sábado, 30 de abril de 2016

Ed. 5 - Disco do Ano - Ramones - Pleasant Dreams (1981)

A acusação mais grave que pesa sobre Pleasant Dreams, o sexto disco de estúdio dos Ramones, lançado em 1981, é que o instrumental não teria sido gravado pelo grupo, tendo o produtor Graham Gouldman os substituído por músicos de estúdio.  Outras acusações se seguiriam, como a de que a banda, finalmente, teria se vendido, buscando uma sonoridade mais "comercial" e mais pop.


Se a primeira  queixa não é absolutamente verdadeira - em sua biografia, Marky Ramone desmente e garante que, apesar da contribuição de um músico de estúdio aqui e ali, foram os próprios Ramones que executaram todas as canções - a segunda se mostra profundamente real. Cansados de não venderem discos, embora tivessem prestígio e credibilidade, desde o disco anterior, "End Of The Century", os Ramones buscavam uma aproximação com a "new wave". Para burilar a nova sonoridade pop dos quatro punks, a gravadora teria convocado ninguém menos que Phil Spector, um rock'n'roll hitmaker nato. O álbum anterior, porém, apesar de excelente, soou confuso demais para alcançar com exito as paradas de sucesso.



Graham Gouldman, compositor e vocalista da banda 10cc, está entre um dos que redefiniram o conceito de música pop para o final dos anos 70 e início dos anos 80. Sua influencia é sentida até hoje e é um daqueles nomes cuja ausência teria feito a música andar por outros caminhos. Se havia alguém que poderia costurar toda aquela barulheira e deixa--la pronta para as paradas de sucesso, era Gouldman. E o resultado foi realmente fantástico. Sem, em nenhum momento, deixar que a essência dos Ramones se perdesse, pariu um dos melhores discos do início da nova década. Se o LP não fez o sucesso que deveria, de fato, a culpa não foi do produtor.



Quando Pleasant Dreams chegou às lojas e emissoras de rádio, foi recebido com dupla desconfiança. Os DJ's não conseguiam achar uma faixa que fosse "suficientemente boa" para tocar e os antigos fãs não gostaram nada de ver toda a tosqueira hardcore, todo o barulho e toda a produção precária presente nos discos anteriores polida nas doze faixas do novo álbum.



Quem acabaria consumindo - e aprovando - o novo lançamento seriam os novos fãs - eu, inclusive - que a banda agregou a partir daquele disco. E ter conseguido estes fãs de última hora foi essencial para que a existência da banda se prolongasse por mais alguns anos. Ainda que, nos discos seguintes, os Ramones pesassem a mão em uma nova sonoridade que, algumas vezes, beirava o heavy metal, foi com "End Of The Century" e, principalmente, com Pleasant Dreams, que o grupo aprendeu a compor, deixando de lado os intermináveis "I Wanna" e "I Don't Wanna".



Me dei conta da existência dos Ramones em uma nota da revista Veja quando do lançamento no Brasil de "End Of The Century". Foi o primeiro disco da banda a sair no país e a revista os tratava como "roqueiros de histórias em quadrinhos". Antes mesmo de ouvi-los, o texto me convenceu a comprar a bolacha. Em uma visita a Salvador, voltei com eles debaixo do braço.



Foi um amigo que me mostrou o Pleasant Dreams, pela primeira vez, em edição importada e executado em um aparelho de som, à época, de primeira qualidade. Gravei um cassete com ele e, dali em diante e até a eternidade, seria, para sempre o meu disco preferido dos Ramones. Algum tempo depois, o vinil entraria oficialmente em minha coleção a partir de uma cópia argentina.



O lado A começa com "We Want The Airwaves", que cita os Doors ("we want the world and we want it now") mostrando, logo de cara, a que veio o grupo neste disco. A melhora na qualidade das composições já se faz evidente logo nesta primeira canção, de autoria do vocalista Joey Ramone, uma provável influencia de Gouldman, compositor de hits como For Your Love (Yardbirds) e No Milk Today (Hermans Hermits). "All Is Quiet in The Eastern Front" é pesada e rápida, mas ganha um quê de classe e charme em comparação às canções de discos anteriores compostas por Dee Dee Ramone. 



A riff de introdução de "He's a Whore", do Cheap Trick, foi descaradamente chupada para compor "The KKK Took My Baby Away". Por anos, divulgou-se a história de que a faixa seria um desagravo de Joey ao companheiro Johnny, que teria lhe roubado a namorada, mas na sua biografia "Eu dormi com Joey Ramone", o seu irmão Mick Leigh desmente esta versão e diz que a "KKK", no caso, teria sido a mãe deles, que não permitiu o namoro do vocalista com uma moça negra.



A quarta faixa, "Don't Go", a minha preferida do disco, é um massive hit sessentista de refrão ganchudo, seguida por "You Sound Like You're Sick", de Dee Dee, pesada e rápida como são as suas composições. "It's Not My Place", entupida de The Doors, é mais fraca e encerra o primeiro lado sem comprometer.



Do outro lado, "She's a Sensation" foi o mais comercial que os Ramones puderam soar em toda a sua trajetória. Até hoje é uma espécie de hit alternativo e porta de entrada para novos fãs da banda. "7-11", uma grande canção, erra feio na mão, em um arranjo limpo demais para os padrões do grupo. "You Didn't Mean Anything", advinhem, é mais uma canção pesada e rápida de Dee Dee. Mas, é na seguinte, "Come On Now" que o baixista compositor realmente surpreende, transformando a faixa em um dos pontos altos do disco. 

"This Business Is Killing Me" e "Sitting In My Room" encerram o LP sem o mesmo brilho das demais mas com competência e responsabilidade de não deixar o ritmo cair.


Recentemente, a Rhino, selo da Warner dedicado a compilar e relançar discos clássicos do rock e da música pop, lançou uma edição de luxo como faixas a mais, farto libreto e uma curiosidade, a capa original do disco, feia de doer, com os quatro na capa. 35 anos depois, Pleasant Dreams continua fresco, parecendo ter sido gravado ontem. É um disco para a eternidade, que sobreviveu á morte de três dos quatro integrantes que o gravaram e sobreviverá, até mesmo, à morte do rock'n'roll. Longa vida ao rock, então, porque a imortalidade do melhor disco dos Ramones já está garantida.

sábado, 23 de abril de 2016

Ed.4 - Dos Arquivos Empoeirados - Donnie Iris - Back On The Streets (1980)


Seu início de carreira foi medíocre, tocando guitarra em uma banda do enésimo escalão da música pop no final dos anos 60. Mesmo nos EUA, The Jaggerz jamais alcançaram grande sucesso, ainda que sua "The Rapper" tivesse arranhado levemente as paradas quando foi lançada, por volta de 1970.

Em 1979, ele fora convidado por Rob Parish para integrar a última formação do seu Wild Cherry, que tentava desesperadamente repetir o sucesso mundial de "Play That Funky Music" (inclusive, neste álbum, curiosamente intitulado "Only the Wild Survive", há uma canção chamada  "Keep On Playing That Funkyt Music"). Mas foi apenas em 1980, quando lançou seu primeiro álbum solo, deixando a guitarra de lado e focando na sua carreira de cantor, que Donnie Iris despertou de verdade a atenção da América para si mesmo.

O lançamento de "Back On The Streets" foi antecedido por  um single poderoso, "Oh Leah", que alcançou o 19º lugar nos EUA e 10º no Canadá. A canção, que seria regravada em 2015 pelo grupo Electric Six, se tornaria uma espécie de "assinatura" do músico até os dias de hoje. Finalmente, em julho, o pequeno selo Midwest Records, despretensiosamente, jogava no mercado o debút de Donnie Iris. A melhor posição alcançada pelo álbum seria  a 57ª, entre os 200 mais bendidos nos Estados Unidos, no início do ano seguinte, mas, ainda assim, foi comprado pela gigante MCA Records, três meses após seu lançamento.

Azar de quem nunca ouviu "Back On The Streets". A bolacha, bem enxutinha, traz 10 poderosas canções, perfeitamente antenadas com o power pop que se fazia à época, ainda que soasse um tanto mais "pesada" que os seus congêneres daquele tempo. Com a parceria afiada de Mark Avsec, tecladista do Wild Cherry, e de Marty Lee Hoenes, seu companheiro desde sempre nos Jaggerz, iris perpetrou uma das melhores estréias do "novo rock" que se tem notícia. O disco é deliciosamente dançante, de melodias grudentas e, se hoje soa datado, melhor ainda. Afinal todos os bons discos lançados nos últimos 15 anos são visivelmente carbonos da sonoridade de décadas anteriores.

riff demolidora de "Oh, Leah", que abre poderosamente o primeiro lado, deveria estar listadas entre as melhores riffs do rock em todos os tempos. "I Can't Hear You" é um "rockão" típico enquanto "Joking" é "new wave" em toda a sua manifestação e essência. Já "Shock Treatment" é um "roquinho" que lembra as melhores coisas dos Cars. "Back On The Streets", a faixa-título, é pesada e cheia, flertando com o thrash metal que só seria inventado alguns anos depois. Marty Lee, que tocou todas as guitarras deste disco, alguns anos depois, formaria o The Innocent, primeiro grupo de Trent raznor, fundador do Nine Inch Nails.

No lado B, um hit em potencial, desperdiçado, a saltitante e radiofônica "Agnes". "You're Only Dreaming" repete a fórmula "new wave", inclusive com direito a um safadérrimo órgão Farfisa, preferido de onze entre dez "new wavers" da época. "She's So Wild" é a mais "punk" do álbum, enquanto "Daddy Don't Live Here Anymore" é mais "bluesy". "Too Young To Love", a única balada do LP, com ares de um Bruce Springsteen bêbado e com mais raiva do que o habitual, encerra magnificamentea obra. Nas primeiras edições do disco, os lados aparecem invertidos, o lado A no lado B e vice-versa, mas certamente, "Back On The Streets" soa bem melhor da forma com que ficou conhecido.

A partir de "King Cool" o disco do ano seguinte, a banda passa a se chamar Donnie Iris & The Cruisers, chegando a ter outro hit regional com a canção "Do You Compute", que se tornou praticamente um jingle da empresa de games Atari nos Estados Unidos. Iris continua na ativa, aos 72 anos, esbanjando energia e vitalidade com seus Cruisers. Uma enorme pena não terem alcançado reconhecimento mundial.





sexta-feira, 15 de abril de 2016

Ed. 3 - Tesouros da Juventude - Kate Bush - The Kick Inside (1978)

O ano de 1978 foi bastante prolífico para a música pop. Ainda que, entre os melhores discos daquele ano, listados pelo respeitado site Best Ever Albums,  o  LP melhor posicionado de um brasileiro seja o "Axé", do sambista Candeia (155º lugar) e o metal só venha encontrar um representante no disco homônimo do hoje quase esquecido Molly Hatchet (166º lugar), 1978 foi mesmo o ano do "novo rock" a que se convencionou chamar comercialmente de "new wave". O site relaciona nos cinco primeiros lugares, Bruce Springsteen, Elvis Costello, Van Halen, Blondie e The Cars. Mas é o disco que aparece em 16º lugar que se tornaria um dos mais instigantes lançamentos daquele ano.


1978 também não foi um bom ano para as cantoras pop. Qualquer uma que se aventurasse e não militasse claramente nas fileiras do tal novo rock correria o sério risco de se transformar em alguma espécie de one hit wonder, artista de um sucesso só, vítima da indústria musical daquele momento, cada vez mais preocupada em lançar novos nomes, apenas para descartá-los em seguida. Mas, Kate Bush, definitivamente, não era uma cantora pop comum. Com apenas 19 anos e apadrinhada por ninguém menos que o guitarrista David Gilmour, uma das duas cabeças mais pensantes do Pink Floyd, Bush compunha o que cantava e era dona de uma voz realmente incomum. Preparou meticulosamente o seu disco de estréia durante todo o ano de 1977 e quase o lançara em dezembro, tendo atrasado seu début por questões estéticas que envolviam a capa do primeiro compacto extraído do disco.

Kate Bush agregava mais dois fatores de risco à esta estreia: a religiosidade intensa presente nas letras - o disco inteiro fala de budismo em um momento em que ainda não havia se tornado moda ser budista - e a associação com um músico que,naquele momento, representada tudo que era velho e ultrapassado, o já citado David Gilmour. No mais, Bush não parecia interessada em fazer qualquer tipo de concessão ao sucesso fácil. Sem dúvida, a cantora e compositora era uma aposta de risco para a EMI.

Quando Wuthering Heights, a belíssima canção baseada no livro O morro dos ventos uivantes, de Emily Bronté, chegou às emissoras de rádio, ainda nos primeiros dias de 1978, com toda aquela delicadeza e o canto quase lírico de sua compositora, parecia que nada de muito espetacular aconteceria. A canção, a última a ser escrita para o disco The Kick Inside, que só seria lançado no mês seguinte, não era a preferida da gravadora para aparecer no lado A de um single. Mas  Kate, mais uma vez, bateu o pé, e uma das canções mais emblemáticas do final dos anos 70 acabaria por vir ao mundo. Ainda assim, a gravadora acabou preparando dois clips oficiais para a música, algo muito incomum, até mesmo nos dias de hoje.

Wuthering Heights não é apenas o single mais bem sucedido de toda a carreira de Kate Bush, com quase meio milhão de cópias vendidas em todo o mundo. É também o single mais vendido de uma cantora e compositora britânica e o que chegou mais rapidamente ao primeiro lugar. Entrou em 42º lugar, passando a 27º lugar na semana seguinte e atingindo o topo duas semanas depois. No mês seguinte, finalmente, "The Kick Inside" era lançado, alcançando uma recepção surpreendente para um disco considerado "difícil", de fortes tinturas de pop progressivo.

No Brasil, "The Kick Inside" demorou mais de um ano para ser lançado e, ainda assim, por pouco quase não aconteceu nada, pois a filial brasileira da EMI resolveu apostar em um single da canção "Strange Phenomena". E aí é que entra o relato de uma daquelas situações curiosas que mais tarde serão contadas de forma anedótica: Quando ouvi Kate Bush pela primeira vez, no rádio, foi justamente a canção que fazia parte do compacto de estreia da cantora no país. Eu tenho uma prima chamada Filomena e quando eu ouvi "Strange Phelomena" no refrão, eu li também "Strange Phelomena" quando comprei o compacto e pretendia presenteá-la com ele, ainda que eu jamais soubesse que "strange" significasse "estranha" e não "estrangeira". Uma vez que percebi que era "phenomena" a palavra que constava no título, acabei ficando com o disco para mim e dando a ela outro presente, desta vez outro compacto, da cantora Filomena interpretando uma bisonha versão de "De Do Do De Da Da" do Police. Filomena, a minha prima, detestou o compacto da Filomena, a cantora. Melhor seria ter dado a ela o disquinho da Kate Bush.

De tanto que ouvi sem muita vontade, acabei gostando do single. Mas, confesso, o megahit que se seguiu, a já citada Wuthering Heights, completamente estourada no Brasil graças ao fato de fazer parte de uma trilha de novela de sucesso, não me agradava nem um pouco. Foi só quando The Kick Inside, o álbum, veio parar em minhas mãos, como contrapeso de uma troca, que eu pude, afinal, me apaixonar pelo universo delicado de Kate Bush. Mas, até hoje, apesar de até ter passado a gostar da faixa, Wuthering Heighs continua soando destoante do resto do disco e completamente dispensável, a mesmíssima impressão que eu tive em 1980.

O lado A abre com Moving, uma canção delicada com ênfase no piano na qual ressai com bastante destaque a voz impressionante da cantora. The Saxophone Song repete a dose acrescentada de uma melodia que vai crescendo até desaguar em um belíssimo solo de sax. Strange Phenomena é uma canção bela e estranha - é de se imaginar o que p A&R da EMI brasileira tinha na cabeça quando resolveu lançá-la como single. "Kite" é uma "regatta", como se chamam aqueles reggaes deliciosamente embranquecidos. "The Man With The Child In His Eyes" tem um pé na erudição sem nunca perder a pegada pop. "Whutering Heights" encerra o lado A, com um jeitão de deslocada.

Viramos o lado e tudo fica mais animado com "James And The Cold Gun", um rock quase pesado. "Feel It" é uma pérola pop, um dos melhores momentos do disco. 'Oh To Be In Love" segue a mesma linha e a gente começa a pensar como o lado B do disco é tão melhor que o lado A. Então vem "L'Amour looks SOmething Like You" e meio que corta o clima, mas é curta e acaba não fazendo tanata diferença.  "Them Heavy People", de letra assumidamente budista e outra reggatta, recupera maravilhosamente a vibração deste segundo lado e é, disparadamente, a melhor canção do álbum inteiro."Room For The Life" segura o pique e "The Kick Inside", sem muitas surpresas em relação ao que j´pa se ouviu até aqui,  encerra o lado e o disco, de maneira correta e precisa.

Nada do que a cantora fez após The Kick Inside passou perto do sucesso, da importância e da relevância deste disco de estréia. Ainda que seus terceiro e quarto discos a transformassem definitivamente em uma estrela de renome mundial - o segundo, Lionheart, foi lançado de maneira equivocada logo em seguida ao primeiro e é pouco conhecido do público - é o seu excelente disco de estréia o alicerce para que Kate Bush escrevesse de forma definitiva o seu nome na história da música pop mundial.



sexta-feira, 8 de abril de 2016

Ed. 2 - Disco do Ano - Pink Floyd - The Wall (1979)

Provavelmente, 1979 é o ano com maior número de lançamentos presentes em minha coleção de discos. Do London Calling, o álbum duplo do The Clash que mudou os rumos do punk rock à dinamite pop de Discovery, disco daquele ano da Electric Light Orchestra, boa parte do que foi lançado naquele ano em termos de rock e pop figuram nas minhas fileiras audiófilas.

Uma das explicações é que 79, realmente, foi um ano prolífico para a música do planeta Terra. O big-bang do punk rock e sua rachadura jamais fechada na indústria fonográfica haviam acontecido há apenas dois anos e o mundo, em plena guerra fria, ainda podia se dar ao luxo de acreditar em tempos melhores vindouros.

A outra explicação, bem mais particular e intimista, é que, em 1980 eu comecei a descobrir a música através de visitas a uma rede de lojas de discos da minha cidade, que estava em processo de falência, após uma desastrosa tentativa de criar um comércio atacadista um ano antes. E o que estava em liquidação eram justamente discos lançados em 1979.

Do Slow Train Coming, o disco "gospel" de Bob Dylan, ao "Dream Police" do Cheap Trick, havia um universo de bons discos a serem comprados a preços de banana e ouvidos como se fossem ouro. E, tudo isto, para um menino de 13 anos fascinado por música desde sempre, era como estar em uma fábrica de chocolates. Mas, o disco mais importante de 79 não estava nos balaios, saldos e promoções daquela loja de disco.

Tomei conhecimento da existência de  The Wall, o álbum duplo do grupo inglês Pink Floyd, um ano antes e bem na época de seu lançamento. Um amigo, aspirante a DJ, o comprara apenas para retirar o ruído de helicóptero de "Another Brick In The Wall" e incorporá-lo ao seu repertório de efeitos especiais. O disco tinha uma apresentação bastante atraente e fiquei curioso para ouvi-lo. 

Mas, minha cabeça, em 1979, ainda estava na disco-music e na música negra da época e, aquilo, definitivamente, não me soara nada bem. Ainda assim, gravei três músicas em uma fita cassete: A segunda - e mais famosa - parte de Another Brick In The Wall, a belíssima One Of My Turns e  a sacudida Young Lust. O resto do disco me soara terrivelmente chato naquela primeira audição.

Por outro lado, aquela primeira audição desastrada de The Wall me fez criar uma antipatia natural pelo Pink Floyd. E a má fama que o grupo adquiriu entre os punks não ajudou em nada a reverter esta impressão ruim. Já em 81, com o meu gosto completamente voltado para a new wave e o punk rock, parecia mesmo não haver lugar, em meu gosto musical, para os devaneios progressivos da banda de David Gilmour e Roger Waters. Ainda assim, adquiri um single com Another Brick In The Wall e One Of My Turns. Por anos, o meu gosto pelo Pink Floyd se resumiria, basicamente, àquelas duas músicas.


Trilhas sonoras costumam servir de meros  complementos sonoros para o enredo de um filme.Algumas são fantásticas mas se prendem irreversivelmente ao conteúdo da película a que fazem parte. Outras, pela magistralidade, conseguem se sobressair e ter vida própria. 

Algumas vezes, as trilhas sonoras atingem um status até mesmo superior ao filme que sonorizam, como é o caso de Blow Up, filme de Antonioni musicado pelo jazzista norte-americano Herbie Hancock e com participações dos Yardbirds. Mas, casos de discos que ganham uma "trilha visual" para ilustrá-los são raríssimos. E "The Wall" é um destes casos.

Em 1982, o diretor britânico Alan Parker, literalmente, filmou um disco. Com o acréscimo de alguma coisa aqui e ali e deixando algumas poucas faixas de fora, a película reproduz, fielmente e na ordem, a história contada no disco, três anos antes. E foi aí que eu me apaixonei por The Wall, o disco, Roger Waters e o Pink Floyd. A busca do tempo perdido me fez fuçar as primeiras gravações da banda, ainda um combo psicodélico liderado pelo tresloucado Syd Barrett. Ainda que hoje eu tenha e ouça com prazer a maior parte da produção do Floyd, alguns discos, como Wish You Were Here e Animals ainda me soam perfeitamente inacessíveis. O estrago de ter passado ao largo do Floyd durante anos, de fato, foi enorme. Talvez um dia, quem sabe...

Uma vez encantado com o filme, não me restou outra alternativa a não ser, finalmente, adquirir o imponente álbum duplo. Não foi uma experiência fácil. Só apenas depois de muitas e muitas audições que eu fui compreendendo o que significava aquele muro que Waters criara entre ele e o resto da humanidade, especialmente os próprios fãs do Pink Floyd. E, claro, pude aplicar toda aquela percepção existencialista fantástica à minha própria vida. The Wall é até bem mais que um disco, é uma verdadeira terapia em vinil. É importante ressaltar que o tema do disco é, basicamente, "um muro e como quebrá-lo" e não "como construir um muro estabelecendo uma zona de conforto entre você e o resto da humanidade". E visto, aliás, ouvido por este ângulo, "The Wall" é, simplesmente, quimérico. E se tornou muito mais do que um item na discografia de uma das maiores bandas da história do rock mundial.

O lado A abre com a imponente "In The Flesh", que contém uma das mais interessantes introduções instrumentais já escritas e prevê o clima opressivo do resto do disco. "The Thin Ice" é uma balada sobe estar sempre no limite e, provalvemente, sua inspiração pode ter sido o ex-integrante Syd Barrett. "Another Brick In The Wall Pt. I" é a primeira parte daquilo que se tornaria, contra todas as expectativas, o maior sucesso em single da banda até hoje. "The Happiest Days Of Our Lives" serve como uma introdução urgente ao mega hit "Another Brick In The Wall Pt. II". "Mother" encerra um dos melhores  lados A que um disco de rock já pôde ter.

Do outro lado, "Goodbye Blue Sky" fala da perda dos sonhos de infância e adolescência. "Empty Spaces" chega a lembrar o antigo Floyd da fase imediatamente posterior à saída de Syd Barrett. "Young Lust" é um hard rock poderoso e uma das melhores faixas já escritas no estilo e, consequentemente, executadas pelo Pink Floyd. Até hoje, a minha preferida do disco inteiro. "One Of My Turns", uma excelente canção sobre abandono e frivolidade, dá sequencia ao disco. "Don't Leave Me Now" é atonal e opressiva e tem como continuidade a parte III - e última - de "Another Brick In The Wall". "Goodbye Cruel World", uma canção virulenta sobre suicídio, encerra o primeiro LP.

O terceiro lado do disco abre com "Hey You", que viria a se tornar uma das mais pedidas em shows. "Is There Anybody Out There" introduz "Nobody Home", que tem como "outro" a belíssima e soturna canção "Vera". A épica "Bring The Boys Back Home" introduz "Comfortably Numb", uma das mais fantásticas colaborações de Waters e Gilmour, que encerra o lado C.

O último lado do disco é bem mais fraco que os outros três, denotando um certo cansaço criativo. Ainda assim "The Show Must Go On" parece uma boa canção desperdiçada. "In The Flesh" é, basicamente, a repetição da faixa de abertura e "Run Like Hell" dá a impressão de que a banda pretendia criar algo dançante que servisse de hit alternativo, o que parece não ter dado muito certo. "Wating For The Worms" é outra grande canção perdida. "Stop" é curta demais para ser interessante e "The Trial" apenas "amarra" a história do disco, assim como a comovente faixa de encerramento, "Outside the Wall". Não é, absolutamente, um quarto lado frustrante, porém, a necessidade de encerrar a trama do disco compromete definitivamente a sua qualidade. Porém, nada que não possa ser compensado pelo brilho de uma obra cortante e profunda.

The Wall encerrou um ciclo de relevância na carreira do Pink Floyd. Caso a banda terminasse ali, sua discografia teria feito jus ao adjetivo de perfeita. Mas, então, vieram os discos pouco inspirados, as brigas, as voltas, reviravoltas e revoltas que marcaram a decadência da lenda do rock progressivo. Porém, o disco da estranha temática do muro entre o artista e a platéia permaneceu sendo um dos maiores momentos desta coisa esquisita chamada rock and roll.

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Ed.1 - Tesouros da Juventude - The Rolling Stones - "Emotional Rescue" (1980)

Um disco, muitas vezes, é muito mais do que um álbum de retratos sonoros. Pode se parecer com um poço de boas lembranças de tempos que voltam sim, através de experiências sinergéticas que só a música pode proporcionar.


THE ROLLING STONES - "Emotional Rescue" (1980) - A cena ainda permanece vívida em minha memória, mesmo que, de lá para cá, já tenham se passados quase 40 anos: Meu primo ouvindo, pela enésima vez, a sua cópia recém-comprada de Emotional Rescue, disco de 1980 dos Rolling Stones, enquanto eu e sua irmã o provocávamos, dançando descompassadamente ao som aqueles rocks, apenas para que ele fingisse, rindo muito, que iria correr atrás de nós para nos bater. Foi assim durante todo aquele verão de 1981 na Ilha de Itaparica.

Naquele tempo, nem os Rolling Stones escapavam de atrasos entre o lançamento de seus discos na matriz e aqui no Brasil e, apesar de já estar disponível na civilização desde a metade de 1980, a edição nacional de Emotional Rescue só seria lançada no final de outubro daquele ano, para aproveitar as vendas de natal. As dificuldades de importação eram enormes e era mesmo melhor aguardar um pouco para poder ouvir as novidades do mercado fonográfico internacional do que arriscar adquirir um disco cinco vezes mais caro para que ele saísse em edição nacional no mês seguinte.

O meu primo, Mário Filho, falecido precocemente em 1997, aos 37 anos, foi um de meus gurus musicais, e com certeza, o mais importante deles. Foi ele que me desviou da rota da música negra para desvendar os inúmeros mistérios do rock, ainda que isto não tenha sido tão positivo quanto possa parecer. Ter ouvido dele que "música black não prestava" atrasou em décadas o meu aprofundamento com a soul music e o funk legítimo, groovy, jungler, dos anos 70. mas, definitivamente, me viciou para sempre em rock and roll.

E eu posso dizer, com absoluta certeza, que tudo começou bem ali, ouvindo e reouvindo forçosamente a cópia de Emotional Rescue que meu primo levara para a temporada de veraneio na ilha de Itaparica e quase não se cansava de ouvir. E quando se cansava, cantarolava as faixas do disco. Enfim, foi impossível não se contagiar com as 10 faixas daquele LP.

Até ali, eu pouco conhecia ou me interessava pelos Rolling Stones. Na verdade, o que havia de rock em minha discoteca até aquele momento era muito pouco, mas ainda assim, bastante relevante. Alguma coisa dos Beatles, outras coisas pinçadas aqui e ali, compradas no escuro, como discos de Cheap Trick e Tom Petty,  Mas a predominância era de bandas como Brass Construction e Crown Heights Affair, além de cantoras soul e disco-music. Mas quando mantive contato com aquela batida seca e aquele som cru, foi, de fato, paixão à primeira audição.


Quando os Stones lançaram Emotional Rescue vinham de uma guinada pop dentro da sua sonoridade, iniciada com o "moderninho" Some Girls, lançado no ano anterior. Naquele momento, o rock experimentava uma espécie de renascimento através do punk, power-pop e new wave. Todos os grandes artistas, os chamados "medalhões", lançaram seus discos fortemente influenciados pelo velho novo som e os Stones não fugiriam à regra. No ano seguinte, saia Emotional Rescue, basicamente gravado com material que havia sobrado do LP anterior. Como sempre, as sobras dos Stones, muitas vezes, eram bem superiores ao que eles resolviam lançar oficialmente.

Gravado nas Bahamas, em um estúdio móvel, e concluído em Paris, durante todo o ano de 1979, Emotional Rescue reforça a ideia de ser um disco ensolarado. Trilha perfeita para noites com sol, praieiras, embalando madrugadas com as costas ardentes. É um dos discos mais "para cima" dos Stones e, de fato, precisa ser um fã muito chato para não reconhecer a qualidade das faixas deste disco.

O lado A começa com a batida funk-rock poderosa de "Dance Pt. I". Tais experimentações dançantes eram fruto das idas e vindas do vocalista Mick Jagger a night clubs da moda. Em sua autobiografia, o guitarrista Keith Richards comenta sobre o seu temor de algumas daquelas melodias e temas de Jagger serem plágios inconscientes de canções ouvidas por ele nas festas que frequentava. "Summer Romance" é uma canção fresca sem ser afrescalhada, totalmente alinhada com a batida new wave das bandas mais modernas daquele tempo. "Send It To Me" é uma "regatta" (reggae feito por brancos) convincente. "Let Me Go" é o velho rock analfabeto stoniano. Irresistível e com uma interpretação irrepreensível de Mick Jagger. O primeiro lado se encerra com a balada pseudo-engajada "Indian Girl"

Do outro lado, "Where The Boys Go", a melhor faixa do disco, é um surpreendente punk-rock, invocadíssimo, que não deixa nada a dever às crias bastardas do New York Dolls. "Down In The Hole" é um blues tipicamente Stones, sem maiores surpresas. "Emotional Rescue", a canção,  é um proto-reggae/disco dançante cantado em falsete. Simplesmente, é a coisa mais genial já gravada pelo então quinteto. "She's So Cold", a mais "new wave" das canções do álbum, tem melodia grudenta e um loop harmônico que, praticamente, determinou a minha maneira de compor música.  A balada abolerada "All About You", crua e máscula, cantada por Keith Richards, encerra o álbum de maneira esplendorosa. Se é que tal adjetivo caberia de alguma forma em uma canção interpretada pelo guitarrista.

Após Emotional Rescue, os Stones entrariam em turnê e, em seguida, em um recesso criativo que duraria até o irregular Undercover, álbum seguinte, de 1983. No intervalo, lançaram um disco ao vivo, "Still Life" e outro de sobras, "Tattoo You", este vendido marotamente como se fosse um disco inédito, até que a tramoia de aproveitar gravações antigas fosse descoberta, graças a um processo do ex-guitarrista Mick Taylor. De "Undercover" em diante, os Stones deixaram definitivamente de ser relevantes. Lançariam ainda alguns discos, mas sem jamais rever a energia e o espírito juvenil de Emotional Rescue, porcamente decalcado em Undercover, como uma espécie de canto do cisne sem cisne.