidade de uma mesma formação existir sob dois nomes diferentes e acabamos optando por seguir apenas com a Zelvis.

Com a chegada de uma vocalista, a banda parecia completa e pronta para levantar âncora, E ia até muito bem. Mas alguma vaidade e veleidade típicas dos grupos de rock minou o projeto e acabei, eu mesmo, desistindo da permanência de um segundo vocalista. Porém, resolvi seguir com a fórmula original em uma nova formação, sem, no entanto, abdicar da banda anterior. No entanto, estava claro que eu não poderia mais me comprometer tanto com a Zelvis, como acontecia até então. Desta forma, bandas e amizades foram desfeitas,porém, a semente de Luci e os Neolíticos estava plantada.

Gravamos um EP, com Stephen na guitarra principal, e que chegou a ser divulgada como uma gravação solo da vocalista Anne Jessant. Você pode baixar o disco aqui. A próxima etapa era a busca de músicos que se encaixassem no perfil que queríamos para a nova banda. Buscávamos pessoas maduras, sem vícios e  que conhecessem aquilo que iríamos tocar. No início do ano, eu, Toni Calfim e Anne Jessant fomos acrescidos da grande figura que é Abelardo Boudoux, que, infelizmente, por motivos pessoais não pode continuar. Não tinha problema, aguardamos seis meses até que aparecesse a pessoa certa, no caso, o músico Chico Jr, amigo de longa data e peça-chave para que voltássemos a acreditar na viabilidade da Luci e os Neolíticos.

Ontem aconteceu o segundo ensaio desta novíssima formação. Estamos retomando a proposta inicial da Zelvis que é um "mix" de rock oitentista, música baiana e brasileira dançante e de qualidade, pop-rock e ska. Só fica de fora mesmo a axé-music, que, sem preconceito algum, não fazia parte da ideia original e fora introduzida por um dos integrantes da LP que, na alcova do seu quarto, gosta muito do estilo.

A Luci e os Neolíticos não tem data para estrear. Brincamos até que a banda estreará em 2020 comemorando os dois anos do próximo governo Lula. Claro, nenhuma das duas coisas acontecerá. A Luci e os Neolíticos estreia bem antes, mas apenas quando puder apresentar um repertório redondo, equilibrado entre autorais e covers personalizadas. O nome faz referência ao período em que a humanidade passou da pedra lascada à pedra polida e brinca com as limitações musicais naturais de integrantes que têm uma vida profissional e familiar a cuidar. Mas nada que o capricho, a amizade e a dedicação não resolvam.

Luci e os Neolíticos é pura diversão. Por enquanto, é diversão para nós. Em breve, para os amigos que serão convidados para os primeiros ensaios. Depois para outros amigos que poderão conferir o som em audições selecionadas. Enfim, em breve, para por o distinto público para dançar. Afinal, esta é a nossa missão. Sempre será. Por o mundo inteiro para dançar.

domingo, 24 de julho de 2016

Ed. 17 - Chicleteiro, eu?

E naquele carnaval de Salvador, em 2015,  não houve um Chiclete Com Banana na avenida. Poderia ser a notícia que estaria esperando por toda uma vida, pois, simplesmente, não gosto da banda. Entenda-se por não gostar, não gostar mesmo. É não se salvar – para o meu gosto, claro - nenhuma música do grupo de Bell Marques. Neste ponto, gosto até mais de Pablo do Arrocha, de quem seleciono um par de canções engraçadinhas que podem ser ouvidas por mim sem grandes sinais de enjoo. Mas tolo fui eu que imaginei que a saída de Bell implicaria no fim da banda. Eis que ela ressurge agora em dobro: Cabeça e corpo, doravante, agora agem em separado.

Aliás, a solução, na verdade, é o problema: O Chiclete Com Banana não é mais o grupo de Bell Marques. A música baiana tem essa qualidade incomum digna de um episódio da série americanaSobrenatural: Corta-se a cabeça do monstro e, em vez dele morrer, ele se duplica. E eis que agora temos dois Chicletes no carnaval: O remanescente, com o novo vocalista Rafa Chaves, e a cabeça que ganhou novo corpo, em uma operação digna do Dr. Frankenstein, atendendo por Bell, agora não mais "do Chiclete".

Respeito o Chiclete Com Banana como respeito qualquer músico, de qualquer estilo, que tenha um trabalho. Não irei aqui dizer que o Chiclete é isso, ou que é aquilo, até porque gosto é uma coisa tremendamente subjetiva. Mas explico porque não gosto: Não os acho músicos competentes o suficiente, os arranjos sempre me soaram muito frouxos e a voz de Bell Marques...Ah, a voz de Bell...Que coisa insuportável de se ouvir! Mas há quem goste, há até mesmo quem ame a voz dele e, acreditem, eu respeito isto. Mas passo.

Acompanhei o Chiclete em momentos decisivos de sua trajetória: Fiquei noites de sábado sem dormir enquanto eles – que, à época, se chamavam Scorpius - tocavam os hits do momento no clube a poucos metros de minha casa. Não sei se é coincidência, mas o fato é que diversas músicas que compunham o repertório deles – sucessos “do momento” de 1977 - entraram para a minha seleta lista de músicas profundamente detestáveis. 

Também presenciei , claro que do chão, a briga que resultou na saída do cantor e compositor Missinho, em cima do trio. O fato ocorreu quando o caminhão passava bem em frente ao finado Hotel Caroá, no centro de Feira de Santana, lá pelos idos dos anos 80.Missinho, que era a estrela do Chiclete naquela época, disse em alto e bom som: “- Estou saindo do grupo. Quero ver vocês conseguirem continuar sem mim”. Maldita hora em que ele proferiu tais palavras. A banda não só continuou, com Bell Marques assumindo os vocais, como passou a fazer ainda mais sucesso. O monstro perdera uma das cabeças, mas ressurgiu ainda mais forte.

É bom dizer que o Chiclete com Banana também é um monstro replicante. Se multiplicou em diversas outras bandas, de nome incrivelmente parecidos como Chicana, ChicabanaPatchanka e vai por aí. A quantidade de gente com óculos ray-ban, bandanas e camisas floridas liderando uma banda de axé hoje na Bahia é impressionante. Seria até uma solução fácil os músicos remanescentes do Chiclete apenas contratarem um destes clones para substituir Bell Marques.

Imaginei que o escolhido para substituir Bell seria o cantor Alexandre Peixe. Compositor gravado por diversas estrelas da axé-music, é autor de inúmeras canções do repertório “chicleteano” e substituiria o ícone careca bandaneiro à altura. Pensei até em uma volta gloriosa de Missinho, que, dizem, hoje é motorista de táxi em Salvador. Mas o escolhido foi mesmo Rafa Chaves. E quem é Rafa Chaves? Sei lá. Vai googlear que tu descobre. Eu, decisivamente, não preciso desta informação para nada

Eis que muita gente comemorou a saída do vocalista como o fim de uma era de música chata e repetitiva. Eu não. Sabia que o monstro agora ressurgiria com força duplicada. E, de fato, este ano, teremos Bell Marques na avenida, se achando a última bola da goma de mascar, e também o Chiclete Com Banana, em outra avenida, macaqueando a era Bell. Resta saber se esse tal de Rafa Chaves dará conta do recado e o Chiclete continuará sendo uma força do carnaval da Bahia. Sinceramente, espero que sim. Implicações à parte, este texto é um texto de humor e longe de mim querer impedir o sucesso alheio ou desejar o fracasso de alguém ou algum projeto. Se você não gosta do Chiclete Com Banana, faça como eu: não ouça. Se você gosta, se divirta em dobro. E sempre tenha um bom carnaval.

sábado, 16 de julho de 2016

Ed. 16 - Alice Cooper - Goes To Hell


Alice Cooper - Goes To Hell (1976) - Só quem viveu os anos 70, pode entender, ou assimilar o fenômeno Alice Cooper. Começou como uma banda com nome de mulher, depois o vocalista Vincent Funier tomou o nome para si e saiu em carreira-solo. Campeão de vendagens na década, Alice rodou o mundo com seu "circo de horrores", parando até por estas bandas, se tornando o primeiro grande artista internacional a tocar no país, com direito a tumulto durante as apresentações e tudo mais. Frequentemente confundido com um satanista, sempre fazia questão de salientar que o que fazia em seus shows era mero teatro; mas a verdade é que Cooper inaugurou o estilo "roqueiro junkie decadente" que faria sucesso nas décadas seguintes.

Certo que Alice Cooper nem era bem um junkie, no sentido usual da palavra. Sem nunca ter se envolvido com as drogas ditas pesadas, o roqueiro de nome andrógino se ferrou mesmo foi com a birita - que alguns consideram a mais pesada delas todas. Em 76, a carreira do cantor se encontrava em um ponto em que parecia que nada que ele fizesse manteria o frescor dos discos anteriores. Alice chamou o amigo e conceituado produtor Bob Ezrin e pariu Goes To Hell, um disco com pretensões de ser "conceitual", ou seja, de contar uma história. 

Se "Goes To Hell" acaba sendo considerado um disco menor na carreira do artista, a fama é injusta. Algumas das faixas deste disco tem uma qualidade individual infinitamente superior a de muitas de suas melhores canções. É deste disco a belíssima "I Never Cry", a bem-humorada (e de letra fantástica) "Give The Kid A Break" e a emocionante "Wake Me Gently", que denunciam um artista em busca de um sentido para a própria vida, sob a máscara de "roqueiro doidão". As letras, neste álbum, curiosamente, são bem mais cuidadas que o usual, mais intimistas e mais sensoriais. De "Goes To Hell" em diante, de fato, a carreira de Tia Alice rolou ladeira abaixo comercialmente, ainda que com lampejos de criatividade como no interessante "Zipper Catch Skin", de 1980, onde o cantor encarnava uma espécie de Ian Curtis pré-moderno.

sábado, 9 de julho de 2016

Ed. 15 - Skrewdriver: Uma boa banda desperdiçada.

Uma certa falta de informação decorrente do atraso entre o que acontecia lá fora e aqui em termos de música, aliados a uma necessidade quase patológica da imprensa internacional de rotular a tudo e a todos, nos fez sempre acreditar, no Brasil, que o movimento Oi! era uma espécie de linha evolutiva do punk rock inglês. Não era. Antes mesmo de se auto-proclamarem "Oi!", batizadas pelo jornalista Gary Bushell, por conta da forma como os fãs marcavam o ritmo durante as apresentações (oi! oi! oi!), algumas bandas já se reuniam em garagens e pubs sujos para detonar um rock ainda mais cru que o punk em 1977. Na falta de um nome melhor, e pegando o gancho da crescente onda "punk rock" capitaneada pelos Sex Pistols, a imprensa passou a chamar aquele bando de moleques oriundos da mais pobre classe operária britânica de "street punks".

Mas a onda "Oi!" explodiu no final de 1979 e dois anos antes, em pleno natal de 1977, o mundo via nascer o primeiro disco de "Oi!" de fato e de direito. "All Skrewed Up", da polêmica banda Skrewdriver, é considerado, literalmente para o bem e para o mal, como o lançamento pioneiro do estilo. Não é que as bandas do movimento ainda não existissem. Pelo contrário, estavam todas lá, nos porões e nas garagens, ensaiando, ensaiando e ensaiando. Até mesmo o Sham 69, que é considerado por muitos como o real precursor do estilo, só gravaria o seu excelente Tell Us The Truth seis meses depois. Mas, foram os meninos pobres do Skrewdriver os responsáveis por inaugurar um estilo que já nasceu sob o signo da polêmica, o "rock oi!".

Quando se fala em Skrewdriver, o que vem à mente é a banda neo-nazista ligada ao movimento "White Power" e à Frente Nacional, o partido de extrema-direita inglês. O Skrewdriver é, também, um dos grandes responsáveis pela má fama do rock oi! Ainda que o nacionalismo estivesse presente - com uma frequência até mesmo inconveniente - nas letras das bandas do estilo, nenhuma, absolutamente nenhuma delas, poderia ser taxada de racista ou até mesmo nazista. Nem mesmo o Skrewdriver, pelo menos a formação original, que gravou este primeiro disco.

Por causa da banda liderada por Ian "Stuart" Donaldson, grupos como o The Exploited ganharam fama eterna - e imerecida - de "nazi punks". Por causa do Skrewdriver, a má vontade do resto do mundo com artistas do estilo como Cockney Rejects, Angelic Upstarts - que inclusive eram abertamente comunistas -, The 4 Skins e até mesmo o já citado The Exploited quase nos fez jogar fora toda uma geração do punk inglês. Por causa do Skrewdriver, deixamos até mesmo de conhecer o próprio Skrewdriver .

É preciso dizer que a formação original do Skrewdriver não era, de forma alguma, nazista e, muito menos, racista. Surgiram em meados da década como uma banda cover dos Rolling Stones chamada Tumbling Dice. No final de 76 resolveram trocar de nome e passar a compor o próprio repertório. Foi então que Roger Armstrong, do selo independente Chiswick Records  - Motorhead, Damned, entre outros - assistiu a uma apresentação do grupo e os contratou. Anos mais tarde, já com a má reputação do grupo consolidada, Armstrong declararia: "Ian Donaldson jogou o nome e o futuro de uma excelente banda na lama". Nos relançamentos de "All Skrewed Up", a Chiswick modificaria a capa, trazendo o aviso: "Cuidado! Futura banda racista. Racismo é ruim".

Partindo do princípio que são bandas distintas, unidas por um único membro que, aliás, à época da gravação até se dizia "de esquerda", dá para curtir -  e muito -  este "disco de estréia" do Skrewdriver. Quem gosta de punk rock irá se surpreender ao ouvir um dos álbuns mais maduros do estilo, já cometidos por qualquer outro grupo. Como vinham diretamente do movimento skinhead original - que também era não-racista - , a influência da música folk inglesa já aparece na primeira faixa, a melhor,  "Where Is It Gonna End". Na sequencia, "Government Action", o hit "Backstreet Kids" e "Gotta Be Young" flutuam entre influências marcantes de Who e Rolling Stones e o mais deslavado e desvairado punk rock. "I don't need your love" e "I don't like you" tem ecos de Ramones, como os "i don't" denunciam. O lado A encerra com a saltitante "an-ti-so-ci-al".

O lado B começa com "Confusion" passando pela poderosa "9 till 5" e a acelerada  e curta "Jailbait". "We Don't Pose" e "The Only One" repetem a dobradinha "Stones/Who" e uma cover de "Won't get Fooled Again"  (do The Who) encerra a bolacha. É preciso dizer que "All Skrewed Up" não é um disco "sensacional" mas, sem dúvida, é bom e surpreendente. Além do que, entrega bem mais do que promete. Uma curiosidade sobre o LP é que foi o primeiro da história a sair com quatro capas diferentes, cada uma de uma cor.

A banda original acabaria pouco mais de um ano depois do lançamento deste disco justamente por conta das divergências políticas que surgiam. Em  84, Ian Donaldson passa a se chamar Ian Stuart, contrata outros músicos e reforma a Skrewdriver, se tornando a banda supremacista branca de maior sucesso dentro da história do rock. Definitivamente, uma glória contestável. Ian Stuart Donaldson viria a morrer em 1994, em um acidente de carro.









sábado, 2 de julho de 2016

Ed. 14 - Sonhando acordado em câmera lenta.


O fato de ter cortado relações, musicalmente falando, com a década de 90, ainda em seu amanhecer, fez com que eu deixasse de ouvir muita coisa chata e barulhenta vinda da terra do Tio Sam, ou de algumas outras, chatas e modorrentas, oriundas da terra da Rainha. Mas tamanho radicalismo em não querer ouvir nada que tivesse sido produzido nestes anos fez com que eu deixasse de conhecer mais cedo a banda que corre o risco de ser a melhor dos anos 90 e até mesmo da atualidade.


Eu fiz questão de grifar a frase para evitar polêmicas inúteis. Tudo bem se você acha o Oasis, os Strokes, o Xiu Xiu ou qualquer outra coisa, a melhor banda do mundo. Perdoe-me, eu acho isto do Everclear. É isto mesmo que você leu. O power-trio do Oregon já há algum tempo vem me conquistando a cada lançamento, e, de mais a mais, posso acompanhar o crescimento da banda em tempo real, agora, já. Seu mentor intelectual e líder da banda, é o filho de imigrantes gregos Art Alexakis, de 42 anos de idade em 2003. Quando o Everclear lançou seu primeiro disco, em 1993, o guitarrista já havia passado dos 30, acabara de se divorciar em um processo penoso que resultaria em dois dos melhores discos já produzidos e não tinha mais nenhum deslumbramento com o show-business.

Ao mesmo tempo, a massa sonora característica de suas canções denunciava justamente o contrário. Que no seu coração de homem maduro morava ainda um adolescente, louco pra fazer o maior barulho possível. Já os temas de suas músicas eram surpreendentemente maduros e lúcidos. Em Wonderful, faixa do brilhante "Songs From An American Movie", Art questiona a instabilidade familiar vista pelo olhar das crianças de forma tão crua e dura que todos os pais deveriam ler a letra da canção para, talvez assim, pouparem-nas de futuros traumas. Traumas que, inclusive, ele tem. No belíssimo clip desta música, a câmera o flagra de olhos marejados, visivelmente emocionado.Com uma vida recheada de traumas e pequenas e grandes tragédias (seus pais se separaram quando ele tinha cinco anos e seu irmão mais velho morreu de overdose de heroína, sendo que ele próprio, já foi um viciado), Alexakis é um letrista do tamanho de um Dylan ou de um Cohen. E se ele faz hard-rock em vez de folk music, melhor.

Assim chegamos ao disco "Slow Motion Daydream", de 2003, seu último trabalho, o mais recente até este ano. Começamos pelo título, que já entrega muita coisa. "Sonhando acordado em câmera lenta" é, de fato, o mais "sonhador" dos álbuns da banda. Livre das consequências de sua separação, com os demônios interiores devidamente exorcizados, de contas acertadas com o way-of-life americano (Alexakis fez uma intensa campanha contra a reeleição de Bush e foi um dos criadores de um site em que cidadãos americanos pedem desculpas ao mundo pela eleição do "presidente júnior"), o que restaria ao artista? Produzir um disco carregado nas tintas, "quase" ensolarado, bem "sonhador" (daí o título), com direito até a faixa-secreta alegrinha e limpinha. Não que a essência do texto de Art Alexakis ou as características do som do Everclear tenham se diluído neste (não tão) novo disco. Muito pelo contrário, está tudo lá. O que mudou é que a visão de mundo do artista não está mais tão amarga quanto antes. Art está enxergando tudo da mesma forma, só que com muito mais humor. E a "pauleira" típica do grupo ainda está (e como está, por sinal) muito presente. Assim como as delicadas construções harmônicas pop. Só que agora está tudo muito bem misturado, bem dosado, maduro enfim.

O humor quase negro de canções como "I Wanna Die In A Beautiful Day", a fina textura de "A Beautiful Life" ou o clima folk de "Volvo Driving Soccer Mom"; até a inevitável influência de Van Morrison está presente em "That Acid Summer". Como em todos os discos da banda, as músicas são dispostas como se contassem uma história, embora todas tenham luz própria. Enfim, para quem não gosta do Everclear, certamente este disco não dá razões para que passe a gostar. Para quem curte o som mezzo pesado mezzo pop do grupo, não faltam motivos para se deliciar com este álbum. 

E pra não dizer que tudo é divino-maravilhoso em "Slow Motion Daydream", alguns "truques" de discos anteriores podem ser reconhecidos aqui e ali e podem dar munição aos detratores do grupo, que costumam dizer que o Everclear está sempre fazendo a mesma música. Tudo bem, diziam isto dos Ramones e hoje sentimos a falta daquele disquinho anual "igualzinho" do quarteto nova-iorquino. Vá, Alexakis, faça ainda uns dez "Slow Motion Day Dream" antes da sua bela morte, e que permaneçamos vivos para ouvi-los. Em câmera lenta. (Publicado originalmente em 2004).