sábado, 28 de maio de 2016

Ed. 9 - Compositores são falsos, suas músicas jamais.

Há quem componha e nunca consiga pensar e, naturalmente, compor, em primeira pessoa, sem ter necessariamente vivido determinada experiência. Há quem se especialize em traduzir para versos a vida e o cotidiano alheio. Admito que é um exercício interessante somatizar as angústias, as alegrias, as frustrações de alguém, e transformá-las em uma canção. Tal canção não seria, de forma alguma falsa, pois ela expressa sentimentos possíveis, mas, sem dúvida, seu autor é um charlatão. Ou, no máximo, um ator. Ou até mesmo um escritor, que consegue colocar pensamentos díspares do seu na boca de seus personagens.

Há até quem componha e seja, ele mesmo, um personagem. Há compositores que criaram para si um alter-ego tantas vezes o perfeito contrário de si mesmos, e se sentem presos e subjugados a esta entidade que eles mesmos criaram. Bob Marley, para ficar em um dos compositores que burilaram alter-egos "normais", teve que pedir licença e desculpas para escrever uma canção de amor (que vem a ser "Is this love?", regravada e versionada quase literalmente no Brasil pelo casal Baby-Pepeu) em seu emaranhado de canções de conteúdo político e social. Outro Bob, o Dylan, já escrevia canções de amor com mais frequência, no seu oceano de temas de protesto, onde nem sempre se sabia contra o que se protestava, mas sempre se sabia o quanto eram inspiradas e verdadeiras suas canções, românticas ou não.

Há quem cave mais fundo a sepultura das canções impessoais e se torne escravo de seu próprio personagem. Há compositores geniais submissos a seus alter-egos nem tão geniais assim. Há Jupiter Maçã e Rogério Skylab, que, aliás, recentemente protagonizaram um espetáculo extra-curricular em um canal de TV, que prova o que eu digo sobre tal escravidão. Flávio e Rogério são obrigados pelas entidades que criaram para si, a compor em um determinado formato pelo resto de suas vidas. Se tentarem trocar de camisa, correm o risco de serem rejeitados pelo seu público.

Dylan, Apple, Marley e Skylab podem até não ser tão honestos assim no papel de compositores. Provavelmente, muitas vezes se sentiram obrigados a tratar de um determinado assunto em uma canção, sobre o qual, livres de quaisquer amarras, jamais falariam. Mas suas canções sim, não importa do que tratem, são absolutamente sinceras. E este é o encanto da música. Ela ganha vida própria depois de parida. E então, se você não bebe e faz uma música cuja letra diz que você está bebendo demais, todos que a ouvirem irão acreditar piamente que você é um alcoólico consciente. Porque este é o poder de quem compõe: transformar mentiras em verdades e verdades em verdades maiores ainda.

sábado, 21 de maio de 2016

Ed.8 - Educação Artística - Bons discos para aumentar a sua cultura musical

FIRST LAST AND ALWAYS - Sisters Of Mercy (1986) - Já dizia Tia Alice Cooper, ainda no alvorecer dos anos 80, na canção Clones, mais tarde regravada pelo Smashing Pumpkins e pelo Epoxies, que somos todos clones. E, nos anos 80, havia uma multidão de clones (im)perfeitos de David Bowie e Bryan Ferry. O curioso é que os tais clones faziam questão de se parecer com um e com outro, sendo que os dois, apesar de contemporâneos, nunca tiveram grandes similaridades nos respectivos trabalhos. Não vou citar aqui os francamente ruins ou medíocres, pois certamente atingiria a sensibilidade de algumas pessoas como se um punhal lhes atravessasse o coração. Prefiro falar do melhor deles, o que trouxe realmente algo a mais ao universo Bowieferryniano. É claro que estamos falando do esquisitíssimo Andrew Eldritch e da sua banda, a ainda mais esquisita Sisters Of Mercy. Mais particularmente do excelente primeiro disco, que inclusive, deveria ser mesmo o único, já que, não por acaso, se chamava First, Last And Always.

Autor da piada da década, quando rotulou o estilo de sua banda de "heavy-metal" em uma memorável entrevista para um semanário inglês (e o repórter acreditou!), Eldritch ultrapassou os limites da mera cópia, ou mesmo da influência exacerbada e criou um produto original, que dividiu opiniões quando do seu lançamento. Alguns adoraram, outros odiaram, mas ninguém ficou absolutamente em cima do muro. Confesso que demorei muito a entender o estranho universo do cantor de voz baixa..

Cantando em um tom extremamente grave, muito mais grave, inclusive, do que seu tom de voz ao conversar, Andrew Eldritch tenta emular claramente o Bowie do final dos anos 70 e início dos 80, quando o próprio camaleão imitava o cantor inglês Scott Walker. O visual do artista, por sua vez, entrega a vontade de ser Bryan Ferry. Qualquer dúvida, é só dar uma boa olhada na capa de These Foolish Things, do cantor do Roxy Music. Mas , isto é secundário. A sonoridade, e é o que importa, lembra um pouco o Roxy Music dos anos 70, pós saida de Brian Eno, acrescido de uma curiosa bateria eletrônica batizada como "Dr. Avalanche" e beats dançantes que embalaram muitos dos "darks"oitentistas, aqueles seres que dançavam contra a parede e que a lata de lixo da história tratou de jogar fora.

Mas voltando ao Sisters Of Mercy, o disco contém clássicos como "Marian" e "Black Planet", essenciais em qualquer festa revivalista dos anos 80 e a presença de Wayne Hussey, que logo em seguida, sairia, depois de brigar com a banda inteira, menos o baterista, para formar o também muito bom The Mission.Mas, isto ainda é uma outra história.



14º Andar -  Diversão do Novo Mundo (1985) - A banda baiana 14º Andar surgiu no rastro do sucesso de outra famosa banda local, o Camisa de Vênus. Ainda com o nome de Delirium Tremens e uma orientação mais para o punk rock, o trio era uma espécie de The Jam do rock local. Indicados por Marcelo Nova para a gravadora RGE, tiveram a má sorte de terem como produtor ninguém menos que Mister Sam, ou Santiago Malnatti, um dj argentino responsável pelo sucesso de Gretchen, Nahim e outros artistas "pouco recomendáveis". Inexperientes, se entregaram de corpo e alma à sanha do portenho maluco e o resultado foi um álbum equivocado, cheio de excelentes composições mas muito limpo, com guitarras burocraticamente distorcidas e arranjos nem sempre felizes. Até Silvinha , mulher do eterno "o bom" Eduardo Araújo, e à época contratada da gravadora, foi chamada para fazer um estranho e delicioso backing vocal na faixa "A Dança dos Políticos", que se pretendia (e conseguia ser) "funky". Aliás, Malnatti parecia estar totalmente perdido em uma praia que não era a sua, o rock. Em uma faixa, ele tenta fazer o grupo soar como Paralamas, em outra como Legião Urbana, e por aí ia.

O fracasso do disco não foi, absolutamente, culpa dos meninos. À época com menos de 20 anos, deram tudo que podiam para que "Diversão do Novo Mundo" fosse o grande disco que poderia ter sido. Jerry Marlon, hoje considerado um dos melhores baixistas da Bahia, já dava mostras do excelente músico que já era e viria a ser e junto com Jonas Mello, bateria, faziam uma excelente cozinha para a guitarra e voz incomum de Hélio Rocha, compositor e cantor de mão cheia. O problema do disco realmente foi a produção, que conseguiu anular tudo de bom que poderia haver no álbum. Infelizmente o primeiro power-trio da Bahia não teve oportunidade de provar seu valor em um segundo trabalho, melhor produzido e digno do talento do grupo e acabou logo depois. Ainda hoje todos estão envolvidos com música e bem poderiam retornar às atividades.





STRAWBERRY SWITCHBLADE - Strawberry Switchblade (1988) - Onde encontrar o pop perfeito? E, principalmente, para que? Para fazer o que com ele, depois de encontrá-lo? Antes de mais nada, crianças, o pop perfeito não existe. Se é pop, é imperfeito por natureza. Mas, se alguém quiser conhecer um disco que se aproxima, e muito, da perfeição, que ouça o primeiro disco da dupla inglesa Strawberry Switchblade. Seu maior sucesso lá fora é a canção Since Yesterday, mas a que tocou nas nossas rádios em meados de 87 foi mesmo a "bacharachniana" Who Know What Love Is?. Os climas etéreos que remontam ao Cocteau Twins de forma mais pop, quase fazem a gente esquecer da verdadeira overdose de teclados disco adentro. 


O curioso é que a dupla de garotas, as escocesas Jill Brayson e Rose McDowall tocam, respectivamente guitarra-base e solo. Mas tudo bem, estamos na sublime Inglaterra, que costuma criar pequenas (ou grandes) e maravilhosas armações pop. Se é para armar, vamos armar em grande estilo. Nada de Latino, Rouge ou Broz. A terra da Rainha vai de Spice Girls, Bananarama, Robbie Williams e... Strawberry Switchblade. Podem não ser a oitava maravilha, mas...você iria de Backstreet Boys e Britney Spears? De Jill Brayson nunca mais ouvimos falar mas Rose McDowall continuou, em projetos mais "sérios", embora menos "deliciosos", como uns tais de "Current 93" e "Death In June". Mas, se "Strawberry Switchblade", o disco, não é nenhuma criação genial, ainda assim é muitíssimo bom e agradável, afinal, o pop só é perfeito se, justamente, for descartável. Ih, rimou...




The Electric Six - Fire (2004) - Imagine uma banda cujo vocalista chama-se "pinto do dia dos namorados", ou o guitarrista chama-se "indígena do rock and roll"?  E imagine que esta banda faz uma mistura de hard-rock com disco music e soul e ainda soa em muitos momentos como o Kiss? Agora, pra terminar, imagine que o primeiro álbum desta banda é forte candidata a melhor da década passada? Bem, esta banda existe e tem um dos melhores nomes de bandas já inventados. Renato Russo, que Deus o tenha, já dizia que toda banda que tem "electric" no nome, é boa. Exceto a sua própria, ele até tinha razão. Desde as famosas "ameixas elétricas" (The Electric Prunes) que tudo no rock que leva o nome de Electric é bom, vide o famoso "Electric" do Cult ou o mais famoso ainda "Electric Ladyland" do deus Jimmy Hendrix.

Vindos de Detroit, a ex-capital automobilística da terra de Tio Sam, surgiu a bandaThe Electric Six com seu sensacional álbum de estréia, muito apropriadamente batizado de "Fire". Acontece que os "seis elétricos" não são absolutamente uma novidade no cenário local, já tendo gravado dois discos sem sucesso. Foram sete anos de muito barulho e pouco resultado até que o grupo se reformulou, trocou de nome e mudou a sonoridade. E tome-lhe disco music e hard rock em algumas faixas. Em outras, pra variar, tem hard rock e disco music. A fórmula é 50% de um e 50% de outro. Simples. E que me perdoem os chatos, é ótimo pra dançar. A década de zero estava se revelando uma das melhores décadas para quem gosta de boa música. E continuariam assim.

sábado, 14 de maio de 2016

Ed. 7 - Educação Artística - Bons discos para sua aumentar a sua cultura musical.

DOUBLE EXPOSURE - Television (1978) - Se alguém te perguntar qual foi o primeiro disco do grupo nova-iorquino Television, você vai dizer sem titubear que foi o fracasso de vendas/sucesso de crítica Marquee Moon lançado em 77, certo? Bem, você está absolutamente certo. Marquee Moon foi mesmo o primeiro lançamento da banda, que foi do nada para lugar nenhum em sua curta existência, mas conseguiu influenciar uma série de bandas que vieram bem depois.

Só que antes havia uma fita cassete que costumava circular por Nova-Iorque de forma doméstica, contendo algumas demos e gravações ao vivo feitas naquele clube, você sabe qual, onde onze de cada dez bandas daquela época se apresentavam. Diz a lenda que um traficante amigo da rapaziada era tão fã do grupo que chegou a prensar algumas cópias do trabalho em vinil. De concreto, só o fato que, em 1978, após o lançamento do primeiro disco oficial, um pequeno selo local conseguiu direitos legais sobre o material e acabou lançando "oficialmente" a demo, o lp pirata, ou como você queira chamá-lo. O título da bolacha fazia justamente menção ao fato de que os garotos do Television estavam em "dupla exposição", com o disco pela Elektra e por esta demo.

A Elektra, que já estava cansada de problemas com os "big stars" que a turma de Detroit havia contratado, uns tais de MC5 e Stooges, que traziam muito mais confusão do que retorno financeiro, não gostou nada nada da ideia e tentou retirar, sem sucesso, o lp de circulação. Dizem as muito más línguas que Double Exposure vendeu mais ou menos o dobro de Marquee Moon, o que, podem acreditar, ainda não era muita coisa (o disco só atingiria a marca de 150 mil cópias quinze anos depois de lançado). Mas o disco pirata não passava de uma demo mal-gravada e, exceção ao fato de trazer a melhor música  jamais gravada oficialmente pelo Television, a sessentista Hard On Love (era de Richard Hell, ex-baixista expulso da banda por não saber tocar), se tratava mais de um ítem de colecionador do que um disco a ser ouvido. Quando foi relançado em cd, em 1990, também como pirata, foram acrescidas as gravações-demo feitas para tentar um contrato com a Elektra. Mas o melhor ainda está entre as dez faixas "originais" do disco.




FREEWAYS - Bachman-Turner Overdrive (1977) -  O ano era aquele em que nós todos já sabemos o que aconteceu.  Enquanto o punk estourava na Inglaterra, em outro reino da União Britânica, o Canadá, uma banda esquisitona atingia os primeiros lugares da parada com mais um disco vigoroso de rock and roll. 

Como o rock do Canadá sempre foi tratado nos EUA como uma excentricidade, a imprensa norte-americana recebeu "Freeways", como em todos os lançamentos do BTO: sem dar a devida importância. Último disco com o fundador e mentor Randy Bachman, "Freeways" é considerado por muitos fãs como o canto do cisne da banda. Nos álbuns seguintes, o BTO parecia ter perdido todas as características que os fizeram famosos. 

Registrando uma queda enorme nas vendas e na popularidade, o grupo acabaria em 1978, retornando em 83, novamente com Randy, para shows. Voltariam a gravar canções inéditas em 88, encerrando definitivamente as atividades em 92.  Mas até hoje Freeways é considerado o disco definitivo do grupo. Inclusive por mim.




AROUND THE WORLD IN A DAY - Prince & The Revolution (1986) - O artista que um dia foi conhecido por um símbolo e que recentemente voltou a se chamar Prince foi quem mais vendeu discos nos EUA em 1984, com o álbum Purple Rain, suposta trilha do filme homônimo. Digo suposta porque ninguém sabe ao certo se é a trilha do filme ou o filme da trilha. Ou seja, se o filme é inspirado na trilha ou vice-versa. Pelo enredo confuso, parece mesmo que o filme é que foi inspirado nas canções do disco, mas isto é uma outra história. Depois de ter vendido mais de 10 milhões de cópias na terra de Tio Sam, Prince sabia que a cobrança sobre um próximo disco seria tremenda. 


A gravadora iria, logicamente, querer que ele mantivesse as altas vendagens de Purple Rain, e ele sabia que isto seria praticamente impossível. Prince não queria cair na armadilha em que seu colega Michael Jackson havia caído. Antes de se especializar em escândalos ao ser acusado de dividir a cama com "outros" garotos, Jacko costumava gravar excelentes discos como Off The Wall e Thriller. Acontece que este último é o disco mais vendido da indústria fonográfica e a Epic, na época, exigiu um sucessor à altura. Michael pariu Bad, um disco um tanto xoxo e sem brilho, que foi o primeiro passo para o declínio do ex-boy wonder. Prince também rolaria escada abaixo após Purple Rain, mas ainda lançaria discos de boas vendagens como Sign O' Times e o bichíssimo Parade, que contém o hit Kiss, balada gay devidamente masculinizada por Tom Jones alguns anos depois, com a ajuda do combo moderninho Art Of Noisa. Mas isto também é uma outra história.

Voltando ao sucessor de Purple Rain, Prince optou por lançar um disco totalmente diferente de seu antecessor. O resultado é Around The World In a Day, um álbum difícil, anti-comercial, cheio de referências à, então em voga, world music, mas sem cair em lugares-comuns e clichês fáceis. Nada de baladas longas e viajantes nem de funks com refrões ganchudos. As únicas exceções, que não por acaso são os únicos "sucessos" do disco, as excelentes Raspberry Beret e Pop Life, são justamente sobras de Purple Rain.

A dissociação com o disco anterior começa já na capa. Antes mesmo de querer ser conhecido por um símbolo, motivo de eternas piadas em filmes de quinta categoria, Prince evitara ter seu nome na capa deste disco. A gravadora americana deu um jeito de colocar o nome do artista no balão que faz com que o menino voe. A brasileira se achou no direito de colocar mais uma vez o nome de Prince, agora em letras brancas e garrafais. O disco é repleto de arranjos pouco convencionais e, curiosamente, mais limpos do que em seus discos anteriores. Talvez seja o disco do artista com mais músicas boas pouco conhecidas, e, no fundo, nem é tão anti-comercial assim, como, na época, a crítica fez questão de alardear. Tem até uma espécie de "Purple Rain II", a fraquinha The Ladder.

Fugir da armadilha de tentar repetir o sucesso de um disco estourado deu a Prince gás para que sua carreira se sustentasse por, no mínimo, mais cinco anos. Brigou com a gravadora justamente por conta das pressões para que lançasse um disco "comercial", mudou de nome, praticamente sumiu durante os anos 90 e tentou um retorno sem sucesso na primeira metade dos anos zero. Se tivesse parado em "Around The World In A Day", encerraria a carreira de forma brilhante e viraria uma lenda. Maior do que já é.





Altered Images - Reflected Images (The Best Of Altered Images) - Existem diversos tipos de coletâneas. Há as que são tão perfeitas que você as tem, mesmo que já tenha toda a discografia do grupo (dois exemplos: as do Cure e do Echo & The Bunnymen. Exatamente. Aquelas mesmas).. Existem outras, as básicas. Estas servem para aqueles grupos que não vale a pena ter todos os discos, mas que têm singles irresistíveis. Este é exatamente o caso da banda escocesa "Altered Images". Naturais de Glasgow, eles foram descobertos por Siouxie Sioux, que logo providenciou a gravação de seu primeiro single. 

Mas o azar estava com eles e o lançamento do disco, com a música Dead Pop Stars (Estrelas pop mortas) ocorreu uma semana antes da morte de John Lennon. O tema não era muito palatável para o momento. Só conseguiram sucesso com o terceiro compacto, com a música Happy Birthday, que todo mundo que teve video-cassete nos anos 80 conhece mas não sabe o que é, pois é o tema que toca no início de todo filme VHS da Alpha Filmes. Liderados pela punkette Clare Coogan, os Altered Images são aquele tipo de banda típica dos anos 80, com forte presença de teclados e muito, muito pop. Não foram, nem nunca seriam, a salvação do rock ou coisa parecida. Em caso de dúvida, o Soulseek está aí. Baixe "Don't talk to me about love" e "Happy birthday". Mas não se esqueçam de comprar o disco, pois precisamos apoiar as gravadoras.




The Blasters - Non-Fiction (1983) - Dave e Phil Alvin são dois irmãos de Chicago, apaixonados pelo rock clássico norte-americano e ha quase 30 anos estão a frente de uma banda verdadeiramente lendária, os Blasters. Sabe aquele tipo de cara que se veste como se ainda estivesse nos anos 50? Pois bem, assim são os caras e este detalhe dá uma idéia da paixão e competência que envolve o trabalho deste grupo. 

Tradiicionalistas ao extremo, já foram rotulados como country-billy, mas a etiqueta apertada limita demais o som do grupo, que, mesmo um tanto hermético, ainda passeia pelo rhythm'n'blues e pela soul music. No Brasil, são amplamente ignorados, mesmo depois de terem participado do filme "Ruas de Fogo", de Dave Hill, que fez bastante sucesso no país, e, em cuja trilha sonora, incluíram duas de suas melhores composições. Para quem assistiu o filme mas não lembra, eles são aquela banda que toca no inferninho mantido pelos vilões. Este "Non-Fiction", na verdade, foi lançado por aqui bem antes desta aparição cinematográfica, mas não fez dos Blasters mais conhecidos em terras tropicais do que deveriam. Mesmo na discografia americana não é um disco fácil de encontrar, nunca tendo sido relançado em CD. Se achar no sebo mais próximo, leve pra casa sem pestanejar.

domingo, 8 de maio de 2016

Ed. 6 - Disco do Ano - Bruce Springsteen - The River (1980)

"- Isto é brega americano!".
Foi assim, em poucas palavras, que um amigo fulminou todo o meu entusiasmo ao apresentar-lhe o álbum duplo daquele cantor magricela e de voz rouca, recheado de rockões e baladas, como, aliás deveria ser todo bom disco de rock. 

E, de fato, ele estava certo. A faixa que o fez decretar a pieguice explícita daquele par de LPs, e que batiza o disco, "The River", tinha mesmo um ar melancólico e triste, típico das nossas baladas românticas mais populares. A minha "vingança", por assim dizer, é que aquelas canções do primeiro disco de Bruce Springsteen que ouvimos nas nossas vidas, ficariam em sua memória afetiva até os dias de hoje. E na minha também.

Corria o ano de 1981 e ainda faltavam, pelo menos, cinco anos para que Springsteen se destacasse entre os screamers do projeto We Are The World e alcançasse alguma relevância em terra-brasilis. Mais um ano e as meninas já estariam molhando as calcinhas por um "chefão" - como era chamado a essa altura -  bombado e bailando com fãs no clip da pop "Dancing In The Dark". Mas, naquele momento, para nós, ele era apenas um ilustre desconhecido ianque que teve um álbum duplo lançado no Brasil e que havíamos adquirido no saldo de uma loja de discos prestes a fechar.

Catequizei muita gente e os converti para a seita springsteeniana. Se queriam rocks pesadões, eu mostrava "Cadillac Ranch", se queriam rocks simples e diretos eu apresentava "Sherry Darling" e "Hungry Heart". E quem quisesse "brega americano" se satisfaria facilmente com canções emocionais como "Independence Day", "I Wanna Marry You" e a sintomática "The River".

Algum tempo depois, antes que Born In The USA chegasse ás lojas e o "chefão" virasse carne de vaca, tomei conhecimento da importância e da relevância do artista, que fora apresentado ao mundo sete anos antes como a "salvação do rock". Com o estouro mundial, a sua discografia foi relançada e eu pude degustar um pacote de álbuns irrepreensíveis, todos clássicos absolutos, mas nenhum antecipando aquilo que eu ouviria em "The River".

Álbuns duplos costumam ser cansativos e conter gordura  extra que, muitas vezes, poderia ser eliminada e transformá-los em excelentes discos simples. Não é o caso aqui. Não só o "The River" cabe perfeitamente no "modelito" duplo, como ainda lhe caberia mais uma faixa, "Held Up Without a Gun", retirada do setlist do LP de última hora por um Bruce Springsteen receoso de que ela não estaria no mesmo nível das outras (e, cá pra nós, não estava mesmo). De qualquer forma, em 2015, saiu uma caixa pirata contendo mais de 50 canções que, supostamente, teriam ficado de fora do disco duplo.

Curiosamente, "The River" não foi pensado em nenhum momento como um álbum duplo. Deveria conter apenas dez faixas e se chamar "The Ties That Blind", mas havia sobrado muita coisa boa e não aproveitada do igualmente excelente disco anterior, "Darkness In The Edge OI Town", aliada ao ritmo de produção de novas faixas para um disco seguinte. Ao final, Springsteen resolveu acatar o conselho do produtor Jon Landau e reunir tudo em um único lançamento, um ambicioso projeto duplo.


Poderia ter dado errado. Aliás, poderia ter dado muito errado. Poderia, por exemplo, soar confuso e sem direção, como o álbum triplo Sandinista! do Clash, criado basicamente sob o mesmo conceito do "nada se perde e tudo se aproveita" e lançado apenas dois meses depois. 

Mas, não deu, e "The River" se tornou o último exemplar de uma discografia irretocável. Dali em diante, a carreira do "big boss" tomaria outras direções, que lhe garantiriam definitivamente o status de popstar, mas o afastaria do punch e da credibilidade de working class hero dos seus primeiros lançamentos.

O lado A se inicia com "The Ties That Blind", rock poderoso com tinturas de Byrds e melodia forte. "Sherry Darling", um dos sete singles extraídos do disco, chegou a ganhar versão nacional dos Fevers  (olha o tal do brega americano aí...). "Jackson Cage" e "Two Hearts" complementam uma das melhores sequencias rock and roll de um disco, com o "alívio" vindo com a tocante balada "Independence Day".

Sobre "Hungry Heart", que abre o lado B,  cabe uma história curiosa: Joey Ramone, dos Ramones, havia pedido a Bruce que escrevesse uma canção para a sua banda e Springsteen a fez "sob medida": fácil de tocar, bem melódica e totalmente sessentista. Quando produziu uma demo para entregar a Joey, foi convencido pelo produtor Landau a não entregá-la e gravá-la ele mesmo. Fez bem, pois "Hungry Heart" garantiu ao chefão o primeiro top chart nas paradas americanas. "Out In The Streets" é rock vigoroso e pungente, mas é "Crush On You" e "You Can Look" que se destacam. Mais uma vez, uma balada, a singela "I Wanna Marry You", encerra o segundo lado.

"The River" é a primeira do "lado C", com uma introdução de gaita e cinco minutos de  pura poesia. "Point Blank" é introspectiva e densa, mas "Cadillac Ranch" transforma tudo em diversão novamente, sendo seguida por "I'm a Rocker". "Fade Away" e "Stolen Car" são baladas menores que não comprometem em absolutamente nada a qualidade do disco. O quarto e último lado tem "Ramrod", um rock riffado e nada rifado, a dylaniana "The Price You Pay", a climática "Drive All Night" e a soturna "Wreck On The Highway" completando esta verdadeira obra-prima que é "The River".

Nos lançamentos seguintes, Bruce Springsteen não retornaria ao hard folk dos primeiros discos, nem se aventuraria mais em rocks descompromissados e dançantes e baladas intensas e introspectivas, preferindo adoçar suas novas canções com doses de sacarina que, nem sempre, funcionaram muito bem. Por isto, "The River" é um disco único na carreira do Big Boss e permanece, até hoje, como um dos melhores discos dos anos 80.




sábado, 30 de abril de 2016

Ed. 5 - Disco do Ano - Ramones - Pleasant Dreams (1981)

A acusação mais grave que pesa sobre Pleasant Dreams, o sexto disco de estúdio dos Ramones, lançado em 1981, é que o instrumental não teria sido gravado pelo grupo, tendo o produtor Graham Gouldman os substituído por músicos de estúdio.  Outras acusações se seguiriam, como a de que a banda, finalmente, teria se vendido, buscando uma sonoridade mais "comercial" e mais pop.


Se a primeira  queixa não é absolutamente verdadeira - em sua biografia, Marky Ramone desmente e garante que, apesar da contribuição de um músico de estúdio aqui e ali, foram os próprios Ramones que executaram todas as canções - a segunda se mostra profundamente real. Cansados de não venderem discos, embora tivessem prestígio e credibilidade, desde o disco anterior, "End Of The Century", os Ramones buscavam uma aproximação com a "new wave". Para burilar a nova sonoridade pop dos quatro punks, a gravadora teria convocado ninguém menos que Phil Spector, um rock'n'roll hitmaker nato. O álbum anterior, porém, apesar de excelente, soou confuso demais para alcançar com exito as paradas de sucesso.



Graham Gouldman, compositor e vocalista da banda 10cc, está entre um dos que redefiniram o conceito de música pop para o final dos anos 70 e início dos anos 80. Sua influencia é sentida até hoje e é um daqueles nomes cuja ausência teria feito a música andar por outros caminhos. Se havia alguém que poderia costurar toda aquela barulheira e deixa--la pronta para as paradas de sucesso, era Gouldman. E o resultado foi realmente fantástico. Sem, em nenhum momento, deixar que a essência dos Ramones se perdesse, pariu um dos melhores discos do início da nova década. Se o LP não fez o sucesso que deveria, de fato, a culpa não foi do produtor.



Quando Pleasant Dreams chegou às lojas e emissoras de rádio, foi recebido com dupla desconfiança. Os DJ's não conseguiam achar uma faixa que fosse "suficientemente boa" para tocar e os antigos fãs não gostaram nada de ver toda a tosqueira hardcore, todo o barulho e toda a produção precária presente nos discos anteriores polida nas doze faixas do novo álbum.



Quem acabaria consumindo - e aprovando - o novo lançamento seriam os novos fãs - eu, inclusive - que a banda agregou a partir daquele disco. E ter conseguido estes fãs de última hora foi essencial para que a existência da banda se prolongasse por mais alguns anos. Ainda que, nos discos seguintes, os Ramones pesassem a mão em uma nova sonoridade que, algumas vezes, beirava o heavy metal, foi com "End Of The Century" e, principalmente, com Pleasant Dreams, que o grupo aprendeu a compor, deixando de lado os intermináveis "I Wanna" e "I Don't Wanna".



Me dei conta da existência dos Ramones em uma nota da revista Veja quando do lançamento no Brasil de "End Of The Century". Foi o primeiro disco da banda a sair no país e a revista os tratava como "roqueiros de histórias em quadrinhos". Antes mesmo de ouvi-los, o texto me convenceu a comprar a bolacha. Em uma visita a Salvador, voltei com eles debaixo do braço.



Foi um amigo que me mostrou o Pleasant Dreams, pela primeira vez, em edição importada e executado em um aparelho de som, à época, de primeira qualidade. Gravei um cassete com ele e, dali em diante e até a eternidade, seria, para sempre o meu disco preferido dos Ramones. Algum tempo depois, o vinil entraria oficialmente em minha coleção a partir de uma cópia argentina.



O lado A começa com "We Want The Airwaves", que cita os Doors ("we want the world and we want it now") mostrando, logo de cara, a que veio o grupo neste disco. A melhora na qualidade das composições já se faz evidente logo nesta primeira canção, de autoria do vocalista Joey Ramone, uma provável influencia de Gouldman, compositor de hits como For Your Love (Yardbirds) e No Milk Today (Hermans Hermits). "All Is Quiet in The Eastern Front" é pesada e rápida, mas ganha um quê de classe e charme em comparação às canções de discos anteriores compostas por Dee Dee Ramone. 



A riff de introdução de "He's a Whore", do Cheap Trick, foi descaradamente chupada para compor "The KKK Took My Baby Away". Por anos, divulgou-se a história de que a faixa seria um desagravo de Joey ao companheiro Johnny, que teria lhe roubado a namorada, mas na sua biografia "Eu dormi com Joey Ramone", o seu irmão Mick Leigh desmente esta versão e diz que a "KKK", no caso, teria sido a mãe deles, que não permitiu o namoro do vocalista com uma moça negra.



A quarta faixa, "Don't Go", a minha preferida do disco, é um massive hit sessentista de refrão ganchudo, seguida por "You Sound Like You're Sick", de Dee Dee, pesada e rápida como são as suas composições. "It's Not My Place", entupida de The Doors, é mais fraca e encerra o primeiro lado sem comprometer.



Do outro lado, "She's a Sensation" foi o mais comercial que os Ramones puderam soar em toda a sua trajetória. Até hoje é uma espécie de hit alternativo e porta de entrada para novos fãs da banda. "7-11", uma grande canção, erra feio na mão, em um arranjo limpo demais para os padrões do grupo. "You Didn't Mean Anything", advinhem, é mais uma canção pesada e rápida de Dee Dee. Mas, é na seguinte, "Come On Now" que o baixista compositor realmente surpreende, transformando a faixa em um dos pontos altos do disco. 

"This Business Is Killing Me" e "Sitting In My Room" encerram o LP sem o mesmo brilho das demais mas com competência e responsabilidade de não deixar o ritmo cair.


Recentemente, a Rhino, selo da Warner dedicado a compilar e relançar discos clássicos do rock e da música pop, lançou uma edição de luxo como faixas a mais, farto libreto e uma curiosidade, a capa original do disco, feia de doer, com os quatro na capa. 35 anos depois, Pleasant Dreams continua fresco, parecendo ter sido gravado ontem. É um disco para a eternidade, que sobreviveu á morte de três dos quatro integrantes que o gravaram e sobreviverá, até mesmo, à morte do rock'n'roll. Longa vida ao rock, então, porque a imortalidade do melhor disco dos Ramones já está garantida.

sábado, 23 de abril de 2016

Ed.4 - Dos Arquivos Empoeirados - Donnie Iris - Back On The Streets (1980)


Seu início de carreira foi medíocre, tocando guitarra em uma banda do enésimo escalão da música pop no final dos anos 60. Mesmo nos EUA, The Jaggerz jamais alcançaram grande sucesso, ainda que sua "The Rapper" tivesse arranhado levemente as paradas quando foi lançada, por volta de 1970.

Em 1979, ele fora convidado por Rob Parish para integrar a última formação do seu Wild Cherry, que tentava desesperadamente repetir o sucesso mundial de "Play That Funky Music" (inclusive, neste álbum, curiosamente intitulado "Only the Wild Survive", há uma canção chamada  "Keep On Playing That Funkyt Music"). Mas foi apenas em 1980, quando lançou seu primeiro álbum solo, deixando a guitarra de lado e focando na sua carreira de cantor, que Donnie Iris despertou de verdade a atenção da América para si mesmo.

O lançamento de "Back On The Streets" foi antecedido por  um single poderoso, "Oh Leah", que alcançou o 19º lugar nos EUA e 10º no Canadá. A canção, que seria regravada em 2015 pelo grupo Electric Six, se tornaria uma espécie de "assinatura" do músico até os dias de hoje. Finalmente, em julho, o pequeno selo Midwest Records, despretensiosamente, jogava no mercado o debút de Donnie Iris. A melhor posição alcançada pelo álbum seria  a 57ª, entre os 200 mais bendidos nos Estados Unidos, no início do ano seguinte, mas, ainda assim, foi comprado pela gigante MCA Records, três meses após seu lançamento.

Azar de quem nunca ouviu "Back On The Streets". A bolacha, bem enxutinha, traz 10 poderosas canções, perfeitamente antenadas com o power pop que se fazia à época, ainda que soasse um tanto mais "pesada" que os seus congêneres daquele tempo. Com a parceria afiada de Mark Avsec, tecladista do Wild Cherry, e de Marty Lee Hoenes, seu companheiro desde sempre nos Jaggerz, iris perpetrou uma das melhores estréias do "novo rock" que se tem notícia. O disco é deliciosamente dançante, de melodias grudentas e, se hoje soa datado, melhor ainda. Afinal todos os bons discos lançados nos últimos 15 anos são visivelmente carbonos da sonoridade de décadas anteriores.

riff demolidora de "Oh, Leah", que abre poderosamente o primeiro lado, deveria estar listadas entre as melhores riffs do rock em todos os tempos. "I Can't Hear You" é um "rockão" típico enquanto "Joking" é "new wave" em toda a sua manifestação e essência. Já "Shock Treatment" é um "roquinho" que lembra as melhores coisas dos Cars. "Back On The Streets", a faixa-título, é pesada e cheia, flertando com o thrash metal que só seria inventado alguns anos depois. Marty Lee, que tocou todas as guitarras deste disco, alguns anos depois, formaria o The Innocent, primeiro grupo de Trent raznor, fundador do Nine Inch Nails.

No lado B, um hit em potencial, desperdiçado, a saltitante e radiofônica "Agnes". "You're Only Dreaming" repete a fórmula "new wave", inclusive com direito a um safadérrimo órgão Farfisa, preferido de onze entre dez "new wavers" da época. "She's So Wild" é a mais "punk" do álbum, enquanto "Daddy Don't Live Here Anymore" é mais "bluesy". "Too Young To Love", a única balada do LP, com ares de um Bruce Springsteen bêbado e com mais raiva do que o habitual, encerra magnificamentea obra. Nas primeiras edições do disco, os lados aparecem invertidos, o lado A no lado B e vice-versa, mas certamente, "Back On The Streets" soa bem melhor da forma com que ficou conhecido.

A partir de "King Cool" o disco do ano seguinte, a banda passa a se chamar Donnie Iris & The Cruisers, chegando a ter outro hit regional com a canção "Do You Compute", que se tornou praticamente um jingle da empresa de games Atari nos Estados Unidos. Iris continua na ativa, aos 72 anos, esbanjando energia e vitalidade com seus Cruisers. Uma enorme pena não terem alcançado reconhecimento mundial.





sexta-feira, 15 de abril de 2016

Ed. 3 - Tesouros da Juventude - Kate Bush - The Kick Inside (1978)

O ano de 1978 foi bastante prolífico para a música pop. Ainda que, entre os melhores discos daquele ano, listados pelo respeitado site Best Ever Albums,  o  LP melhor posicionado de um brasileiro seja o "Axé", do sambista Candeia (155º lugar) e o metal só venha encontrar um representante no disco homônimo do hoje quase esquecido Molly Hatchet (166º lugar), 1978 foi mesmo o ano do "novo rock" a que se convencionou chamar comercialmente de "new wave". O site relaciona nos cinco primeiros lugares, Bruce Springsteen, Elvis Costello, Van Halen, Blondie e The Cars. Mas é o disco que aparece em 16º lugar que se tornaria um dos mais instigantes lançamentos daquele ano.


1978 também não foi um bom ano para as cantoras pop. Qualquer uma que se aventurasse e não militasse claramente nas fileiras do tal novo rock correria o sério risco de se transformar em alguma espécie de one hit wonder, artista de um sucesso só, vítima da indústria musical daquele momento, cada vez mais preocupada em lançar novos nomes, apenas para descartá-los em seguida. Mas, Kate Bush, definitivamente, não era uma cantora pop comum. Com apenas 19 anos e apadrinhada por ninguém menos que o guitarrista David Gilmour, uma das duas cabeças mais pensantes do Pink Floyd, Bush compunha o que cantava e era dona de uma voz realmente incomum. Preparou meticulosamente o seu disco de estréia durante todo o ano de 1977 e quase o lançara em dezembro, tendo atrasado seu début por questões estéticas que envolviam a capa do primeiro compacto extraído do disco.

Kate Bush agregava mais dois fatores de risco à esta estreia: a religiosidade intensa presente nas letras - o disco inteiro fala de budismo em um momento em que ainda não havia se tornado moda ser budista - e a associação com um músico que,naquele momento, representada tudo que era velho e ultrapassado, o já citado David Gilmour. No mais, Bush não parecia interessada em fazer qualquer tipo de concessão ao sucesso fácil. Sem dúvida, a cantora e compositora era uma aposta de risco para a EMI.

Quando Wuthering Heights, a belíssima canção baseada no livro O morro dos ventos uivantes, de Emily Bronté, chegou às emissoras de rádio, ainda nos primeiros dias de 1978, com toda aquela delicadeza e o canto quase lírico de sua compositora, parecia que nada de muito espetacular aconteceria. A canção, a última a ser escrita para o disco The Kick Inside, que só seria lançado no mês seguinte, não era a preferida da gravadora para aparecer no lado A de um single. Mas  Kate, mais uma vez, bateu o pé, e uma das canções mais emblemáticas do final dos anos 70 acabaria por vir ao mundo. Ainda assim, a gravadora acabou preparando dois clips oficiais para a música, algo muito incomum, até mesmo nos dias de hoje.

Wuthering Heights não é apenas o single mais bem sucedido de toda a carreira de Kate Bush, com quase meio milhão de cópias vendidas em todo o mundo. É também o single mais vendido de uma cantora e compositora britânica e o que chegou mais rapidamente ao primeiro lugar. Entrou em 42º lugar, passando a 27º lugar na semana seguinte e atingindo o topo duas semanas depois. No mês seguinte, finalmente, "The Kick Inside" era lançado, alcançando uma recepção surpreendente para um disco considerado "difícil", de fortes tinturas de pop progressivo.

No Brasil, "The Kick Inside" demorou mais de um ano para ser lançado e, ainda assim, por pouco quase não aconteceu nada, pois a filial brasileira da EMI resolveu apostar em um single da canção "Strange Phenomena". E aí é que entra o relato de uma daquelas situações curiosas que mais tarde serão contadas de forma anedótica: Quando ouvi Kate Bush pela primeira vez, no rádio, foi justamente a canção que fazia parte do compacto de estreia da cantora no país. Eu tenho uma prima chamada Filomena e quando eu ouvi "Strange Phelomena" no refrão, eu li também "Strange Phelomena" quando comprei o compacto e pretendia presenteá-la com ele, ainda que eu jamais soubesse que "strange" significasse "estranha" e não "estrangeira". Uma vez que percebi que era "phenomena" a palavra que constava no título, acabei ficando com o disco para mim e dando a ela outro presente, desta vez outro compacto, da cantora Filomena interpretando uma bisonha versão de "De Do Do De Da Da" do Police. Filomena, a minha prima, detestou o compacto da Filomena, a cantora. Melhor seria ter dado a ela o disquinho da Kate Bush.

De tanto que ouvi sem muita vontade, acabei gostando do single. Mas, confesso, o megahit que se seguiu, a já citada Wuthering Heights, completamente estourada no Brasil graças ao fato de fazer parte de uma trilha de novela de sucesso, não me agradava nem um pouco. Foi só quando The Kick Inside, o álbum, veio parar em minhas mãos, como contrapeso de uma troca, que eu pude, afinal, me apaixonar pelo universo delicado de Kate Bush. Mas, até hoje, apesar de até ter passado a gostar da faixa, Wuthering Heighs continua soando destoante do resto do disco e completamente dispensável, a mesmíssima impressão que eu tive em 1980.

O lado A abre com Moving, uma canção delicada com ênfase no piano na qual ressai com bastante destaque a voz impressionante da cantora. The Saxophone Song repete a dose acrescentada de uma melodia que vai crescendo até desaguar em um belíssimo solo de sax. Strange Phenomena é uma canção bela e estranha - é de se imaginar o que p A&R da EMI brasileira tinha na cabeça quando resolveu lançá-la como single. "Kite" é uma "regatta", como se chamam aqueles reggaes deliciosamente embranquecidos. "The Man With The Child In His Eyes" tem um pé na erudição sem nunca perder a pegada pop. "Whutering Heights" encerra o lado A, com um jeitão de deslocada.

Viramos o lado e tudo fica mais animado com "James And The Cold Gun", um rock quase pesado. "Feel It" é uma pérola pop, um dos melhores momentos do disco. 'Oh To Be In Love" segue a mesma linha e a gente começa a pensar como o lado B do disco é tão melhor que o lado A. Então vem "L'Amour looks SOmething Like You" e meio que corta o clima, mas é curta e acaba não fazendo tanata diferença.  "Them Heavy People", de letra assumidamente budista e outra reggatta, recupera maravilhosamente a vibração deste segundo lado e é, disparadamente, a melhor canção do álbum inteiro."Room For The Life" segura o pique e "The Kick Inside", sem muitas surpresas em relação ao que j´pa se ouviu até aqui,  encerra o lado e o disco, de maneira correta e precisa.

Nada do que a cantora fez após The Kick Inside passou perto do sucesso, da importância e da relevância deste disco de estréia. Ainda que seus terceiro e quarto discos a transformassem definitivamente em uma estrela de renome mundial - o segundo, Lionheart, foi lançado de maneira equivocada logo em seguida ao primeiro e é pouco conhecido do público - é o seu excelente disco de estréia o alicerce para que Kate Bush escrevesse de forma definitiva o seu nome na história da música pop mundial.