sábado, 18 de junho de 2016

Ed. 12 - Três décadas de Axé Music. Sai do chão!

O rock se acha muito importante. Aliás, eu também acho o rock muito importante. Tanto que começo um texto sobre os  30 anos da axé-music, fenômeno pop-musical dos anos 80 na Bahia, falando de seu principal opositor, o rock. Aliás o rock se opõe a tudo que julga inferior a ele mesmo e bajula tudo que lhe é sabidamente superior. Assim, lá fora, o rock paquerou  o jazz, a música erudita  e até mesmo o country e tratou o hip-hop e o rap como  sonoridades quase  irrelevantes.  Aqui no Brasil o rock cortejou a MPB e controverteu toda a música que conseguiu mais espaço que ele na mídia.

Na Bahia, o rock sempre se manteve como um feudo de gente fina, elegante e insincera, que sempre tratou a produção musical do estado que não fosse rock com desdém e desprezo. E foi assim, em um ambiente de “guerra cultural”, que surgiu a axé-music, em 1985. O que existia antes, e justamente era o motivo de repulsa pelas hordas roqueiras baianas,  costumava ser chamado desdenhosamente de “música alto-astral” ou “telúrica”. Capitaneada por artistas como Moraes Moreira, o casal Baby e Pepeu e o grupo A Cor do Som, a onda "telúrica" tinha os dois pés no Carnaval e isto era imperdoável no rock baiano. Alegria era um sentimento irredimível, só a raiva valia.

E eis que, naquele longínquo ano de 1985, surge uma figura andrógina, de pés descalços e gestos um tanto afeminados, cantando uma música sobre uma “nega do cabelo duro que não gosta de pentear”. A canção era um artefato pop perfeito, com uma melodia grudenta, um refrão empolgante e o gosto de novidade. Não deu outra: Luis Caldas deu o pontapé em uma manifestação pop e, ainda por cima, popular - são coisas diversas -, legítima, oriunda da porção mais pobre da sociedade. 


Saído dos grotões dos subúrbios ferroviários e dos bairros negros de Salvador, logo o novo estilo foi batizado com o nome de Axé-Music. O nome de batismo foi dado desdenhosamente pelo jornalista Hagamenon Brito, incentivador da cena roqueira baiana e a intenção era a pior possível:  ridicularizar aquela música “mal-feita”, “sem qualidade” e “comercial”,e, porque não dizer, "de pobre". Deu errado. A mídia comprou o termo sem pagar royalties a Hagamenon e a axé-music cresceu, enquanto o rock diminuía no país inteiro.

Hoje em dia, observando do alto de três décadas, podemos rever e reouvir as canções que marcaram o período áureo do axé  com a isenção que só o tempo pode oferecer. Até mesmo o mais ranheta dos roqueiros irá concordar que havia, sim,  muita coisa de boa qualidade na produção daquela época. Bamdamel, Banda Reflexu’s, Chiclete com BananaOlodum, estiveram na linha de frente com uma coleção de hits memoráveis que até hoje ecoam em nossos ouvidos. Claro que havia o lixo, pois material de baixa qualidade há em qualquer estilo. Mas a axé-music  com sua mistura intuitiva de música pop e ritmos locais, escreveu o seu lugar na história.

Ainda mais notável é a qualidade daquelas canções, principalmente se comparadas à produção da música baiana atual. Hoje, extirpou-se a harmonia, amputou-se a melodia, encurtou-se as letras a ponto de se tornarem mantras quase sem nenhum sentido. O que se faz hoje na Bahia não pode sequer ser  chamado de axé-music porque não se parece em nada com aquelas musiquinhas  de refrões pegajosos que adorávamos odiar. É uma espécie de “pós-axé”, também conhecido como  “pagodão”, com bandas de mais de uma dezena de integrantes e uma pobreza musical inversamente proporcional à quantidade de músicos envolvidos.



Talvez, daqui a mais três décadas, estarei aqui saudando os 30 anos de pagodão e reclamando da produção baiana do futuro. Espero sinceramente que não, porque será sinal de que a música de lá caiu vertiginosamente de qualidade. Talvez, até eu e o tempo estejamos sendo mesmo condescendentes com a axé-music.  O fato é que hoje, pelo menos uma dúzia de canções “clássicas” do estilo frequenta minha mp3teca e as ouço com prazer, algo impensável trinta anos atrás. Que se comemore intensamente as bodas do axé. Que se toque a velha e boa axé-music pelas esquinas o ano inteiro. Vivo na Bahia e meu ouvido agradece.

sábado, 11 de junho de 2016

Ed. 11 - As desventuras do Beatle Tim no reino da Jovem Guarda.

Antes de serem descobertos  pelo empresário Brian Epstein e contratados pela tradicional gravadora Parlophone, os Beatles não passavam de uma sofrível banda de guitarras.  Uma audição atenta e imparcial dos hoje famosos “Decca Tapes", bootleg encontrado em qualquer programa de troca de arquivos de áudio, e somos obrigados a concordar com John Lennon: a única coisa que se salva daquela gravação é a entusiasmada interpretação de George Harrison para o standard “Sheik Of Araby”. Certo que eram curiosas e criativas “versões rock and roll” de coisas escritas 20, 30 anos antes, mas aí é que estava o problema: o esquema “recriação de canção antiga no novo ritmo jovem” já havia mesmo se esgotado no Reino Unido. Nem a insólita “Besame Mucho”, cantada por Paul, salvou a pátria: Os Beatles foram recusados pela Decca Records com a justificativa mais correta do mundo em 1962, a de que bandas como a deles estavam mesmo saindo de moda.

Os Beatles que seriam contratados pela Parlophone algum tempo depois, estes já tinham muito mais estrada, já tinham sido abduzidos pelos novos sons que vinham da América via Motown, e, principalmente, já não eram mais uma banda de rock and roll: Graças a Epstein, tinham se adaptado, e muito bem,  à nova cena britânica, de bandas e artistas como Gerry & The Pacemakers e Billy Jay Kramer. mais pop e menos barulhentos. O sucesso foi instantâneo e aí é que realmente começa a história e a histeria da beatlemania. Com certeza, se tivesse posto as mãos nos Beatles de 63, aquele executivo da Decca que os rejeitou, desta vez os contrataria. Da mesma forma que certamente rejeitaria os Stones desta mesma época e os contratou no ano seguinte: Em 64, bandas de blues, ou bandas que macaqueavam o blues americano, eram o último grito do mundo da música inglesa.

No  Brasil, mais ou menos na mesma época, encontramos um jovem interiorano sendo recusado de absolutamente todas as gravadoras cariocas, ora por ser um mero clone de João Gilberto, ora por sua voz um tanto anasalada (que muitos afirmavam ser “fanha”). O fato é que Roberto Carlos penou, e penou muito, até se tornar o grande ídolo da juventude, o rei do iê-iê-iê, alguns anos depois. Enquanto Roberto estourava nas paradas de sucesso de todo o Brasil, um garoto tijucano, recém expulso dos EUA por roubo de carros, um tal Tião da Marmita, certa vez o procurou pedindo uma chance no meio musical. Haviam tocado no mesmo grupo vocal, no final dos anos 50. Roberto, em meio ao turbilhão da fama recém-conquistada, parou, conversou com Tião, deu-lhe uma bota nova e ainda lhe deu algum dinheiro, jogado ao chão por um secretário particular que certamente estava cansado de tantos “Tiões” atrás de Roberto para tirar uma casquinha de seu sucesso. Bem, isto é o que a história registrou. O que as revistas da época disseram é que, Roberto, feliz por reencontrar o amigo Tião, recriou o grupo Sputniks com Erasmo e o futuro Tim em um dos episódios do programa Jovem Guarda. Há, inclusive, uma foto que prova isto.

Algo me diz que, se Roberto tivesse se empenhado e conseguido “uma chance” para o amigo Tião da Marmita, talvez nosso futuro Tim lançasse um ou dois compactos obscuros travestido de Sam Cooke tropical e sumisse para sempre no mesmo limbo onde estão José Ronaldo, Carlos Gonzaga, Baby Santiago e, Geraldo Nunes.  Talvez, se Roberto não fosse tão naturalmente humano naquele encontro, se importando um pouco mais do que a história conta, o mundo jamais veria o gênio Tim Maia. Jamais veria porque, naquele momento, Tim Maia ainda não existia. Ou, pelo menos, ainda não tinha se libertado completamente de seu criador, vulgo Sebastião Rodrigues Maia.

O fato é que, quando Roberto se dispôs a dar a tão polêmica chance ao Tião da Marmita, recusou a baladinha fácil, embora pungente,  que Sebastião fez sob medida para ele e quis gravar algo bem “funky”, bem  mais a cara do amigo Tião. Neste momento, nem Roberto nem Sebastião sabiam,  mas fez-se a luz e o mundo começou a conhecer Tim Maia.

Sem dúvida eu  até poderia  tentar crucificar Roberto. Assim como poderia crucificar um Tim Maia  já famoso , que se negou  a ajudar seu sobrinho Eduardo Mota, que, aliás, já nasceu Ed Motta, o que causou uma  rusga entre tio e sobrinho que jamais foi cicatrizada. Mas é melhor não crucificar ninguém. O  fato incontestável é que “Não Vou Ficar”, de autoria de Tim, não só foi um sucesso estrondoso na voz de  Roberto, como definiu toda a orientação musical da carreira do Rei até 1977, quando Roberto deu a guinada romântica que o transformaria em uma caricatura de si mesmo. Quanto a Tim, a gravação de Roberto jogou os refletores sobre ele e , daí em frente, para o bem e para o mal, o ex-Sebastião foi senhor  absoluto da carreira artística de Tim Maia.

É  bom lembrar que, até a  gravação do  antológico CD  “Tim Maia Ao Vivo”, com a ajuda de Sérgio Mota, pela Warner, e o disco seguinte, “Tim Maia Romântico”, ora vejam, pela Som Livre, gravadora pertencente ás organizações Globo, Tim Maia era apenas um arremedo do que tinha sido nos anos 70. Falido, esquecido e ridicularizado – você pode usar “satirizado”, se quiser -  até mesmo pela trupe Casseta & Planeta. Tim disparou sua metralhadora cheia de mágoas contra tudo e contra todos.  A gravação de dois CDs de sucesso em um momento crucial de sua carreira o resgatou de um injusto esquecimento futuro. A morte, a mitológica instabilidade emocional e, sem dúvida, a sua genialidade ímpar,  o transformaram em  lenda morta da MPB.  Sobrou para Roberto Carlos,que, de uma hora para outra, se viu na incômoda posição de vilão global por conta de um diretor de cinema enraivecido com a alegada mutilação de sua obra.


Eu, ao mesmo tempo, odeio e amo Lulu Santos. Antes que alguém questione uma suposta bipolaridade minha, eu explico: Gosto da música feita pelo músico, mas tenho uma profunda antipatia pela pessoa  de Luís Maurício dos Santos, o homem por trás do artista. Muitos músicos são péssimos seres humanos e talentosos artistas. Assim como alguns artistas acabam favorecidos por terem simpatia demais e talento de menos. Assim é a vida como ela é, diria Nélson Rodrigues.  Da mesma forma, amo muito e odeio um pouquinho o cidadão Sebastião Rodrigues Maia, conhecido no meio artístico pelo epíteto de Tim Maia.

Tim esteve no olho do furacão nos últimos dias, nos jornais e na internet, por conta da polêmica exibição de uma minissérie baseada no filme sobre a sua vida, recentemente exibida  pela TV Globo.  Aqui mesmo neste blog, já escrevi sobre o assunto. Volto a escrever por conta da lembrança feita por alguns blogueiros e jornalistas, do episódio envolvendo os cantores Ritchie e Roberto Carlos, um boato (sim, um boato) extremamente maldoso, criado justamente pelo rei da soul-music brasileira. Segundo TimRoberto Carlos, enciumado do enorme sucesso de Ritchie em sua gravadora, a CBS, teria boicotado o artista, impedindo que sua carreira se desenvolvesse. Podemos simplesmente acreditar no boato ou tentar entender os fatos e, chegarmos nós mesmos à conclusão se tal afirmação é factível ou não.

Não estou querendo aqui , de forma alguma, santificar Roberto Carlos, mas a falta de caráter de Tim Maia é tão notória quanto a sua capacidade de mentir e, se você se espantou com os fatos relatados no filme sobre a sua vida, saiba que Nélson Motta foi profundamente generoso com o “gordinho mais querido do Brasil”. E, mais ainda, o roteirista do filme baseado no livro. O que não quer dizer que Maia não tivesse qualidades.  Tinha, sim, e muito mais do que a mídia poderia supor e gostaria de publicar. Tim, sozinho, mantinha um orfanato inteiro. Só ficamos sabendo disto após a sua morte, porque a viúva do artista veio a público pedir que as pessoas ajudassem a instituição que já não podia manter sozinha.

Acontece que Tim Maia era um ser humano como qualquer um de nós, com erros, acertos, contradições, pisadas na bola e gestos magnânimos. Falta só o respeitável público  da internet reconhecer que Roberto Carlos também é um ser humano como qualquer outro. Dito isto, vamos continuar analisando a questão:  Em 1983, quando Ritchie, um inglês radicado no país desde os anos 70, estourou em todo o país com o compacto da música "Menina Veneno", Roberto era sim o maior vendedor de discos da sua gravadora. O Brasil vivia um momento musical em que o chamado “público jovem” fazia a transição da MPB para o rock “New Wave”. A Blitz havia aberto o caminho para que o “novo rock” se firmasse na preferência da juventude e Ritchie parecia o artista certo para realizar a ponte entre o gosto popular e o exigente gosto dos roqueiros. O compacto contendo "Menina Veneno", cujo lado B trazia a roqueiríssima  “Baby, Meu Bem”,  até hoje a melhor gravação do cantor, sedimentava  a percepção de que Ritchie era a grande promessa do rock nacional para a década de 80. Espécie de meio-termo entre o sex-appeal de Elvis e a classe de Bryan Ferry,  ainda por cima era gringo, conterrâneo dos Beatles.  Agora sim, o Rock-Brasil iria fazer bonito no mundo.

Não fez.  Quando saiu o LP, intitulado “Vôo de Coração”,  o artista demonstrou, até pelo trocadilho infame do título, que seu apelo era muito mais popular do que roqueiro.  Não que as canções não tivessem qualidade, muito pelo contrário. Havia até uma versão de  “The Letter”, sucesso de Alex Chilton com os “Box Tops”.  As ótimas canções empurraram o disco facilmente para o milhão de cópias, conseguindo vender, naquele ano, ainda mais do que o tradicional disco anual do Rei Roberto.  

Alcançado o vertiginoso sucesso,  a CBS iniciou o processo daquilo que viria a ser o segundo disco do cantor. Aí começaram os erros. Ritchie, que havia se sedimentado como uma espécie de  Odair José pós-moderno, preferido de nove entre dez empregadas domésticas, passou a recusar participação em shows populares e  resolveu  voltar a focar no público mais sofisticado, mais roqueiro, aproveitando o boom que o rock nacional vivia em 1984.

O primeiro single extraído do segundo disco não ajudou.  “A Mulher Invisível” era uma canção fraquíssima, com um loop de baixo repetitivo e monótono, sem um refrão forte e com Ritchie caprichando na péssima dicção, que, se não comprometeu o sucesso de “Menina Veneno” –  até hoje não se sabe se o abajur  era cor de carne ou de carmim – foi fatal em “Mulher Invisível”. Noves fora o fato óbvio da similaridade dos títulos e intenções, de se repetir o sucesso de “Menina Veneno”, porém  com uma canção bem mais fraca.  Salva-se neste segundo LP  o protoarrocha  “Só Pra o Vento” (Ritchie, definitivamente, gostava destes trocadilhos),  justamente a única faixa na linha popular e com a mesma qualidade das canções do disco anterior. O terceiro LP foi a pá de cal na história do cantor com a CBS, pois era ainda mais fraco. Sem um sucesso sequer, consequentemente, vendeu  bem menos que os dois anteriores. Quando a CBS o liberou e o inglês assinou com a Polygram, a nova gravadora repetiu  a mesma estratégia de lançar uma música impactante em compacto, a melosa “Transas”, que mais parecia um jingle de comercial de motel, e em seguida o LP. O compacto estourou mas, novamente o disco grande não aconteceu e, desta vez, não havia Roberto a se culpar. Ritchie saia, enfim, da vida musical para entrar para a história.

Um belo dia, Ritchie encontrou Tim Maia pelos palcos da vida e este resolveu repassar ao inglês  mais uma de suas “informações quentes”.  Tim,  que nunca se deu muito bem com ninguém, muito menos com seus amigos de ralação na Tijuca que alcançaram o sucesso antes dele, alegou que fora Roberto Carlos, enciumado, que puxara o tapete do músico na sua gravadora.  Pronto, agora Ritchie tinha a desculpa perfeita e que faltava para justificar seu fraco desempenho e o declínio sem volta em sua carreira. A história ganhou força e  ares de verdade absoluta.


Claro que Roberto Carlos pode, realmente, ter ficado enciumado com o sucesso estrondoso de Ritchie e é possível que ele tenha demonstrado esta insatisfação em forma de má-vontade com o colega de gravadora. Mas, se a carreira do inglês decaiu, não foi por causa do rei e sim, dele mesmo.  Curiosamente, Roberto não sabotou a carreira de mais ninguém, apesar de muitos outros artistas alcançarem a marca de um milhão de cópias vendidas antes que a pirataria enterrasse de vez o seu reinado. E Tim, bem, Tim continuou a contar suas histórias e estórias, cantar como nenhum  outro as dores de ser enganado e o sofrimento de amar demais até que faltasse a seu último show para ir cantar nos braços do Senhor. Dizem que tem anjo e santo com as barbas de molho até hoje.

sábado, 4 de junho de 2016

Ed. 10 - Protejam os sacos, aqui vão os Sex Pistols!

Não tem jeito. A história do rock não se divide em antes e depois do Led Zeppelin, por mais importante que o grupo de Plant e Page tenha sido. Muito menos em antes e depois de The Cure, The Clash, The isso ou The aquilo. O rock nunca mais foi o mesmo depois de 1977. E não adianta argumentar, com toda a razão, que os Sex Pistols eram uma pálida imitação dos Heartbreakers de Johnny Thunders ou dos New York Dolls do mesmo Thunders e de David Johansen. É isso aí mesmo. Os Pistols não devem ser julgados pela competência musical e sim pela revolução que os cinco delinquentes londrinos fizeram no cenário do rock inglês ou de qualquer outra parte do mundo. 

Mas vamos baixar um pouco a bola dos ingleses. O punk, ao contrário do que muita gente pensa, não começou com eles. A palavra "punk", designando um estilo musical, surgiu quando "Handsome Dick Manitoba", guitarrista da banda nova-iorquina The Dictators, declarou que aquele som tosco que seu grupo fazia era nada menos que..."punk rock", algo como "rock de maricas". Ainda era 1975, quando os Dictators soltaram Girls Go Crazy e, mesmo assim, não poderiam ser considerados inventores do estilo. 

Cinco anos antes, quatro maluquetes de Detroit, fissurados por The Troggs, uma banda do meio dos anos 60, geralmente citada como "avós do punk", soltaram um disco barulhento, pouco melodioso e muitíssimo mal gravado. A banda, "The Stooges", (os patetas), entraria para a história como o berço do "pai do punk", Mr. Iggy Pop. Entre 75 e 76, o inglês Malcom McLaren estava morando em Nova Iorque, à procura da "next big thing", a banda que iria pôr o mundo de cabeça pra baixo e ainda faturar alguns bons trocados, deixando rico quem tivesse a sorte de ser seu agente.

Malcom enxergou a oportunidade de ouro quando o grupo New York Dolls tentou se reformular após dois discos que não haviam acontecido. McLaren pegou os cinco rapazes que gostavam de se vestir de mulher e enfiou-lhes modelitos vermelhos, com direito a apologia ao comunismo e tudo o mais. Os Dolls, que já vinham mais pra lá do que pra cá, afundaram de vez com a pequena ajuda do amigo inglês. Malcom retorna para Londres, frustrado mas não derrotado. Quem sabe lá ele encontraria a banda que lhe daria seu tão sonhado milhão de libras? 

Lá o empresário, que era  casado com a estilista Vivien Westwood,  abriu a loja "Sex", onde vendia basicamente roupas de couro preto. Seu funcionário, Glen Matlock, frequentemente recebia a visita de dois amigos, Paul Cook e Steve Jones, que além de atrapalhar o trabalho do balconista, ocasionalmente levavam algumas peças pra casa sem pagar. Malcom enxergou neles a banda que procurava. Só havia um pequeno problema: nenhum dos três sabia tocar absolutamente nada. Este irrelevante impedimento seria solucionado com a entrada em cena de Chris Spedding, talentosíssimo guitarrista inglês, que aceitou a incumbência de fazer com que os três projetos de punks aprendessem algum instrumento. 

Paul Cook logo tomou conta da bateria enquanto Steve Jones e Glen Matlock, que, verdade seja dita, já tinham alguma noção de violão e guitarra, se digladiavam pelo posto de contra-baixista. Jones acabaria assumindo a guitarra. Duas semanas depois, os"Sex Pistols" já estavam ensaiando no estúdio de Spedding. Faltava apenas um vocalista. O posto foi preenchido por um garoto corcunda de voz esganiçada e dentes podres. Malcom Laren o batizaria de Johnny Rotten. Os Pistols foram vendidos pelo que valiam e comprados pelo que se pensava que valiam. 

A princípio, a banda não deveria passar de um grupo de rock "moderno", com letras políticas e atitudes ultrajantes, pero no mucho. Quando um apresentador da TV Inglesa os incitaram a dizer palavrões no ar, a parte conservadora da Ilha declarou guerra à banda e o que se viu, se por um lado ajudou a construir a lenda dos Sex Pistols, por outro fechou todas as portas para o grupo. Tudo na vida da banda passa a ser extremamente difícil: Shows são cancelados, contratos com gravadoras desfeitos, seus integrantes são atacados na rua e presos por perturbação da paz, mesmo que não estejam fazendo nada de errado. 

Matlock pede o boné e McLaren inventa que o baixista teria sido despedido por ter afirmado gostar dos Beatles. Em seu lugar, coloca o baterista do grupo Siouxie And The Banshees, um tal de Sid Vicious. Ter trocado alguém com tanta musicalidade como Matlock, que havia se revelado um baixista mais do que regular, por um nerd que mal conseguia empunhar o baixo, não foi, definitivamente, a melhor ideia da vida do empresário. Fora Rotten, que era amigo pessoal de
Sid, ninguém na banda concordava com a permanência do novo integrante. 

Assim, as gravações do que viria a ser o único Lp dos Sex Pistols tiveram que ser realizadas sem a presença de Sid Vicious que ainda não dominava o instrumento (e jamais o dominaria, giga-se de passagem). Neste período, Vicious, que tinha este apelido ("péssima influência", e não "viciado", como muitos pensam) justamente por ser um babaca do qual todos gozavam, conhece Nancy Spugen

Nancy, figura carimbada do underground nova-iorquino, apresenta as drogas pesadas a Sid Vicious. Sid desiste de aprender a tocar baixo e passa os shows se cortando e esmurrando o instrumento. Um ensandecido McLaren resolve enviar sua trupe para uma turnê pelos EUA, por pequenos clubes de pequenas cidades, esperando que, com isso, a banda chame a atenção da imprensa americana. A desorganização, as brigas com a platéia e a crescente tensão entre os integrantes fizeram com que Johnny Rotten abandonasse tudo e voltasse para Londres. Jones e Cook viajam para o Rio de Janeiro para encontrar Ronald Biggs enquanto Sid e Nancy vão para Nova Iorque, onde Vicious tenta, sem sucesso, iniciar uma carreira-solo. 

OSex Pistols acabam. A morte de Sid Vicious, em março de 1979, transforma os Pistols , definitivamente, em lenda. McLaren licencia diversos produtos com a marca da banda e finalmente ganha seu milhão de libras. Em 1996, a banda passa a ser dona da própria marca e se reúnem com a formação original. Saem em turnê, passando inclusive pelo Brasil e lançam um disco ao vivo. É a vez deles, afinal, ganharem seu milhão de libras.

sábado, 28 de maio de 2016

Ed. 9 - Compositores são falsos, suas músicas jamais.

Há quem componha e nunca consiga pensar e, naturalmente, compor, em primeira pessoa, sem ter necessariamente vivido determinada experiência. Há quem se especialize em traduzir para versos a vida e o cotidiano alheio. Admito que é um exercício interessante somatizar as angústias, as alegrias, as frustrações de alguém, e transformá-las em uma canção. Tal canção não seria, de forma alguma falsa, pois ela expressa sentimentos possíveis, mas, sem dúvida, seu autor é um charlatão. Ou, no máximo, um ator. Ou até mesmo um escritor, que consegue colocar pensamentos díspares do seu na boca de seus personagens.

Há até quem componha e seja, ele mesmo, um personagem. Há compositores que criaram para si um alter-ego tantas vezes o perfeito contrário de si mesmos, e se sentem presos e subjugados a esta entidade que eles mesmos criaram. Bob Marley, para ficar em um dos compositores que burilaram alter-egos "normais", teve que pedir licença e desculpas para escrever uma canção de amor (que vem a ser "Is this love?", regravada e versionada quase literalmente no Brasil pelo casal Baby-Pepeu) em seu emaranhado de canções de conteúdo político e social. Outro Bob, o Dylan, já escrevia canções de amor com mais frequência, no seu oceano de temas de protesto, onde nem sempre se sabia contra o que se protestava, mas sempre se sabia o quanto eram inspiradas e verdadeiras suas canções, românticas ou não.

Há quem cave mais fundo a sepultura das canções impessoais e se torne escravo de seu próprio personagem. Há compositores geniais submissos a seus alter-egos nem tão geniais assim. Há Jupiter Maçã e Rogério Skylab, que, aliás, recentemente protagonizaram um espetáculo extra-curricular em um canal de TV, que prova o que eu digo sobre tal escravidão. Flávio e Rogério são obrigados pelas entidades que criaram para si, a compor em um determinado formato pelo resto de suas vidas. Se tentarem trocar de camisa, correm o risco de serem rejeitados pelo seu público.

Dylan, Apple, Marley e Skylab podem até não ser tão honestos assim no papel de compositores. Provavelmente, muitas vezes se sentiram obrigados a tratar de um determinado assunto em uma canção, sobre o qual, livres de quaisquer amarras, jamais falariam. Mas suas canções sim, não importa do que tratem, são absolutamente sinceras. E este é o encanto da música. Ela ganha vida própria depois de parida. E então, se você não bebe e faz uma música cuja letra diz que você está bebendo demais, todos que a ouvirem irão acreditar piamente que você é um alcoólico consciente. Porque este é o poder de quem compõe: transformar mentiras em verdades e verdades em verdades maiores ainda.

sábado, 21 de maio de 2016

Ed.8 - Educação Artística - Bons discos para aumentar a sua cultura musical

FIRST LAST AND ALWAYS - Sisters Of Mercy (1986) - Já dizia Tia Alice Cooper, ainda no alvorecer dos anos 80, na canção Clones, mais tarde regravada pelo Smashing Pumpkins e pelo Epoxies, que somos todos clones. E, nos anos 80, havia uma multidão de clones (im)perfeitos de David Bowie e Bryan Ferry. O curioso é que os tais clones faziam questão de se parecer com um e com outro, sendo que os dois, apesar de contemporâneos, nunca tiveram grandes similaridades nos respectivos trabalhos. Não vou citar aqui os francamente ruins ou medíocres, pois certamente atingiria a sensibilidade de algumas pessoas como se um punhal lhes atravessasse o coração. Prefiro falar do melhor deles, o que trouxe realmente algo a mais ao universo Bowieferryniano. É claro que estamos falando do esquisitíssimo Andrew Eldritch e da sua banda, a ainda mais esquisita Sisters Of Mercy. Mais particularmente do excelente primeiro disco, que inclusive, deveria ser mesmo o único, já que, não por acaso, se chamava First, Last And Always.

Autor da piada da década, quando rotulou o estilo de sua banda de "heavy-metal" em uma memorável entrevista para um semanário inglês (e o repórter acreditou!), Eldritch ultrapassou os limites da mera cópia, ou mesmo da influência exacerbada e criou um produto original, que dividiu opiniões quando do seu lançamento. Alguns adoraram, outros odiaram, mas ninguém ficou absolutamente em cima do muro. Confesso que demorei muito a entender o estranho universo do cantor de voz baixa..

Cantando em um tom extremamente grave, muito mais grave, inclusive, do que seu tom de voz ao conversar, Andrew Eldritch tenta emular claramente o Bowie do final dos anos 70 e início dos 80, quando o próprio camaleão imitava o cantor inglês Scott Walker. O visual do artista, por sua vez, entrega a vontade de ser Bryan Ferry. Qualquer dúvida, é só dar uma boa olhada na capa de These Foolish Things, do cantor do Roxy Music. Mas , isto é secundário. A sonoridade, e é o que importa, lembra um pouco o Roxy Music dos anos 70, pós saida de Brian Eno, acrescido de uma curiosa bateria eletrônica batizada como "Dr. Avalanche" e beats dançantes que embalaram muitos dos "darks"oitentistas, aqueles seres que dançavam contra a parede e que a lata de lixo da história tratou de jogar fora.

Mas voltando ao Sisters Of Mercy, o disco contém clássicos como "Marian" e "Black Planet", essenciais em qualquer festa revivalista dos anos 80 e a presença de Wayne Hussey, que logo em seguida, sairia, depois de brigar com a banda inteira, menos o baterista, para formar o também muito bom The Mission.Mas, isto ainda é uma outra história.



14º Andar -  Diversão do Novo Mundo (1985) - A banda baiana 14º Andar surgiu no rastro do sucesso de outra famosa banda local, o Camisa de Vênus. Ainda com o nome de Delirium Tremens e uma orientação mais para o punk rock, o trio era uma espécie de The Jam do rock local. Indicados por Marcelo Nova para a gravadora RGE, tiveram a má sorte de terem como produtor ninguém menos que Mister Sam, ou Santiago Malnatti, um dj argentino responsável pelo sucesso de Gretchen, Nahim e outros artistas "pouco recomendáveis". Inexperientes, se entregaram de corpo e alma à sanha do portenho maluco e o resultado foi um álbum equivocado, cheio de excelentes composições mas muito limpo, com guitarras burocraticamente distorcidas e arranjos nem sempre felizes. Até Silvinha , mulher do eterno "o bom" Eduardo Araújo, e à época contratada da gravadora, foi chamada para fazer um estranho e delicioso backing vocal na faixa "A Dança dos Políticos", que se pretendia (e conseguia ser) "funky". Aliás, Malnatti parecia estar totalmente perdido em uma praia que não era a sua, o rock. Em uma faixa, ele tenta fazer o grupo soar como Paralamas, em outra como Legião Urbana, e por aí ia.

O fracasso do disco não foi, absolutamente, culpa dos meninos. À época com menos de 20 anos, deram tudo que podiam para que "Diversão do Novo Mundo" fosse o grande disco que poderia ter sido. Jerry Marlon, hoje considerado um dos melhores baixistas da Bahia, já dava mostras do excelente músico que já era e viria a ser e junto com Jonas Mello, bateria, faziam uma excelente cozinha para a guitarra e voz incomum de Hélio Rocha, compositor e cantor de mão cheia. O problema do disco realmente foi a produção, que conseguiu anular tudo de bom que poderia haver no álbum. Infelizmente o primeiro power-trio da Bahia não teve oportunidade de provar seu valor em um segundo trabalho, melhor produzido e digno do talento do grupo e acabou logo depois. Ainda hoje todos estão envolvidos com música e bem poderiam retornar às atividades.





STRAWBERRY SWITCHBLADE - Strawberry Switchblade (1988) - Onde encontrar o pop perfeito? E, principalmente, para que? Para fazer o que com ele, depois de encontrá-lo? Antes de mais nada, crianças, o pop perfeito não existe. Se é pop, é imperfeito por natureza. Mas, se alguém quiser conhecer um disco que se aproxima, e muito, da perfeição, que ouça o primeiro disco da dupla inglesa Strawberry Switchblade. Seu maior sucesso lá fora é a canção Since Yesterday, mas a que tocou nas nossas rádios em meados de 87 foi mesmo a "bacharachniana" Who Know What Love Is?. Os climas etéreos que remontam ao Cocteau Twins de forma mais pop, quase fazem a gente esquecer da verdadeira overdose de teclados disco adentro. 


O curioso é que a dupla de garotas, as escocesas Jill Brayson e Rose McDowall tocam, respectivamente guitarra-base e solo. Mas tudo bem, estamos na sublime Inglaterra, que costuma criar pequenas (ou grandes) e maravilhosas armações pop. Se é para armar, vamos armar em grande estilo. Nada de Latino, Rouge ou Broz. A terra da Rainha vai de Spice Girls, Bananarama, Robbie Williams e... Strawberry Switchblade. Podem não ser a oitava maravilha, mas...você iria de Backstreet Boys e Britney Spears? De Jill Brayson nunca mais ouvimos falar mas Rose McDowall continuou, em projetos mais "sérios", embora menos "deliciosos", como uns tais de "Current 93" e "Death In June". Mas, se "Strawberry Switchblade", o disco, não é nenhuma criação genial, ainda assim é muitíssimo bom e agradável, afinal, o pop só é perfeito se, justamente, for descartável. Ih, rimou...




The Electric Six - Fire (2004) - Imagine uma banda cujo vocalista chama-se "pinto do dia dos namorados", ou o guitarrista chama-se "indígena do rock and roll"?  E imagine que esta banda faz uma mistura de hard-rock com disco music e soul e ainda soa em muitos momentos como o Kiss? Agora, pra terminar, imagine que o primeiro álbum desta banda é forte candidata a melhor da década passada? Bem, esta banda existe e tem um dos melhores nomes de bandas já inventados. Renato Russo, que Deus o tenha, já dizia que toda banda que tem "electric" no nome, é boa. Exceto a sua própria, ele até tinha razão. Desde as famosas "ameixas elétricas" (The Electric Prunes) que tudo no rock que leva o nome de Electric é bom, vide o famoso "Electric" do Cult ou o mais famoso ainda "Electric Ladyland" do deus Jimmy Hendrix.

Vindos de Detroit, a ex-capital automobilística da terra de Tio Sam, surgiu a bandaThe Electric Six com seu sensacional álbum de estréia, muito apropriadamente batizado de "Fire". Acontece que os "seis elétricos" não são absolutamente uma novidade no cenário local, já tendo gravado dois discos sem sucesso. Foram sete anos de muito barulho e pouco resultado até que o grupo se reformulou, trocou de nome e mudou a sonoridade. E tome-lhe disco music e hard rock em algumas faixas. Em outras, pra variar, tem hard rock e disco music. A fórmula é 50% de um e 50% de outro. Simples. E que me perdoem os chatos, é ótimo pra dançar. A década de zero estava se revelando uma das melhores décadas para quem gosta de boa música. E continuariam assim.

sábado, 14 de maio de 2016

Ed. 7 - Educação Artística - Bons discos para sua aumentar a sua cultura musical.

DOUBLE EXPOSURE - Television (1978) - Se alguém te perguntar qual foi o primeiro disco do grupo nova-iorquino Television, você vai dizer sem titubear que foi o fracasso de vendas/sucesso de crítica Marquee Moon lançado em 77, certo? Bem, você está absolutamente certo. Marquee Moon foi mesmo o primeiro lançamento da banda, que foi do nada para lugar nenhum em sua curta existência, mas conseguiu influenciar uma série de bandas que vieram bem depois.

Só que antes havia uma fita cassete que costumava circular por Nova-Iorque de forma doméstica, contendo algumas demos e gravações ao vivo feitas naquele clube, você sabe qual, onde onze de cada dez bandas daquela época se apresentavam. Diz a lenda que um traficante amigo da rapaziada era tão fã do grupo que chegou a prensar algumas cópias do trabalho em vinil. De concreto, só o fato que, em 1978, após o lançamento do primeiro disco oficial, um pequeno selo local conseguiu direitos legais sobre o material e acabou lançando "oficialmente" a demo, o lp pirata, ou como você queira chamá-lo. O título da bolacha fazia justamente menção ao fato de que os garotos do Television estavam em "dupla exposição", com o disco pela Elektra e por esta demo.

A Elektra, que já estava cansada de problemas com os "big stars" que a turma de Detroit havia contratado, uns tais de MC5 e Stooges, que traziam muito mais confusão do que retorno financeiro, não gostou nada nada da ideia e tentou retirar, sem sucesso, o lp de circulação. Dizem as muito más línguas que Double Exposure vendeu mais ou menos o dobro de Marquee Moon, o que, podem acreditar, ainda não era muita coisa (o disco só atingiria a marca de 150 mil cópias quinze anos depois de lançado). Mas o disco pirata não passava de uma demo mal-gravada e, exceção ao fato de trazer a melhor música  jamais gravada oficialmente pelo Television, a sessentista Hard On Love (era de Richard Hell, ex-baixista expulso da banda por não saber tocar), se tratava mais de um ítem de colecionador do que um disco a ser ouvido. Quando foi relançado em cd, em 1990, também como pirata, foram acrescidas as gravações-demo feitas para tentar um contrato com a Elektra. Mas o melhor ainda está entre as dez faixas "originais" do disco.




FREEWAYS - Bachman-Turner Overdrive (1977) -  O ano era aquele em que nós todos já sabemos o que aconteceu.  Enquanto o punk estourava na Inglaterra, em outro reino da União Britânica, o Canadá, uma banda esquisitona atingia os primeiros lugares da parada com mais um disco vigoroso de rock and roll. 

Como o rock do Canadá sempre foi tratado nos EUA como uma excentricidade, a imprensa norte-americana recebeu "Freeways", como em todos os lançamentos do BTO: sem dar a devida importância. Último disco com o fundador e mentor Randy Bachman, "Freeways" é considerado por muitos fãs como o canto do cisne da banda. Nos álbuns seguintes, o BTO parecia ter perdido todas as características que os fizeram famosos. 

Registrando uma queda enorme nas vendas e na popularidade, o grupo acabaria em 1978, retornando em 83, novamente com Randy, para shows. Voltariam a gravar canções inéditas em 88, encerrando definitivamente as atividades em 92.  Mas até hoje Freeways é considerado o disco definitivo do grupo. Inclusive por mim.




AROUND THE WORLD IN A DAY - Prince & The Revolution (1986) - O artista que um dia foi conhecido por um símbolo e que recentemente voltou a se chamar Prince foi quem mais vendeu discos nos EUA em 1984, com o álbum Purple Rain, suposta trilha do filme homônimo. Digo suposta porque ninguém sabe ao certo se é a trilha do filme ou o filme da trilha. Ou seja, se o filme é inspirado na trilha ou vice-versa. Pelo enredo confuso, parece mesmo que o filme é que foi inspirado nas canções do disco, mas isto é uma outra história. Depois de ter vendido mais de 10 milhões de cópias na terra de Tio Sam, Prince sabia que a cobrança sobre um próximo disco seria tremenda. 


A gravadora iria, logicamente, querer que ele mantivesse as altas vendagens de Purple Rain, e ele sabia que isto seria praticamente impossível. Prince não queria cair na armadilha em que seu colega Michael Jackson havia caído. Antes de se especializar em escândalos ao ser acusado de dividir a cama com "outros" garotos, Jacko costumava gravar excelentes discos como Off The Wall e Thriller. Acontece que este último é o disco mais vendido da indústria fonográfica e a Epic, na época, exigiu um sucessor à altura. Michael pariu Bad, um disco um tanto xoxo e sem brilho, que foi o primeiro passo para o declínio do ex-boy wonder. Prince também rolaria escada abaixo após Purple Rain, mas ainda lançaria discos de boas vendagens como Sign O' Times e o bichíssimo Parade, que contém o hit Kiss, balada gay devidamente masculinizada por Tom Jones alguns anos depois, com a ajuda do combo moderninho Art Of Noisa. Mas isto também é uma outra história.

Voltando ao sucessor de Purple Rain, Prince optou por lançar um disco totalmente diferente de seu antecessor. O resultado é Around The World In a Day, um álbum difícil, anti-comercial, cheio de referências à, então em voga, world music, mas sem cair em lugares-comuns e clichês fáceis. Nada de baladas longas e viajantes nem de funks com refrões ganchudos. As únicas exceções, que não por acaso são os únicos "sucessos" do disco, as excelentes Raspberry Beret e Pop Life, são justamente sobras de Purple Rain.

A dissociação com o disco anterior começa já na capa. Antes mesmo de querer ser conhecido por um símbolo, motivo de eternas piadas em filmes de quinta categoria, Prince evitara ter seu nome na capa deste disco. A gravadora americana deu um jeito de colocar o nome do artista no balão que faz com que o menino voe. A brasileira se achou no direito de colocar mais uma vez o nome de Prince, agora em letras brancas e garrafais. O disco é repleto de arranjos pouco convencionais e, curiosamente, mais limpos do que em seus discos anteriores. Talvez seja o disco do artista com mais músicas boas pouco conhecidas, e, no fundo, nem é tão anti-comercial assim, como, na época, a crítica fez questão de alardear. Tem até uma espécie de "Purple Rain II", a fraquinha The Ladder.

Fugir da armadilha de tentar repetir o sucesso de um disco estourado deu a Prince gás para que sua carreira se sustentasse por, no mínimo, mais cinco anos. Brigou com a gravadora justamente por conta das pressões para que lançasse um disco "comercial", mudou de nome, praticamente sumiu durante os anos 90 e tentou um retorno sem sucesso na primeira metade dos anos zero. Se tivesse parado em "Around The World In A Day", encerraria a carreira de forma brilhante e viraria uma lenda. Maior do que já é.





Altered Images - Reflected Images (The Best Of Altered Images) - Existem diversos tipos de coletâneas. Há as que são tão perfeitas que você as tem, mesmo que já tenha toda a discografia do grupo (dois exemplos: as do Cure e do Echo & The Bunnymen. Exatamente. Aquelas mesmas).. Existem outras, as básicas. Estas servem para aqueles grupos que não vale a pena ter todos os discos, mas que têm singles irresistíveis. Este é exatamente o caso da banda escocesa "Altered Images". Naturais de Glasgow, eles foram descobertos por Siouxie Sioux, que logo providenciou a gravação de seu primeiro single. 

Mas o azar estava com eles e o lançamento do disco, com a música Dead Pop Stars (Estrelas pop mortas) ocorreu uma semana antes da morte de John Lennon. O tema não era muito palatável para o momento. Só conseguiram sucesso com o terceiro compacto, com a música Happy Birthday, que todo mundo que teve video-cassete nos anos 80 conhece mas não sabe o que é, pois é o tema que toca no início de todo filme VHS da Alpha Filmes. Liderados pela punkette Clare Coogan, os Altered Images são aquele tipo de banda típica dos anos 80, com forte presença de teclados e muito, muito pop. Não foram, nem nunca seriam, a salvação do rock ou coisa parecida. Em caso de dúvida, o Soulseek está aí. Baixe "Don't talk to me about love" e "Happy birthday". Mas não se esqueçam de comprar o disco, pois precisamos apoiar as gravadoras.




The Blasters - Non-Fiction (1983) - Dave e Phil Alvin são dois irmãos de Chicago, apaixonados pelo rock clássico norte-americano e ha quase 30 anos estão a frente de uma banda verdadeiramente lendária, os Blasters. Sabe aquele tipo de cara que se veste como se ainda estivesse nos anos 50? Pois bem, assim são os caras e este detalhe dá uma idéia da paixão e competência que envolve o trabalho deste grupo. 

Tradiicionalistas ao extremo, já foram rotulados como country-billy, mas a etiqueta apertada limita demais o som do grupo, que, mesmo um tanto hermético, ainda passeia pelo rhythm'n'blues e pela soul music. No Brasil, são amplamente ignorados, mesmo depois de terem participado do filme "Ruas de Fogo", de Dave Hill, que fez bastante sucesso no país, e, em cuja trilha sonora, incluíram duas de suas melhores composições. Para quem assistiu o filme mas não lembra, eles são aquela banda que toca no inferninho mantido pelos vilões. Este "Non-Fiction", na verdade, foi lançado por aqui bem antes desta aparição cinematográfica, mas não fez dos Blasters mais conhecidos em terras tropicais do que deveriam. Mesmo na discografia americana não é um disco fácil de encontrar, nunca tendo sido relançado em CD. Se achar no sebo mais próximo, leve pra casa sem pestanejar.

domingo, 8 de maio de 2016

Ed. 6 - Disco do Ano - Bruce Springsteen - The River (1980)

"- Isto é brega americano!".
Foi assim, em poucas palavras, que um amigo fulminou todo o meu entusiasmo ao apresentar-lhe o álbum duplo daquele cantor magricela e de voz rouca, recheado de rockões e baladas, como, aliás deveria ser todo bom disco de rock. 

E, de fato, ele estava certo. A faixa que o fez decretar a pieguice explícita daquele par de LPs, e que batiza o disco, "The River", tinha mesmo um ar melancólico e triste, típico das nossas baladas românticas mais populares. A minha "vingança", por assim dizer, é que aquelas canções do primeiro disco de Bruce Springsteen que ouvimos nas nossas vidas, ficariam em sua memória afetiva até os dias de hoje. E na minha também.

Corria o ano de 1981 e ainda faltavam, pelo menos, cinco anos para que Springsteen se destacasse entre os screamers do projeto We Are The World e alcançasse alguma relevância em terra-brasilis. Mais um ano e as meninas já estariam molhando as calcinhas por um "chefão" - como era chamado a essa altura -  bombado e bailando com fãs no clip da pop "Dancing In The Dark". Mas, naquele momento, para nós, ele era apenas um ilustre desconhecido ianque que teve um álbum duplo lançado no Brasil e que havíamos adquirido no saldo de uma loja de discos prestes a fechar.

Catequizei muita gente e os converti para a seita springsteeniana. Se queriam rocks pesadões, eu mostrava "Cadillac Ranch", se queriam rocks simples e diretos eu apresentava "Sherry Darling" e "Hungry Heart". E quem quisesse "brega americano" se satisfaria facilmente com canções emocionais como "Independence Day", "I Wanna Marry You" e a sintomática "The River".

Algum tempo depois, antes que Born In The USA chegasse ás lojas e o "chefão" virasse carne de vaca, tomei conhecimento da importância e da relevância do artista, que fora apresentado ao mundo sete anos antes como a "salvação do rock". Com o estouro mundial, a sua discografia foi relançada e eu pude degustar um pacote de álbuns irrepreensíveis, todos clássicos absolutos, mas nenhum antecipando aquilo que eu ouviria em "The River".

Álbuns duplos costumam ser cansativos e conter gordura  extra que, muitas vezes, poderia ser eliminada e transformá-los em excelentes discos simples. Não é o caso aqui. Não só o "The River" cabe perfeitamente no "modelito" duplo, como ainda lhe caberia mais uma faixa, "Held Up Without a Gun", retirada do setlist do LP de última hora por um Bruce Springsteen receoso de que ela não estaria no mesmo nível das outras (e, cá pra nós, não estava mesmo). De qualquer forma, em 2015, saiu uma caixa pirata contendo mais de 50 canções que, supostamente, teriam ficado de fora do disco duplo.

Curiosamente, "The River" não foi pensado em nenhum momento como um álbum duplo. Deveria conter apenas dez faixas e se chamar "The Ties That Blind", mas havia sobrado muita coisa boa e não aproveitada do igualmente excelente disco anterior, "Darkness In The Edge OI Town", aliada ao ritmo de produção de novas faixas para um disco seguinte. Ao final, Springsteen resolveu acatar o conselho do produtor Jon Landau e reunir tudo em um único lançamento, um ambicioso projeto duplo.


Poderia ter dado errado. Aliás, poderia ter dado muito errado. Poderia, por exemplo, soar confuso e sem direção, como o álbum triplo Sandinista! do Clash, criado basicamente sob o mesmo conceito do "nada se perde e tudo se aproveita" e lançado apenas dois meses depois. 

Mas, não deu, e "The River" se tornou o último exemplar de uma discografia irretocável. Dali em diante, a carreira do "big boss" tomaria outras direções, que lhe garantiriam definitivamente o status de popstar, mas o afastaria do punch e da credibilidade de working class hero dos seus primeiros lançamentos.

O lado A se inicia com "The Ties That Blind", rock poderoso com tinturas de Byrds e melodia forte. "Sherry Darling", um dos sete singles extraídos do disco, chegou a ganhar versão nacional dos Fevers  (olha o tal do brega americano aí...). "Jackson Cage" e "Two Hearts" complementam uma das melhores sequencias rock and roll de um disco, com o "alívio" vindo com a tocante balada "Independence Day".

Sobre "Hungry Heart", que abre o lado B,  cabe uma história curiosa: Joey Ramone, dos Ramones, havia pedido a Bruce que escrevesse uma canção para a sua banda e Springsteen a fez "sob medida": fácil de tocar, bem melódica e totalmente sessentista. Quando produziu uma demo para entregar a Joey, foi convencido pelo produtor Landau a não entregá-la e gravá-la ele mesmo. Fez bem, pois "Hungry Heart" garantiu ao chefão o primeiro top chart nas paradas americanas. "Out In The Streets" é rock vigoroso e pungente, mas é "Crush On You" e "You Can Look" que se destacam. Mais uma vez, uma balada, a singela "I Wanna Marry You", encerra o segundo lado.

"The River" é a primeira do "lado C", com uma introdução de gaita e cinco minutos de  pura poesia. "Point Blank" é introspectiva e densa, mas "Cadillac Ranch" transforma tudo em diversão novamente, sendo seguida por "I'm a Rocker". "Fade Away" e "Stolen Car" são baladas menores que não comprometem em absolutamente nada a qualidade do disco. O quarto e último lado tem "Ramrod", um rock riffado e nada rifado, a dylaniana "The Price You Pay", a climática "Drive All Night" e a soturna "Wreck On The Highway" completando esta verdadeira obra-prima que é "The River".

Nos lançamentos seguintes, Bruce Springsteen não retornaria ao hard folk dos primeiros discos, nem se aventuraria mais em rocks descompromissados e dançantes e baladas intensas e introspectivas, preferindo adoçar suas novas canções com doses de sacarina que, nem sempre, funcionaram muito bem. Por isto, "The River" é um disco único na carreira do Big Boss e permanece, até hoje, como um dos melhores discos dos anos 80.